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	<title>Paulo Rebêlo &#187; Crônicas</title>
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	<description>rebelox .:. jornalismo de precisão e crônicas imprecisas</description>
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		<title>Aquele tal de futuro</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Jan 2012 12:39:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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		<description><![CDATA[Paulo Rebêlo &#124; 18.janeiro.2012 &#8211; Quando ela perguntava se iria demorar muito para nos vermos, eu não sabia o que responder. Não entendia a importância de uma data aleatória se estávamos sempre juntos mesmo estando longe. O dia sempre chegava, geralmente mais cedo do que tarde. Quando ela perguntava o que iríamos fazer daqui a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Paulo Rebêlo | 18.janeiro.2012</strong><br />
&#8211;</p>
<p>Quando ela perguntava se iria demorar muito para nos vermos, eu não sabia o que responder. Não entendia a importância de uma data aleatória se estávamos sempre juntos mesmo estando longe. O dia sempre chegava, geralmente mais cedo do que tarde.</p>
<p>Quando ela perguntava o que iríamos fazer daqui a um ano, eu não sabia o que responder. Não entendia a expectativa, já que estava mais ansioso em ver se os olhos dela iriam brilhar de felicidade com a <a href="http://www.rebelox.com/2009/08/um-doce-para-maria/">sobremesa do restaurante</a> naquela noite.</p>
<p>Quando ela perguntava quando iríamos fazer aquela viagem, eu não sabia o que responder. Não entendia a urgência, já que todo ano tem férias. E havia tantas férias pela frente.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2012/01/2185528-7876-cp2.jpg"><img class="size-full wp-image-2629 aligncenter" style="border-image: initial; margin-top: 4px; margin-bottom: 4px; border-width: 1px; border-color: black; border-style: solid;" title="(c) rebelox.com" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2012/01/2185528-7876-cp2.jpg" alt="" width="514" height="290" /></a></p>
<p>Quando ela perguntava quando iríamos juntar as trouxas no mesmo armário, eu não sabia o que responder. Não entendia como ia funcionar a logística, pois em casa não tinha nem armário. E a cama era apenas um colchonete no chão frio.</p>
<p>Quando ela perguntava quando poderíamos ter um cachorro grande e peludo, eu não sabia o que responder. Não entendia a pressa, pois a média de vida de um cão é de apenas 12 a 15 anos. Teríamos tempo para ver nascer e morrer pelo menos três cachorros gigantes.</p>
<p>Quando ela perguntava por que eu não fazia planos para o futuro, eu não sabia o que responder. Não entendia o questionamento, pois meu planejamento mais importante já estava feito: ela.</p>
<p>Quando ela perguntava se eu não ficava com raiva dos pitis e chiliques infantis, eu não sabia o que responder. Não entendia a motivação, mas gostava de pensar que era uma espécie de treinamento para <a href="http://www.rebelox.com/2003/08/mudanca-filhos-e-futricos/">o filho</a> que hoje ela não queria, mas que amanhã certamente ia querer quando chegasse esse tal de futuro que só ela conseguia entender.</p>
<p>Quando ela perguntava por que somente ela tinha ciúmes, eu não sabia o que responder. Não entendia o motivo de precisarmos ser os dois adultos infantis em vez de apenas um.</p>
<p>Quando ela perguntava por que aquela sirigaita precisava me abraçar e falar que estava com saudades ali no meio da rua e na frente de todo mundo, eu não sabia o que responder. Não entendia como ela mudava de assunto quando me oferecia para ir perguntar.</p>
<p>Quando ela perguntava quando a gente ia conversar sobre o nosso futuro, eu não sabia o que responder. Não entendia porque deveríamos questioná-lo se, pela primeira vez depois de <a href="http://www.rebelox.com/2002/08/as-cinco-mulheres-de-todo-homem/">tantos anos</a>, eu estava tendo um presente.</p>
<p>Quando ela perguntou se a gente devia se separar, continuei sem saber o que responder.</p>
<p>Mas entendi que não haveria mais perguntas.</p>
<p>__<br />
<em>* link original no <a href="http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5563317-EI14598,00-Aquele+tal+de+futuro.html" target="_blank">Terra Magazine</a></em></p>
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		<title>Elixir do emagrecimento</title>
		<link>http://www.rebelox.com/2011/12/elixir-do-emagrecimento/</link>
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		<pubDate>Wed, 28 Dec 2011 15:43:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[cuba]]></category>
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		<description><![CDATA[Paulo Rebêlo &#124; 28.dez.2011 Com as confraternizações de fim de ano, a gente termina reencontrando umas pessoas desaparecidas do nosso convívio. E entre abraços e tapinhas nas costas, fica comprovado pela milésima vez que o melhor remédio para emagrecer continua sendo a separação. É impressionante como quase todas que perderam peso ou ficaram mais bonitas são, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Paulo Rebêlo | 28.dez.2011</strong></p>
<p>Com as confraternizações de fim de ano, a gente termina reencontrando umas pessoas desaparecidas do nosso convívio. E entre abraços e tapinhas nas costas, fica comprovado pela milésima vez que o melhor remédio para emagrecer continua sendo a <a href="http://www.rebelox.com/2003/11/rapsodia-da-separacao/">separação</a>.</p>
<p>É impressionante como quase todas que perderam peso ou ficaram mais bonitas são, justamente, as que se separaram ou acabaram um relacionamento de longa data.</p>
<p>É verdade que uma meia dúzia sofre tanto no divórcio que entra em depressão a ponto de perder a fome. Emagrecem doentes.</p>
<p>O restante segue a cartilha da separação como se fosse um elixir. Se é para voltar ao mercado da luxúria e aos bons drinques, nada melhor do que aproveitar a passarela das confraternizações diárias de dezembro, o réveillon e o intervalo entre o fim de um ano e o início do próximo. Uma época, aliás, que todo mundo parece um pouco mais carente.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2011/12/terra-elixir.jpg"><img class="aligncenter  wp-image-2620" style="border-image: initial; border-width: 3px; border-color: black; border-style: solid;" title="(c) rebelox.com" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2011/12/terra-elixir-1024x680.jpg" alt="" width="574" height="381" /></a></p>
<p>Morro de medo dessas pessoas. Não sem razão. É que muitas dessas mulheres a gente já conhece do passado, quando eram casadas, perdidas no tempo e nos afazeres domésticos, sem rir das piadas sem graça dos amigos papudinhos do marido ou namorado.</p>
<p>Anos depois, você encontra essas mesmas criaturas dentro de um vestidinho preto, toda magrinha e curvilínea, linda de cabelos longos, bebendo tudo que não bebia antes e sem nenhum anel na mão. E para piorar, são simpáticas e risonhas até mesmo para a piada do tomate que atravessou a rua.</p>
<p>Tenho tanto medo que, quando vejo uma mulher dessas, finjo que não vi, me escondo no banheiro do bar ou dentro de alguma loja até elas irem embora. Porque sei que não vai dar certo uma coisa dessas.</p>
<p>O problema é que às vezes não tem como se esconder, geralmente quando os bons drinques já começam a cobrar a fatura dos neurônios. Termina não dando certo do mesmo jeito. É como se elas tivessem fugido de Cuba.</p>
<p>É verdade, também, que esse método rápido de emagrecimento não é uma exclusividade do fim de ano. Porque se é para emagrecer, divórcio vende mais do que <a href="http://youtu.be/MsFinwtiuMw">coscarque</a>.</p>
<p>__<br />
* <em>link original no <a href="http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5535037-EI14598,00-Elixir+do+emagrecimento.html" target="_blank">Terra Magazine</a></em></p>
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		<title>Relações por milhagem</title>
		<link>http://www.rebelox.com/2011/12/relacoes-por-milhagem/</link>
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		<pubDate>Fri, 16 Dec 2011 01:45:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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		<description><![CDATA[Paulo Rebêlo &#124; 14.dez.2011 Terra Magazine *** Sou contra casamento na igreja, noivado, aliança, anel de compromisso e, hoje em dia, até mesmo a morar junto todos os dias da semana. Mas sou a favor de um contrato nos relacionamentos. Com registro em cartório e reconhecimento de firma de pelo menos duas testemunhas. Teria apenas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Paulo Rebêlo | 14.dez.2011<br />
Terra Magazine<br />
***</p>
<p>Sou contra casamento na igreja, noivado, aliança, anel de compromisso e, hoje em dia, até mesmo a morar junto todos os dias da semana.</p>
<p>Mas sou a favor de um contrato nos relacionamentos. Com registro em cartório e reconhecimento de firma de pelo menos duas testemunhas.</p>
<p>Teria apenas uma cláusula: <em>terminada a relação, as partes concordam em se encontrar a cada quatro anos para tomar um café, uma cerveja ou um tacacá</em>.</p>
<p>A fim de evitar ciúmes dos respectivos e atuais cônjuges, se necessário o encontro pode ser filmado pelas câmeras de segurança do estabelecimento ou intermediado por uma testemunha idônea, de mútua amizade e ilibada conduta.</p>
<p>Porque é sempre uma aflição quando os anos passam e a gente não tem mais notícia de quem passou por nós. Nem por Facebook.</p>
<p>Não se trata de saber se a pessoa casou ou encalhou. Até porque elas sempre casam e procriam, é impressionante. Não necessariamente nesta ordem.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2011/12/DSC01250-2.jpg"><img class="wp-image-2606 aligncenter" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px;" title="(c) rebelox.com" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2011/12/DSC01250-2-1024x685.jpg" alt="" width="655" height="438" /></a></p>
<p>Queremos apenas saber se, mesmo casada, ela está bem de verdade. Se <a href="http://www.rebelox.com/2009/09/a-mulher-infeliz/">está feliz</a>, se gosta do trabalho atual, se não apanha do marido, se já teve os quatro filhos que queria ou se já entrou no Bolsa Família. Enfim, queremos apenas o direito de também ficarmos felizes por elas. Mesmo que a gente nunca revele este último detalhe.</p>
<p>Pode ser que nada tenha mudado e ela tenha apenas <em>conquistado</em> dez quilos na balança. Ou vinte. Ou pintado o cabelo de loiro platinado.</p>
<p>Mas às vezes a platina vira chumbo e elas perderam o emprego, perderam a mãe, perderam o apartamento, sofrem assédio moral no trabalho, estão cheias de dívidas com agiotas, ficaram doentes ou clinicamente deprimidas. Completamente <a href="http://www.rebelox.com/2011/05/beleza-cansada/">perdidas e sem rumo</a> na vida.</p>
<p>Às vezes elas apenas precisam de alguém de confiança para sugerir um amigo solteiro para sair, que não seja muito feio e nem muito burro. E que tenha todos os dentes na boca, embora eu discorde desta última exigência.</p>
<p>Nem sempre sabemos <a href="http://www.rebelox.com/2002/08/as-cinco-mulheres-de-todo-homem/">onde elas estão</a>. Recebemos notícias dos amigos em comum ou de ex-patrões. Sim, porque elas têm essa mania de desaparecer, de não ter mais contato, de sumir do mapa para todo o eterno. Nem sempre por raiva ou por mágoa. Muitas vezes por orgulho, outras vezes por vergonha.</p>
<p>É claro que pode dar errado e entrar água na chopp. Depois de tantos anos, basta um copo para tudo acabar no motel. Ou na delegacia.</p>
<p>Também pode ser um choque de realidade, adiado por tanto tempo.</p>
<p>Pode ser a comprovação que lhe faltava de que ela está muito mais feliz hoje do que ontem. Que teve os filhos que você não quis ter, a casa que você não quis morar, as viagens que você não quis fazer.</p>
<p>E que apesar de todas as suas dúvidas de reconciliação e sonhos de que ela fosse voltar um dia, de que vocês se encontrariam num <a href="http://www.rebelox.com/2011/11/desembarques/">aeroporto</a> qualquer e cancelariam os voos ali na fila do check-in, bom, esse pequeno encontro contratual pode lhe mostrar que você perdeu o horário do voo.</p>
<p>Porque quando ela pega na xícara, <a href="http://www.rebelox.com/2011/06/cafe-sopa-e-mulher/">cheira o café</a> que ela tanto detestava e nem coloca mais o <a href="http://www.rebelox.com/2009/08/um-doce-para-maria/">açúcar</a> que ela tanto adorava, é o jeito simples de mostrar que as suas milhas acabaram e só você esqueceu de conferir o extrato.</p>
<p>___<br />
<em>* link original no <a href="http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5517124-EI14598,00-Relacoes+por+milhagem.html" target="_blank">Terra Magazine</a>.</em></p>
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		<title>Desembarques</title>
		<link>http://www.rebelox.com/2011/11/desembarques/</link>
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		<pubDate>Wed, 30 Nov 2011 20:32:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Paulo Rebêlo &#124; 30.nov.2011 Terra Magazine *** Não me importaria se, ao chegar em casa cansado do expediente, três mulheres de vestidos floridos e cabelos vermelhos estivessem me esperando. Uma para coçar a barba, outra para coçar o bucho e a terceira para os serviços gerais. O problema é que, quando a gente chega de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Paulo Rebêlo | 30.nov.2011<br />
Terra Magazine</em><br />
***</p>
<p>Não me importaria se, ao chegar em casa cansado do expediente, três mulheres de vestidos floridos e cabelos vermelhos estivessem me esperando. Uma para coçar a barba, outra para coçar o bucho e a terceira para os serviços gerais.</p>
<p>O problema é que, quando a gente chega de viagem, queremos distância de toda a lascívia. Real ou imaginária. Mesmo que sejam vinte mulheres lindas de <a href="http://www.rebelox.com/2007/10/vestidos-e-unhas/">vestidos de botão e unhas grandes</a>.</p>
<p>Porque não importa quantos aeroportos a gente conheça ou quantas vezes já tenhamos feito a mesma viagem ou roteiro. Todo desembarque é um ato solitário que enfraquece até a mais sólida das solidões.</p>
<p>Não faz diferença se é um voo de 45 minutos ou 14 horas de trem. O desembarque deixa qualquer um meio perdido e, em todos os lugares, me parece a mesma tristeza de sempre com aquelas pessoas alteradas e apressadas para ir embora.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2011/11/desembarques.jpg"><img class="size-full wp-image-2589 aligncenter" style="margin-top: 4px; margin-bottom: 4px; border-width: 1px; border-color: black; border-style: solid;" title="Estação Ferroviária de Porto-São Bento, Portugal. Foto: Paulo Rebêlo" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2011/11/desembarques.jpg" alt="" width="500" height="335" /></a></p>
<p>Talvez por isso ninguém consiga explicar direito a pequena grande alegria de você se enfiar no meio daquela multidão e encontrar uma pessoa que lhe espera. Dar um abraço em silêncio e um cheiro prolongado. Para enfim sair andando calmamente.</p>
<p>Quem sabe essa pessoa nem goste mais tanto assim de você, talvez não signifique nada de fato. Não obstante, se desloca até os nossos <a href="http://www.rebelox.com/2006/08/viagem-de-aviao/">distantes aeroportos</a>, caros estacionamentos, longas filas de espera e corriqueiros atrasos de voo.</p>
<p>Tudo isso por um desembarque que só dura vinte minutos. Todo esse processo que poderia ser resumido de um jeito tão mais simples e objetivo (olha quem fala) que é esperar dentro do carro, do lado de fora do aeroporto, com o motor ligado, a porta aberta e o GPS já programado para lhe deixar no hotel.</p>
<p>Mas talvez a pessoa que lhe espere não pense assim, tão objetivamente. E esteja ali porque para ela significa mais do que a sua pequena grande alegria.</p>
<p>E durante aqueles poucos passos que separam a porta do desembarque e o abraço daquela mulher, você não sabe direito para onde olhar porque é impossível não pensar que ela também estava ali sozinha no meio daquela multidão de famílias saudosas. Talvez pensando mil coisas ruins e sofrendo de mil memórias que gostaria de esquecer. Esperando a porta de vidro se abrir e com a respiração acelerada até conseguir encontrar, no meio da manada, aqueles últimos fios de cabelo de uma careca que ela consegue identificar de longe.</p>
<p>Por vezes o desembarque lhe mostra que a solidão parece ser maior de quem estava do lado de fora, muito mais sozinha do que todas as outras pessoas com suas micaretas baianas de faixas e bandeiras. Muito mais sozinha do que você puerilmente supõe quando desembarca sem rumo e sem endereço fixo.</p>
<p>Porque afinal o desembarque é apenas um lado desse momento todo, daqui a alguns dias chega a hora e a euforia do próximo embarque. E como todos os outros embarques de todos os outros anos e de todos os outros aeroportos e outras rodoviárias, a gente vai embora enquanto a multidão fica.</p>
<p>E ela novamente se vê sozinha no meio de tudo aquilo, agora também na sala de embarque, perdida como se nunca fosse sair do aeroporto, mas pior ainda, sem conexão e sem escalas para se sentir mais próxima de tudo que ela sente. Tendo que abraçar apenas a ponta de esperança que o voo seja cancelado por algum motivo, que a porta de vidro se abra e a gente desembarque de volta.</p>
<p>Não que ela tenha dúvidas se haverá outro desembarque, pois ela tem a falível certeza que você vai continuar assim. Desembarcando na vida dos outros. Mas sobretudo porque ela sabe que o próximo desembarque pode não ser mais o mesmo. Para você e, principalmente, para ela.</p>
<p>______<br />
* link original no <a href="http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5495345-EI14598,00-Desembarques.html" target="_blank">Terra Magazine</a></p>
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		<title>Namorando a vovó</title>
		<link>http://www.rebelox.com/2011/10/namorando-a-vovo/</link>
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		<pubDate>Wed, 05 Oct 2011 13:25:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Paulo Rebêlo Terra Magazine 05.outubro.2011 Segunda-feira, a jovem manceba chega ao escritório com o sorriso na testa. Antecipa-se a todos para dizer que &#8220;beijou muito&#8221; no fim de semana. Foi para todas as baladas, dançou, esfregou, pegou geral. As colegas aplaudem, comentam, pulam, incentivam. E se aquelas donzelas preferissem trocar toda a pegação da balada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Paulo Rebêlo<br />
Terra Magazine<br />
05.outubro.2011</p>
<p>Segunda-feira, a jovem manceba chega ao escritório com o sorriso na testa. Antecipa-se a todos para dizer que &#8220;beijou muito&#8221; no fim de semana. Foi para todas as baladas, dançou, esfregou, pegou geral.</p>
<p>As colegas aplaudem, comentam, pulam, incentivam.</p>
<p>E se aquelas donzelas preferissem trocar toda a pegação da balada por um final de semana em casa, assistindo Zorra Total na televisão, com um pote de häagen-dazs no colo e um namorado coxinha que segure a mão delas enquanto ri com as piadas super engraçadas do Chico Anysio ao telefone com a Dilma?</p>
<p>E elas acordariam cedo no domingo para brincar de casinha: ir ao mercado fazer a feira da semana, comprar iogurte light, frutas frescas e verduras orgânicas. Para depois ir almoçar com os pais TFP do coxinha, em verdadeira comunhão familiar.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" style="margin-top: 2px; margin-bottom: 2px; border-width: 2px; border-color: black; border-style: solid;" src="http://img.terra.com.br/i/2011/10/04/2049098-4732-cp2.jpg" alt="(c) rebelox.com" width="514" height="290" /></p>
<p>Não é ficção. Ainda não consegui entender como tanta gente, cada vez mais jovem, sonha com uma vida assim já tão cedo.</p>
<p>Mesmo depois de todas as revoluções culturais, sociais e sexuais que tivemos nas últimas décadas. Justamente para que nossos filhos e netos pudessem ter a liberdade que a gente não teve.</p>
<p>Essas moças e rapazes podem fazer tudo que nossas avós nunca puderam. Mas entre desbravar o mundo com as próprias pernas ou arrumar um &#8220;namorido&#8221;, escolhem o primeiro coxinha que aparece.</p>
<p>É como se o Luciano Huck tivesse se transformado no modelo de marido ideal.</p>
<p>É natural a gente querer um pouco de chão. Nem que seja um chão com colchonete e sem ventilador. Mas quem sonhava com isso aos 20 e poucos anos eram nossas avós. Quando era pecado passível de queimar no fogo dos infernos uma mulher <a href="http://www.rebelox.com/2001/09/mulheres-de-30/">passar dos 30</a> sem marido.</p>
<p>Nunca tivemos tanta liberdade para fazer tudo. E quanto mais liberdade se tem, mais fico com a impressão que elas estão parecidas com nossas avós.</p>
<p>Nunca botaram os pés para fora de casa, mas já querem uma vida de novela. Com casa própria, armários para roupas e sapatos, TV por assinatura, internet rápida, carro zero, roupas que aparecem na televisão e um sapato para cada ocasião diferente.</p>
<p>Mas se você perguntar onde fica a padaria mais próxima no bairro, não sabem responder.</p>
<p>Não sei se há culpa de novelas ou de seriados enlatados. Sei apenas que o <a href="http://www.rebelox.com/2009/11/discursos-sinceros/">discurso</a> das neo-vovós é assustador. No dia a dia, na vida contada aos amigos, tudo é muito moderno. Baladas, alta gastronomia e sexo toda hora e em todo lugar. Na prática, sonham com a vidinha que a vovó se orgulharia.</p>
<p>Sem nunca pular para o outro lado do cordão de segurança no carnaval de Salvador. Viajar sem planejar, sem destino e sem mapa? Pode acontecer uma tragédia. Elas viram no Fantástico que essas coisas acontecem.</p>
<p>Deve ser muito difícil namorar uma vovó.</p>
<p>________<br />
<a href="http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5394019-EI14598,00-Namorando+a+vovo.html" target="_blank">Link original</a> no Terra Magazine.</p>
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		<title>Honesta gravata</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Sep 2011 19:04:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Paulo Rebêlo Terra Magazine 21.setembro.2011 Não gosto de usar paletó. Falando assim, parece o velho clichê de querer ser informal ou tentar reafirmar a condição de homem primitivo. Mas é apenas uma aflição ideológica. Não sei o motivo, mas as pessoas costumam me tratar muito bem quando estou de paletó. E isso faz o nó da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Paulo Rebêlo<br />
Terra Magazine<br />
21.setembro.2011</p>
<p>Não gosto de usar paletó. Falando assim, parece o velho clichê de querer ser informal ou tentar reafirmar a condição de <a href="http://www.rebelo.org/hipopocaranga/2006/o-homem-primitivo/">homem primitivo</a>.</p>
<p>Mas é apenas uma aflição ideológica. Não sei o motivo, mas as pessoas costumam me tratar muito bem quando estou de paletó. E isso faz o nó da gravata apertar demais a minha garganta.</p>
<p>Sempre me questiono por que não recebo o mesmo tratamento de estranhos quando estou com minhas calças de pano e meu kichute genérico? É a mesma pessoa.</p>
<p style="text-align: center;" align="center"><a href="http://www.flickr.com/rebelo/" rel="http://www.flickr.com/rebelo/"><img class="alignnone" style="border-width: 1px; border-color: black; border-style: solid; margin: 2px;" src="http://img.terra.com.br/i/2011/09/21/2031819-6531-in.jpg" alt="(c) rebelo.org" width="450" height="300" /></a><em><br />
</em></p>
<p>Não é uma aflição recente. Comecei a reparar na diferença quando, ainda bem jovem, ouvi de uma moça que <em>nenhuma mulher resiste a homem de paletó</em>. Não quis nem saber o motivo. Quase corri na loja mais próxima para comprar vinte paletós e quarenta gravatas.</p>
<p><span id="more-582"></span></p>
<p>Com o passar dos anos e por força eventual do ofício, percebi que não eram apenas as mulheres que me olhavam diferente.</p>
<p>Se as mulheres parecem olhar com mais interesse, os homens parecem falar com mais respeito, reverência ou medo. Às vezes é difícil diferenciar uma coisa da outra.</p>
<p>Dependendo do lugar e do momento, o paletó transforma-se na Matrix. Uma realidade paralela onde um simples terno e gravata ajuda não apenas a abrir portas, mas também pernas.</p>
<p>Na rua, ninguém sabe se você está de paletó porque é vendedor de seguros ou porque é uma pseudo-autoridade. Na dúvida, ninguém quer descobrir. Vai que ele é advogado? Deputado? Vai que é assessor do presidente? Não faz diferença. Se o cara está de paletó, deve ser doutor. Deve ser alguém importante. Deve ter dinheiro.</p>
<p>Na lanchonete, é como se o <a href="http://www.rebelo.org/2010/01/garcom/">garçom</a> tivesse a obrigação de servir um café de primeira, um almoço caprichado, um suco feito na hora. E sempre com um sorriso, doutor.</p>
<p>E o cara que está ali na minha frente, às vezes pagando mais caro do que eu, ninguém nem pergunta se ele gostou da comida ou se quer mais alguma coisa.</p>
<p>Na delegacia, os policiais tratam bem para disfarçar a raiva nessa quebra da hierarquia de poder. O problema é que funciona. Vá tentar resolver qualquer coisa de tênis e calça jeans e depois tente ir de paletó. Você nunca mais vai entrar numa delegacia sem o terno. Você vira uma autarquia andante.</p>
<p>À noite, no restaurante, é como se ninguém mais trabalhasse no planeta e apenas os homens de paletó fizessem o trabalho pesado. Só eles merecem mais atenção, merecem receber a carta de vinhos sem perguntar, merecem aquele aperto de mão do gerente. E na hora da conta ainda tem a disputa para ver quem entrega a dolorosa. Claro, porque um cara de paletó sempre pode deixar uma gorjeta melhor.</p>
<p>Fico me perguntando se talvez não seja um medo coletivo de que a gente &#8211; por estar usando um terno preto &#8211; dê voz de prisão a qualquer momento. Ou então somos gerentes do Banco do Brasil e podemos fazer uma ligação e lhe conceder um crédito a juro zero em duzentas prestações.</p>
<p>Resolvi abolir de vez a vestimenta quando, certa vez, uma outra moça disse que minha barriga ficava bem menor com o terno e gravata. Ou seja, não basta vestir a Matrix. Agora eu tinha virado parente do David Copperfield.</p>
<p>Dá o maior trabalho conservar essa pança e, de repente, por causa de uma mera ilusão de ótica, perde-se todo o sentido de coçar a barriga enquanto se toma um chopp. Não pode ser normal uma coisa assim.</p>
<p>Encostei a paletó no armário até criar teia de aranha.</p>
<p>Admito minha fraqueza e reconheço que, às vezes, faz falta. É comum me servirem <a href="http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5199976-EI14598,00-Cafe+sopa+e+mulher.html">café frio</a>. Não me oferecem a carta de vinhos. A conta demora a chegar. Nenhum gerente quer ser meu amigo de infância. E, claro, encontro mais pernas fechadas do que abertas.</p>
<p>Não é fácil. Mas pelo menos ninguém se ilude por baixo dos panos.</p>
<p>__________<br />
<a href="http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5362068-EI14598,00-Honesta+gravata.html" target="_blank">Link original</a> no Terra Magazine.</p>
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		<title>O homem backup</title>
		<link>http://www.rebelox.com/2011/08/homem-backup/</link>
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		<pubDate>Thu, 04 Aug 2011 02:04:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Paulo Rebêlo Terra Magazine 03.agosto.2011 A gente nunca admite por vergonha, mas estamos quase sempre procurando &#8211; ou esperando &#8211; alguém para substituir algo que perdemos. Os amigos são os mesmos. Família, trabalho e problemas, também. Arquivos do acaso, alguém puxa o mesmo livro que o seu na prateleira da livraria e, sem ninguém lembrar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Paulo Rebêlo<br />
Terra Magazine<br />
03.agosto.2011</p>
<p>A gente nunca admite por vergonha, mas estamos quase sempre procurando &#8211; ou esperando &#8211; alguém para substituir algo que perdemos.</p>
<p>Os amigos são os mesmos. Família, trabalho e problemas, também. Arquivos do acaso, alguém puxa o mesmo livro que o seu na prateleira da livraria e, sem ninguém lembrar direito como isso acontece, estão os dois sentados tomando um café, uma cerveja ou aquele copo de uísque sem gelo.</p>
<p>Humanamente impossível não passar pela cabeça dela, sequer por um segundo: <em>será que ele vai me ajudar a esquecer&#8230;?</em></p>
<p>Quando o &#8216;ele&#8217; em questão é você, é melhor suspender as ilusões platônicas e mandar trazer o gelo.</p>
<p style="text-align: center;"><img class=" aligncenter" style="border-style: initial; border-color: initial; margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; border-width: 0px;" src="http://img.terra.com.br/i/2011/08/03/1975684-3416-cp2.jpg" alt="(c) rebelo.org" width="514" height="290" /></a></p>
<p>Porque em momentos assim, tudo que nós precisamos ser é alguém para ajudar a colocar uma pedra naquela cicatriz meio aberta, meio fechada, mas exposta o suficiente para ela não ter mais se interessado de verdade por ninguém. Até agora.</p>
<p>É quando nos tornamos uma espécie de cópia de segurança psicológica. Afinal, ela tem todos os motivos do mundo para não precisar conhecer, e muito menos se interessar, por gente nova.</p>
<p>Não faz diferença há quanto tempo acabou o casamento ou o namoro. Importa que ninguém conseguiu preencher, ainda, a lacuna daquele homem que passou. Pouco ou nada adiantou a série de curtições na balada com as amigas, os encontros cegos que elas marcaram, os pretendentes de plantão.</p>
<p>Faremos nós a diferença?</p>
<p>Ela não quer mais um <a href="http://www.rebelo.org/hipopocaranga/2003/o-azeitador-de-maquinario">azeitador de maquinário</a>. Aliás, nem precisa. Há aos montes. Não quer conselhos e nem consolos. Para tal, as amigas bastam.</p>
<p>Quer apenas um pouco mais de segurança. O mínimo, uma fatia, uma porção júnior para não precisar acordar, todo dia, sem fazer ideia de como serão as próximas manhãs, tardes e noites.</p>
<p>Enquanto elas falam, gesticulam, logo ali à frente, a única coisa que passa pela minha cabeça é tentar descobrir o que passa pela cabeça delas em relação a nós.</p>
<p>Será que a fazemos lembrar do ex? Será que temos o tom de voz parecido? Será que torcemos para o mesmo time? Temos as mesmas convicções e preconceitos?</p>
<p>E quando os olhos dela começam a brilhar, será que é um encanto sincero ou um choro contido? Talvez por ter lembrado de algo que não gostaria, apenas pelo jeito de como chamamos o <a href="http://www.rebelo.org/hipopocaranga/2010/garcom/">garçom</a>.</p>
<p>Basta um pequeno gesto, seu, para reviver um batalhão de memórias supostamente mortas. Pode ser o jeito de segurar o copo, de oferecer o primeiro gole, de ter medo de multidão, de não encontrar o carro no estacionamento, de tropeçar sempre no mesmo degrau, de levantar apenas uma sobrancelha, de coçar a cabeça, de roer as unhas.</p>
<p>Como vamos saber?</p>
<p>E depois de pagar a conta, será que iremos nos encontrar novamente porque somos parecidos a alguém que ela tanto amou? Ou será porque somos exatamente o oposto dele?</p>
<p>Se estamos no cinema, será que o nosso ombro tem aquela simetria perfeita à qual ela se acostumou tão bem?</p>
<p>Quando deitamos juntos, será que por instantes ela vai lembrar de todas as noites em que eles dormiram durante meses, durante anos? E agora ela está prestes a fazer o mesmo, sem ele?</p>
<p>E depois, quando ela encosta a cabeça em nosso peito ofegante de cansaço, será que conseguimos passar toda a segurança que ela supõe precisar?</p>
<p>Nenhum homem passa incólume a esses questionamentos.</p>
<p>Mas, no fundo, a gente não quer saber a resposta. Para um dia não ter que responder o mesmo.</p>
<p>_______<br />
<a href="http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5277468-EI14598,00-O+homem+backup.html" target="_blank">Link original</a> no Terra Magazine.</p>
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		<title>As crianças de Brasília</title>
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		<pubDate>Wed, 06 Jul 2011 11:31:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Paulo Rebêlo Revista MeiaUm &#8211; ed. 4 &#8211; junho.2011 * ilustração por Claudia Dias Quando coloquei os pés em Brasília pela primeira vez – lá se vão quase 25 anos – pensei comigo mesmo: as crianças daqui devem ser muito felizes. Senti uma inveja retardatária. Os anos passam e, durante todas minhas viagens a trabalho para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Paulo Rebêlo<br />
</strong><em><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2011/07/rebelo-meiaum-jun2011.pdf">Revista MeiaUm</a> &#8211; ed. 4 &#8211; junho.2011<br />
<em>* ilustração por <a href="mailto:claudiadias@gmail.com">Claudia Dias</a></em> </em><br />
<em><br />
</em></p>
<p>Quando coloquei os pés em Brasília pela primeira vez – lá se vão quase 25 anos – pensei comigo mesmo: as crianças daqui devem ser muito felizes. Senti uma inveja retardatária.</p>
<p>Os anos passam e, durante todas minhas viagens a trabalho para cá, sempre carreguei o mesmo pensamento. Crescer em Brasília deveria ser o paraíso. Contudo, por estar sempre a trabalho, não tinha tempo para nada. Muito menos para observar se as crianças daqui eram mesmo felizes.</p>
<p>Hoje, morando no Plano Piloto pela segunda vez, não sei dizer se elas são mais felizes do que as outras crianças. Agora, com tempo para observar mais de perto, sempre me pergunto: onde estão as crianças de Brasília?</p>
<p>Não as vejo em lugar algum. Olho para tanto espaço livre e não as encontro.</p>
<p><span id="more-545"></span>No Brasil, nunca conheci nenhuma outra capital com tanta área verde e terrenos livres para correr, brincar, jogar bola, rodar pião e andar de bicicleta com segurança. Na minha infância, seria um paraíso.</p>
<p>Aliás, na adolescência também seria. Uma das maiores dificuldades, quando adolescente, era achar um descampado para jogar bola sem medo de levar um tiro de sal na bunda, ser assaltado, atropelado ou transformado em almoço de cachorro brabo. E a gente invadia a rua mesmo assim. No meio da pista, entre os carros, ao lado do lixão, atrás da estação de metrô. Em qualquer buraco.</p>
<p><img class="size-full wp-image-547 alignright" style="margin: 4px;" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2011/07/Acrobat.jpg" alt="" width="223" height="796" />O cenário podia ser horrível, mas na imaginação da gente era o Maracanã. Aqui em Brasília, para onde jogo o olhar, já consigo me visualizar com dois chinelos para fazer a barra do gol, uma bola dente de leite e outros três moleques descalços correndo atrás da gorducha. Uma Seleção Brasileira.</p>
<p>É como se cada quadra residencial tivesse o seu próprio Maracanã de verdade. Com gramado e tudo. Só falta jogador. Um cenário impossível de acontecer em qualquer outra cidade.</p>
<p>Na primeira vez que vi de perto o Congresso Nacional, não dei a menor bola para a arquitetura do lugar. Só tinha olhos para a imensidão daquele gramado verdão, quase brilhando.</p>
<p>Tendo passado a maior parte da minha infância e adolescência no centro do Recife, uma área verde, por menor que fosse, era como um oásis no meio do deserto. Por mais qualidades que a capital pernambucana possa ter, planejamento urbano certamente nunca foi uma delas.</p>
<p>A gente jogava bola na areia da praia, no barro, no cimento, entre pedras, paus e até cacos de vidro. Perdi as contas de quantas vezes cortei os dedos e rasguei o pé por causa de cacos de vidro misturados entre os pedregulhos. Além de dividir parte do descampado com urubus e ferro velho.</p>
<p>Em Brasília, para onde olho tem grama. Não é um campo de futebol, mas é grama. Verdinha. Arrumada. Se a grama falasse, diria para todas as crianças: por que vocês não usam a gente depois da escola? O que tanto vocês fazem o dia inteiro? Todos os dias?</p>
<p>Às vezes, passo na frente do Congresso só para ver aquele gramado. Vejo um time de futebol&#8230; americano. E todos adultos. Vejo (poucos) turistas descendo em tobogã no gramado e até mesmo algumas crianças – de outras cidades – dando cambalhotas. Desconfio que nenhuma delas é de Brasília.</p>
<p>Onde será que elas dão cambalhotas e brincam de Jaspion?</p>
<p>Talvez no Pontão do Lago Sul. Mas lá só encontro noivas tirando retrato, playboys de camiseta apertada e loiras de shortinhos e minissaia. E crianças que não desgrudam dos pais nem para apostar uma corrida até o coqueiro, dentro de uma rede imaginária de proteção.</p>
<p>Nas quadras, não consigo ver meia dúzia de crianças brincando na rua. Se não fosse a diferença na arquitetura, lembraria minhas caminhadas pelas periferias abandonadas da Cracóvia.</p>
<p>Talvez me digam que Brasília nunca foi o paraíso das crianças. Que tudo isso é uma grande besteira. Um romantismo barato. Uma frustração que perdeu o prazo de validade. Que os tempos são outros.</p>
<p>Verdade, talvez seja apenas o paraíso dos concurseiros e concursados. Mas onde estão os filhos de tantos concursos? Os filhos dos funcionários públicos? Estão todos no shopping? Jogando Playstation em casa? É uma curiosidade minha, talvez egoísta, porém honesta. Uma curiosidade sem a consultoria do Palocci.</p>
<p>De certo modo, tento entender. Também já fui viciado em fliperama de bairro. Mas chegava uma hora em que as moedinhas acabavam e a gente ia para rua fazer qualquer coisa. Às vezes, qualquer coisa significa fazer nada. Porque não tinha nada para fazer. Mas sempre havia uma árvore para subir ou um vira-lata para correr atrás.</p>
<p>Hoje, parece que não existe mais criança para subir em árvore em Brasília. Será que todos os funcionários públicos nasceram aqui?</p>
<p>Será que eles já se esqueceram de como era difícil achar um gramado para bater uma pelada na cidade onde nasceram? Aposto qualquer coisa que a maioria deles passou a infância inteira sem nunca jogar bola na grama. Será que os pais e avós de Brasília não levam mais as crianças para brincar na rua? Será que em Brasília só existe o Parque da Cidade aos domingos?</p>
<p>Não faço ideia de para onde estão levando as crianças de Brasília. De como estão ocupando o tempo delas. Deve haver algum lugar secreto, alguma quadra especial onde as crianças de todas as outras quadras se encontram para escalar dois times e um na reserva. Para fazer olimpíada. Campeonato de peteca e bola de gude.</p>
<p>Não sei. Só sei que, se as crianças de Brasília gostam tanto de ficar em casa ou ir para shopping, proponho uma troca.</p>
<p>Vocês levam as crianças daqui para cidades com shoppings maiores – até Recife e Salvador têm shoppings maiores e melhores do que Brasília – e nós trazemos as crianças das outras cidades para conhecer essa imensidão de áreas livres e gramados vazios.</p>
<p>Depois de um fim de semana, pedimos a opinião delas se é melhor jogar bola e dar cambalhota em Brasília ou no concreto da cidade delas. Para cada dia de brincadeira na rua, elas ganham um dia liberado com esse tal de Playstation.</p>
<p>Acho que seria uma troca justa. Um plebiscito infantil.</p>
<p>_________________<br />
<em></em> <em>** leia online a <a href="http://www.meiaum.com.br/index.php" target="_blank">edição completa</a> da Revista MeiaUm<br />
*** ou faça o <a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2011/07/rebelo-meiaum-jun2011.pdf">download do PDF</a> apenas da coluna </em></p>
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		<title>Café, sopa e mulher</title>
		<link>http://www.rebelox.com/2011/06/cafe-sopa-e-mulher/</link>
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		<pubDate>Thu, 23 Jun 2011 02:28:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Paulo Rebêlo Terra Magazine * 22.jun.2011 Tomar um bom café é quase como admirar uma bela mulher. Você pode olhá-la como o cafezinho de repartição naquele copo de plástico; ou café orgânico em xícara de porcelana francesa, com tanta qualidade que apenas o cheiro faz você parar no tempo, sentindo aquele aroma encorpado a subir [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Paulo Rebêlo<br />
Terra Magazine *<br />
22.jun.2011</p>
<p>Tomar um bom café é quase como admirar uma bela mulher. Você pode olhá-la como o cafezinho de repartição naquele copo de plástico; ou café orgânico em xícara de porcelana francesa, com tanta qualidade que apenas o cheiro faz você parar no tempo, sentindo aquele aroma encorpado a subir pelas narinas.</p>
<p>Você já deve ter lido, em algum lugar, que somente os bons cafés liberam um rastro olfativo bem peculiar. Você não deve ter lido, mas certamente recorda que as mulheres mais marcantes da sua vida carregavam um cheiro ímpar, daqueles que a gente procura e não encontra nunca mais. É que cheiro de pele não vende no duty free.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 5px; border: 1px solid black;" src="http://img.terra.com.br/i/2011/06/22/1927378-0536-in.jpg" alt="(c) paulo rebêlo" width="514" height="320" /></p>
<p>Enquanto você não encontra novos cheiros ímpares, o jeito é seguir bebendo café ruim, fraco, ralo, requentado, sem gosto ou exageradamente adoçado. Existem em abundância, em todos os lugares e para todos os olhares. Foi para isso que inventaram o Nescafé. E o motel de dez reais.</p>
<p>A exemplo de algumas belas mulheres, o café também guarda surpresas nem sempre agradáveis. Quando você entra nessas cafeterias ultrachiques onde o café expresso custa o mesmo preço do seu almoço no bandejão, você espera sentir todas as sensações possíveis e imagináveis. Menos que lhe sirvam um café morno, quase frio.</p>
<p>Pois, como dizia meu finado avô lá na selva, tem três coisas no mundo que só servem quente: café, sopa e mulher.</p>
<p>Quantos cafés e pessoas sem graça não conhecemos na vida? A xícara era bonita, mas o conteúdo&#8230;</p>
<p>Quem serve café frio deveria queimar no fogo dos infernos até a última prega. Não adianta pedir desculpas e trazer outro café. Além de quebrar todo um ritual que só dura poucos segundos, o que essas criaturas sem prega vão fazer é jogar a xícara no microondas ou requentar ainda mais um café já requentado.</p>
<p>Conhecemos um café de qualidade antes mesmo do primeiro gole. O problema é que, bom ou ruim, a gente prova mesmo assim. Qualquer semelhança não é coincidência.</p>
<p>Da <a href="http://www.rebelo.org/hipopocaranga/2010/a-batata-da-verdade/">mesma maneira</a> que a gente descobre os pensamentos de uma mulher apenas pelo jeito como ela nos olha, aprendemos também a admirá-la pelo cheiro e pelo silêncio. Com um bom café, não é exatamente diferente. São poucos segundos entre o cheiro e o paladar. Não são os segundos mais importantes da sua vida, mas são os segundos mais importantes da vida daquele café.</p>
<p>São os poucos segundos que conectam o cheiro do cangote de uma mulher ao paladar do que está embaixo do sutiã. Não importa onde e quando &#8211; é naquele gole, naquele momento milimetricamente exato, que tudo se transforma no paraíso ou num desastre total.</p>
<p>Para a turma do café sem graça, são poucos segundos desimportantes. Mas são os mais importantes daquele instante.</p>
<p>_________<br />
* <a href=http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5199976-EI14598,00-Cafe+sopa+e+mulher.html target=_blank>link original</a> no Terra Magazine.</p>
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		<title>Para curar a insônia</title>
		<link>http://www.rebelox.com/2011/06/para-curar-a-insonia/</link>
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		<pubDate>Wed, 08 Jun 2011 17:04:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Paulo Rebêlo // Terra Magazine // 08.jun.2011 Curei-me da insônia. Só resta descobrir como aconteceu. Não cuspi dentro do pires para jogar na foz do rio Tapajós, como as rezadeiras da minha terra costumam sugerir. Não paguei promessa, não fiz catimbó, macumba, vodu e nem dancei axé. Não acendi vela para santos ou diabos. Não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Paulo Rebêlo</strong> // <a href="http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5174594-EI14598,00-Para+curar+a+insonia.html" target="_blank">Terra Magazine</a> // 08.jun.2011</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" title="(c) rebelo.org" src="http://img.terra.com.br/i/2011/06/07/1908636-2529-cp2.jpg" alt="Depois de ver o sol nascer sem pregar os olhos, por tantos anos, a gente descobre a cura e sente saudades da insônia." width="514" height="290" /></p>
<p>Curei-me da insônia. Só resta descobrir como aconteceu.</p>
<p>Não cuspi dentro do pires para jogar na foz do rio Tapajós, como as rezadeiras da minha terra costumam sugerir.</p>
<p>Não paguei promessa, não fiz catimbó, macumba, vodu e nem dancei axé. Não acendi vela para santos ou diabos. Não tomei remédio, não pisei em consultório médico.</p>
<p>Depois de oito anos abraçados à insônia, há um ano que não a encontro.</p>
<p>Eu deveria estar feliz por conseguir cumprir compromissos pela manhã e, deus nos acuda, dormir antes de o sol nascer.</p>
<p>Tanto tempo juntos, vira uma coisa amiga-amante. Não importa o cansaço, o sofá ou a cama. Ela sempre espera. Para aparecer quando você menos espera.</p>
<p>Talvez a cura da insônia seja isso. O sentimento. A gente aprende a gostar.</p>
<p>Com ela, escrevi as melhores crônicas. Editei os melhores textos. Assisti aos melhores filmes. Bebi os melhores uísques. Fumei os melhores charutos. Conversei com os melhores garçons. Conheci os melhores maltrapilhos na <a href="http://www.rebelo.org/hipopocaranga/2007/eremita-insone-sa/">calada da noite</a>.</p>
<p>Com ela, fui promíscuo. Dividi a insônia com gente feito George Benson, Chet Baker, Coltrane, Miles Davis, Stanley Jordan. Uma grande suruba. E depois que conheci o som da Lisa Ekdahl, curti várias noites lésbicas entre as duas. De camarote.</p>
<p><span id="more-538"></span>Sem a insônia, tudo isso meio que foi embora. Transformou-se em amor findado.</p>
<p>Você sabe que não adianta insistir, mas insiste mesmo assim. Com os olhos abertos, a gente vira, mexe, toma leite, conta carneirinho, toma banho, faz um lanche, lê vinte páginas de livro, abre uma cerveja, assiste uma hora de filme, planta bananeira, abre e fecha a geladeira, faz a barba, toma umas três doses de licor, escuta música, navega na internet, escreve e-mail, tenta dormir de novo.</p>
<p>Não adianta, melhor desistir. Conviver. O céu fica claro e você é <a href="http://www.rebelo.org/hipopocaranga/2008/prazeres-solitarios/">vencido pelo cansaço</a>.</p>
<p>Porque a crueldade da insônia é a mesma crueldade de um amor que se foi. É ali onde você encontra sua cura. Não é esquecer que ela existe, mas talvez aceitar que ela esqueceu que você existe.</p>
<p>O chato é nem ganhar um Nobel da Medicina por isso.</p>
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