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	<title>Paulo Rebêlo &#187; são francisco</title>
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	<description>rebelox .:. jornalismo de precisão e crônicas imprecisas</description>
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		<title>Às margens da transposição</title>
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		<comments>http://www.rebelox.com/2009/11/margens-transposicao/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 15 Nov 2009 16:13:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jornais]]></category>
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		<category><![CDATA[transposição]]></category>

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		<description><![CDATA[Paulo Rebêlo (email) Terra Magazine &#124; 14.novembro.2009 Ao estacionar o carro debaixo de uma árvore para se proteger do sempre escaldante sol sertanejo, conseguimos avistar Tonha de longe. Fui a seu encontro muito satisfeito, não apenas por ter conseguido visitar novamente aquela família a quem eu tanto devia. Mas, também, por enfim cumprir uma promessa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Paulo Rebêlo </strong>(<a href="mailto:imprensa@rebelo.org">email</a>)<br />
<a href="http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4100774-EI6578,00-As+margens+da+transposicao.html">Terra Magazine</a> | 14.novembro.2009</p>
<p><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto15.jpg"><img class="size-medium wp-image-1739  alignright" style="margin: 5px;" title="foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto15-300x199.jpg" alt="foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" width="300" height="199" /></a></p>
<p><span style="background-color: #ffffff;">Ao estacionar o carro debaixo de uma árvore para se proteger do sempre escaldante sol sertanejo, conseguimos avistar Tonha de longe.</span></p>
<p>Fui a seu encontro muito satisfeito, não apenas por ter conseguido visitar novamente aquela família a quem eu tanto devia. Mas, também, por enfim cumprir uma promessa feita um ano antes naquele mesmo local, sob aquele mesmo teto, às margens do rio São Francisco na Ilha de Assunção em Cabrobó, Sertão de Pernambuco.</p>
<p>Abri um sorriso para Tonha e apressei-me em dizer: não esqueci. Mostrei as fotografias da família dela e lembrei do desafio de seu pai quando disse que dificilmente voltaríamos para visitá-los.</p>
<p><span id="more-1731"></span></p>
<p>Minha pueril satisfação escorreu pelas margens do rio no exato momento em que percebi Tonha baixar a cabeça.</p>
<p>Chegamos tarde demais.</p>
<p>Ele se fora. Antes de ver o sonho se concretizar. Não o sonho da Transposição do Rio São Francisco, a qual a população ribeirinha, supostamente a maior beneficiada, ainda não consegue entender direito como vai funcionar. Apenas imaginam em uníssono que bastará abrir a torneira de casa para cair água &#8220;porreta&#8221;, segundo as palavras do presidente Lula em outubro deste ano durante a caravana em Cabrobó.</p>
<p>O sonho de Seu Valdemar era outro. Era o de ver Opará, como o rio São Francisco fora conhecido pelos indígenas antes da colonização, de volta a sua velha forma: pujante, abundante e vigoroso. Coisa que há muitos anos os ribeirinhos mais velhos guardam apenas na lembrança.</p>
<p>Tonha folheava as fotos do pai, Valdemar Bezerra Luna, agricultor que viveu os últimos 55 dos seus 85 anos de idade às margens do rio. Foi onde criou filhos e netos com invejável bravura, a exemplo de outras 13 milhões de pessoas que formam a população ribeirinha do Velho Chico.</p>
<p>Recordo da vívida imagem de Seu Valdemar segurando um pequeno frasco de hipoclorito de sódio enquanto nos explicava de uma época quando havia peixes para pescar e água potável para beber. Sem o uso de substâncias controladas e de difícil acesso como aquela.</p>
<p><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto04.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1748" style="margin: 5px;" title="Seu Valdemar mostrando o hipoclorito de sódio // Foto: João Carlos Mazella" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto04-300x199.jpg" alt="" width="300" height="199" /></a></p>
<p><span style="background-color: #ffffff;">Antes de Seu Valdemar, muitos se foram. Depois dele, muitos ainda se vão. Até que uma certa promessa seja cumprida. Não a de imprimir fotografias e dar de presente. Sim, a promessa secular de democratizar e universalizar a água numa região do Brasil historicamente castigada pelo descaso político, abandono social e amplo desconhecimento da sociedade nascida e criada em seios urbanos.</span></p>
<h2>Um rio de decretos</h2>
<p>A bacia hidrográfica do São Francisco, em seus 2.863 km de extensão, percorre 504 municípios divididos em sete unidades federativas.</p>
<p>Nosso contato com Seu Valdemar ocorrera meramente por acaso, em julho de 2007, a partir de uma série de pesquisas e reportagens durante o início formal das obras da transposição em Cabrobó, ponto de partida do Eixo Norte, por onde haverá a ligação entre Pernambuco e Ceará através de um canal com 416 quilômetros previstos.</p>
<p>Junto ao experiente fotógrafo João Carlos Mazella, cujas fotos ajudam a ilustrar este texto, nos instalamos de &#8220;mala e cuia&#8221; junto aos trukás, poucos dias depois da célebre expulsão do Exército pelos índios no canteiro de obras, localizado em terras reivindicadas pela tribo.</p>
<p>A família de Seu Valdemar, por intermédio da filha Tonha e do Cacique Neguinho, nos abrigaram e alimentaram durante aquele período de muitas descobertas interessantes. Descobertas para nós e para eles.</p>
<p>Foram inúmeras famílias com quem conversamos às margens do rio, em milhares de quilômetros rodados nos últimos anos pelo Nordeste. Todas elas nos mostrando como era a vida real e as condições de quem dependia do rio São Francisco para sobreviver. E como essa relação, outrora harmônica, tanto mudou.</p>
<p>Sobre a transposição em si, eles ouviram as mais diferentes histórias, argumentos e opiniões. Muita gente contra. Muita gente a favor. E mais gente ainda sem fazer a menor idéia do que se trata.</p>
<p>Ainda hoje, ao percorrer os grotões do Brasil, me perguntam do que se trata &#8220;de verdade&#8221; a Transposição do São Francisco. Mas como definir uma verdade cuja existência, desde a época do Império, nunca deixou de ser um sonho para alguns e um pesadelo para outros?</p>
<p>Depois de Dom Pedro II, a noção de transpor as águas do rio foi retomada por Getúlio Vargas em 1943, ganhou destaque durante o governo de Figueiredo após a grande estiagem de 1979 a 1983, chegou ao colo do presidente Itamar Franco em 1994 e ganhou decretos durante a era Fernando Henrique Cardoso no período de 1998 a 2002. Desde 2003 voltou à agenda nacional, agora com Lula.</p>
<p>Em outubro de 2007 (ou seja, após o início formal das obras do Eixo Norte) as atribuições passam para o Conselho Nacional de Recursos Hídricos, na época presidido por ninguém menos que a Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.</p>
<p>Por 42 votos contra 4, o Conselho posicionou-se contra a transposição como ela se apresentava na época e estabeleceu que as águas do São Francisco só poderiam ser utilizadas fora da bacia em casos de escassez comprovada e para consumo humano e dessedentação animal. Motivo? Acentuado grau de degradação do rio. Uma situação que os ribeirinhos tanto falam, há tantos anos, mas poucos parecem escutar.</p>
<p>Nos meses seguintes, novos decretos surgiram a partir de conflitos entre as devidas competências institucionais; as obras foram liberadas, não obstante os processos judiciais ainda hoje em curso e que ninguém em sã consciência pode prever o desfecho.</p>
<p>Outubro de 2009, a transposição é chancelada pelo governo federal como &#8220;fato concreto&#8221;.</p>
<p>Difícil explicar? Sequer me atrevo. Talvez pela falta de competência discursiva em repassar as letras oficiais que ouvimos tantas vezes em audiências públicas, plenárias e outros encontros, quando emissários do governo explicavam a transposição mais ou menos assim:</p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>&#8220;Transpor as águas para abastecer partes do semi-árido nordestino e beneficiar 13 milhões de pessoas, retirando apenas 2% do volume de água do São Francisco por meio de dois canais, gerando milhares de emprego e melhoras estruturais para todo o Nordeste, ao mesmo tempo em que ajuda a revitalizar a bacia hidrográfica do São Francisco.&#8221;<br />
</em></p>
<p>Parece um sonho. Seu Valdemar ficaria orgulhoso.</p>
<p>Também ouvimos a explicação acima de um sem número de prefeitos, deputados, vereadores, profissionais liberais, engenheiros e até de poetas. Também ouvimos o oposto de igual número de pessoas em todos os Estados do Nordeste.</p>
<p>E quando tentamos extrair o sumo de todo o maniqueísmo típico de comícios e caravanas pelas profundezas do Nordeste, na minha mente sempre veio apenas a voz de Seu Valdemar nos dizendo:
</p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>&#8220;Mas o rio é tão grande&#8230; acho que não vai faltar se tirarem um pouquinho da água aqui da gente para levar aos nossos irmãos lá de cima, não é?&#8221;</em></p>
<p>Se essa conclusão é fruto de uma imensa ingenuidade ou de uma imensa sabedoria, só o tempo irá dizer. Até lá, muitos continuarão sonhando. E nós continuaremos torcendo que sobrevivam para ver. E para cobrar.</p>
<h2>Meandros humanos</h2>
<p><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto13.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1740" title="Foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto13-300x199.jpg" alt="Foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" width="300" height="199" /></a>Em 2007, quando as obras começaram em Cabrobó, para boa parte do Brasil que desconhece o Brasil a insatisfação dos índios trukás naquela cidade parecia um fato novo.</p>
<p>Ledo engano.</p>
<p>A única novidade, de fato, fora o barulho agora gerado pela mídia nacional &#8211; em grande parte por conta da presença de um Exército acuado pela mobilização indígena e da greve de fome do bispo de Barra (BA), Dom Luiz Cappio. E, claro, com a sempre presente contribuição das hipérboles de Brasília sobre uma obra que se coloca como um aguardado messias para o Nordeste.</p>
<p>Por meio de seus líderes, em agosto de 2007 pelo menos três mil índios da etnia truká se rebelaram contra as obras da transposição. Oficialmente, colocaram-se contra o projeto por acreditar que a água do Velho Chico iria acabar e prejudicar a pesca e agricultura da região.</p>
<p>A tribo é uma das principais produtoras de arroz e cebola em Pernambuco, chegando a ser responsável por mais de 80% da produção deste primeiro item. Talvez nem os trukás tenham real noção do poder persuasivo que, teoricamente, possuem.</p>
<p>São dúbios os reais motivos, mas quando os primeiros sinais de uma nova transposição voltaram a surgir durante o início do governo Lula, em 2003, os trukás e boa parte da população ribeirinha já mostravam um amplo consenso negativo às obras.</p>
<p>Naquela época, contudo, o acesso às opiniões dos trukás envolvia uma complexa negociação e muito jogo de cintura. Porque até meados desta década, Cabrobó não era um dos ícones da transposição como o governo classifica hoje. Era um ícone de produção e do tráfico de drogas na região, conhecida nacionalmente pelas autoridades, pela força policial e até parte do folclore urbano em Pernambuco.</p>
<p>Os caciques trukás com quem conversamos e convivemos, durante a mobilização de 2007 contra o Exército, não sabiam ou não lembravam. O tempo havia passado, mas ali de frente a eles estava o mesmo jornalista que foi sutilmente convidado a sair da cidade por duas vezes, em anos anteriores, ao tentar entrar na Ilha de Assunção para conversar com os índios sobre o problema do tráfico que aterrorizava e dizimava famílias inteiras de índios, sobretudo os mais jovens.</p>
<p>Eram tempos difíceis. Mortes por encomenda, traficantes infiltrados, ameaças, queimas de arquivo. Capangas armados faziam a segurança da ilha e, como zelava a Constituição, ninguém podia entrar sem autorização expressa dos índios, geralmente por via da Funai.</p>
<p>O silêncio sempre reinou em Cabrobó. E neste ponto, pouca coisa mudou. A cidade melhorou bastante e continua a progredir visivelmente. O grosso do tráfico não age mais a céu aberto como antes. Contudo, ainda há certos assuntos que não podem ser discutidos. A transposição, neste caráter atual de messias do desenvolvimento nordestino, passa ao largo de tudo isso.</p>
<p>E durante a caravana de outubro de 2009, sequer uma palavra foi dita.</p>
<p><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/Image00003.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1742" title="Foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/Image00003-300x195.jpg" alt="Foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" width="300" height="195" /></a>Daquela época pouco amistosa no município, chegamos a 2005 quando a liderança dos trukás estava convicta do seu papel de se opor às obras da transposição. Obras tais que entrariam em seus territórios sem autorização, situação proibida expressamente pela Constitiução. Mas as escrituras das terras (onde reside o início do canal) nunca foram deles. Como de praxe, um conflito legal e histórico das tribos indígenas espalhadas em todo o Brasil: são donos de terra de fato, não de direito.</p>
<p>Por conta de um passado sombrio com o tráfico (porém um paraíso para os traficantes) ninguém nunca soube, factualmente, se os trukás se posicionavam desde muito cedo contra a transposição por livre e espontânea vontade ou por influência de terceiros.</p>
<p>Dois anos depois, em 2007, quando o assunto ganhou as manchetes nacionais já com o tom de guerra e de greve de fome, a mobilização dos trukás caiu como uma luva para Estados como Sergipe e Bahia, por exemplo, os quais sempre se colocaram publicamente contra a transposição, alegando que seriam prejudicados ambiental e economicamente.</p>
<p>As posições de Bahia e Sergipe, por exemplo, não estão apenas em reportagens da época. Estão em livros e documentos oficiais disponíveis para leitura de qualquer um.</p>
<p>Naquele ano de 2007, bem diferente da animosidade quando outrora fomos convidados a nos retirar da cidade, os trukás nos recebem e mostram boa parte de seus territórios &#8211; alguns trechos ainda estavam &#8220;fechados para visitação&#8221;, por assim dizer, assunto que incomodava as lideranças e causava desconforto generalizado. Ainda hoje.</p>
<p>Somos levados de &#8220;canoa motorizada&#8221; pelo Velho Chico, um caminho alternativo para conferir o início das obras e onde o Exército não poderia ver nossa chegada ao local com as primeiras escavações. Depois da mobilização indígena contra os militares, fechou-se uma porteira na área e civis não podiam entrar. Enquanto observavam qualquer movimento do Exército ao longe, os trukás reafirmavam para nós que ali naquela terra não deixariam o governo construir nada. Era deles.</p>
<p>Agora vamos dar outro pulo e chegamos a outubro de 2009. Quem viu a caravana do presidente Lula agregando tantas dissidências políticas e sem as reivindicações de outrora, fica sem entender nada. E duvida de como não há mais debate sobre problemas sérios como o tráfico de drogas, o alto índice de suicídio nas regiões de baixo IDH do Nordeste e uma máquina corruptora de instituições e autoridades na região. Mais ainda: qual foi a solução encontrada com os trukás?</p>
<p>Não se ouviu uma linha das autoridades. Não se leu uma linha na imprensa.</p>
<h2>Entre os perenes e os temporários</h2>
<p><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto05.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1741" title="Foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto05-300x176.jpg" alt="Foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" width="300" height="176" /></a>A falência das instituições também teve sua fatia de responsabilidade quando outro ícone daquela região se foi.</p>
<p>O discurso ambiental e de demarcação de terras tornara-se o lugar comum nos debates sobre a transposição entre 2005 e 2007, embora a questão seja discutida desde muito antes, independente da idéia de transpor as águas do Velho Chico. A exemplo dos tantos prefeitos naquela época, os quais igualmente patinavam nas informações mais precisas sobre as obras, os índios agricultores replicavam o massivo discurso negativo.</p>
<p><span style="background-color: #ffffff;">Em 2008, um ano depois da mobilização contra o Exército, retornamos novamente a Cabrobó. Entretanto, agora com outra tarefa: saber mais sobre o assassinato em praça pública do índio truká Mozeni Araújo, 37 anos, uma das principais vozes políticas da cidade e talvez a liderança truká mais articulada e com mais conhecimento de causa para explicar o problema do tráfico de drogas e negociar concessões com o governo sobre as terras indígenas.</span></p>
<p>Então candidato a vereador, Mozeni foi morto em agosto de 2008 com tiros à queima-roupa em frente a seu comitê de campanha, na ocasião lotado de amigos e correligionários. O crime calou a cidade de Cabrobó e levou embora uma das poucas pessoas que, quando bem questionado, falava abertamente sobre as intenções e a histórica dificuldade de negociações entre índios e governo.</p>
<p>Mozani fora uma das vozes ativas contra o uso de fazendas e terras indígenas para o tráfico de drogas na região, justamente ali onde nasce o Eixo Norte da transposição. Assunto que curiosamente não consta em nenhuma pauta das informações divulgadas sobre as obras.</p>
<p>Mozani foi um dos poucos a abrir o jogo honestamente. Não se tratava apenas de meio ambiente ou de sobrevivência do rio, mas também de negociação e benesses mútuas. Se o governo cedesse a alguns anseios, entre eles uma boa indenização pelo uso daquelas terras (apesar da falta de escrituras) os trukás poderiam sentar à mesa e discutir, quem sabe até mesmo apoiar à transposição se entendessem que ela iria realmente beneficiar a população ribeirinha.</p>
<p>Em termos de negociação com governos, os trukás e tantas outras tribos brasileiras estão calejados de ouvir inúmeras promessas, ceder e esperar por algo que nunca se concretiza. Por outro lado, os trukás também são criticados por tribos diversas (e por vários burocratas em Brasília) porque, num contexto nacional, estão entre os índios que mais tiveram terras reconhecidas como deles, mais ganharam benesses de infraestrutura, se situando num ponto relativamente confortável em termos de organização e reconhecimento.</p>
<p>Para os trukás, a transposição do jeito que os emissários federais apresentavam era como uma segunda enganação. Como bem frisou o Cacique Neguinho &#8211; agora já sabendo que o jornalista de frente a ele era o mesmo de anos atrás, quando teve armas apontadas em sua direção por outros trukás &#8211; não havia motivos para confiar no discurso de Brasília.</p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>&#8220;Já nos enganaram uma vez quando construíram a Barragem de Sobradinho, não vão nos enganar de novo. Tínhamos peixe em abundância que a natureza nos deu. Hoje, quem consegue pescar alguma coisa volta para casa agradecendo a Deus, porque neste rio daqui não há mais nada&#8221;, disparou.</em></p>
<p>Ali revelava-se, de modo sublime, o emaranhado político quando as obras sequer davam os primeiros passos no Lote 1 do Eixo Norte. Hoje, é curioso perceber como qualquer assunto relacionado aos conflitos paralelos à transposição não consta na agenda de divulgação, seja do governo federal ou dos governos locais. Assim como sai de cena, também, o conflito intermitente de conveniência com o tráfico e a latente carência social e política na região.</p>
<p>Acima dos conflitos e opiniões diversas, ainda resta uma dúvida sempre levantada e sempre respondida com pouquíssimos detalhes: depois de tudo pronto e concluído, qual será o papel dos grandes latifundiários em cujas terras, coincidentemente, passam os dois canais da transposição do São Francisco?</p>
<h2>Enquanto a água não vem</h2>
<p><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto02.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1743" title="Foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto02-300x199.jpg" alt="Foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" width="300" height="199" /></a>É muito fácil conhecer como funciona a política nos grotões do Brasil. Tirante as poucas exceções de praxe, você só precisa de dez minutos de conversa, com qualquer prefeito, para ter uma noção semi-exata do nível de qualificação e de consciência política deles.</p>
<p>Para quem conhece os dois lados da moeda, não difere muito dos corredores do Congresso Nacional em Brasília.</p>
<p>Não à toa, são os prefeitos desses municípios os maiores beneficiados políticos por todas as obras da transposição. Com a conclusão prevista (até agora) para 2012, cairá sob as mãos do poder executivo local (e dos orçamentos municipais) a tarefa de conduzir a gestão local do caminho do desenvolvimento prometido pela transposição.</p>
<p>É uma responsabilidade enorme e uma tarefa hercúlea a ser enfrentada pelos mandantes destes municípios ribeirinhos. Sozinhos eles não poderão fazer muito. Sem uma mobilização apartidária entre municípios, Estados e União, o sonhado caminho do desenvolvimento nordestino poderá ter que esperar outras tantas décadas a perder de vista.</p>
<p>Se lhe parece uma utopia, bem-vindo ao clube.</p>
<p>Ainda é preciso atentar a detalhes que talvez nem todos os prefeitos conheçam. Entre eles, um relatório de 2008 elaborado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) pelo qual constavam 400 obras inacabadas no Brasil no valor de R$ 3,5 bilhões. Destas, 130 eram executadas pelo governo federal e 270 por Estados e municípios, sempre com transferências federais de recursos. Todo o projeto de transposição do São Francisco, incluindo as obras de revitalização, totalizam algo em torno de R$ 6 bilhões, vale lembrar.</p>
<p>Em outubro de 2009, mesma época do périplo presidencial pelas obras da transposição, sai de Brasília outro relatório. Agora de atualização do Programa de Aceleração do Desenvolvimento (PAC) sob a bandeira do Ministério da Casa Civil, de Dilma Rousseff. Papelada amplamente divulgada e por onde se lê que das 2.392 ações previstas para o período 2007-2010, 39% estão concluídas, 52% em andamento, 7% em situação de atenção e 2% com ritmo preocupante. Dos R$ 646 bilhões previstos até 2010, 53,6% já foram aplicados.</p>
<p>Desta salada de números, interessa o detalhe: das ações citadas pelo relatório do PAC, não estão inclusas as obras de saneamento e habitação, que são justamente duas das principais molas condutoras do prometido desenvolvimento estrutural a partir da transposição do São Francisco.</p>
<p>Se uma ampla mobilização entre prefeitos não ganhar corpo, se ou quando a transposição estiver pronta, voltaremos à estaca zero daquele período 2005-2007 quando Estados nordestinos se posicionaram em clima de discórdia entre irmãos.</p>
<p>Se lhe parece uma utopia&#8230;</p>
<h2>Vizinhos entre rios</h2>
<p>Em Monteiro, no cariri paraibano, encontramos pessoas como o casal de agricultores Ailton e Silvia Tavares. À primeira vista, os Tavares poderiam ser considerados privilegiados por morar a poucos metros de um açude. Mas a água sempre foi tão poluída e barrenta que até os animais rejeitam.</p>
<p>Para a transposição, Monteiro é a cidade-ícone do Eixo Leste, equivalente a Cabrobó no Eixo Norte. Desde 2005, a esperança de uma melhora nas condições de vida para a população rural em Monteiro tem apenas um nome: transposição.</p>
<p>Em 2007 conversamos com Vlamir Bezerra Japyassu, 40 anos vividos no cariri, enquanto ele nos mostrava, animado, o local por onde irá passar o Eixo Leste.</p>
<p>Foi também ali, em Monteiro, onde em outra oportunidade encontramos o folclórico padre Djacy Brasileiro e sua folclórica Cruz de Latas simbolizando a seca no Nordeste e a necessidade da transposição.</p>
<p>Em outra oportunidade, durante uma manhã de discursos, com dedo em riste, rosto vermelho, suando em bicas e aos berros, lá está o Ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, pedindo que a população &#8220;não o confundisse com algumas lideranças políticas&#8221; da Bahia, seu Estado de origem, que se colocavam contra a transposição &#8220;para barganhar com o governo federal&#8221;, segundo suas próprias palavras.</p>
<p>Geddel garantiu que, diferentemente do que dizem os oposicionistas ao projeto, o benefício primário da transposição será matar a sede dos nordestinos, não será apenas o agronegócio.</p>
<p>É o que 13 milhões de nordestinos esperam. Há pelo menos um século.</p>
<p>Juntou-se ao coro o governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima, e o &#8220;líder&#8221; religioso da região, Dom Aldo Pagotto, uma espécie de antípoda de Dom Luiz Cappio, falando das benesses da transposição para seu rebanho.</p>
<p>Outubro de 2009, caravana de Lula, Dom Cappio não estava presente. Exatamente ali no município de Barra, Lula discursou ao lado de Dilma Rousseff, Geddel e do governador da Bahia, Jaques Wagner. Novos tempos?</p>
<p>Faltou alguém para perguntar a Geddel se ele chamaria Dom Cappio de &#8220;inimigo número 1 da democracia&#8221;, conforme consta em artigo escrito por ele e publicado na Folha de S. Paulo no dia 12 de dezembro de 2007, em virtude da segunda greve de fome do bispo.</p>
<p>Ninguém perguntou.</p>
<p>Enquanto isso, a 50 km de Juazeiro (Bahia), na Barragem de Sobradinho, o mundo de água do São Francisco assusta a quem chega. O rio parece um mar, não tem fim. E a apenas um quilômetro da hidrelétrica, as terras são secas e rochosas, bem piores do que em Cabrobó.</p>
<p>De um lado da rodovia, pequenos agricultores suam para plantar qualquer coisa e ter o alimento diário. Do outro, grandes fazendas denotam o poderio financeiro para trabalhar com fruticultura irrigada e gerar milhões de reais na exportação de frutas.</p>
<p>Se a transposição do rio São Francisco irá contribuir para diminuir contrastes seculares como esse, resta-nos apenas refletir sobre a máxima de Seu Valdemar e a subsequente conclusão: um ato de grande ingenuidade ou de grande sabedoria.</p>
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		<title>Do São Francisco ao Capibaribe</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Apr 2009 19:22:23 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[CULTURA POPULAR // Grupos Caçuá e Bongar se unem para manter vivas tradições dos griôs Paulo Rebêlo (texto/fotos) Diario de Pernambuco 05.abril.2009 Griô é um caminhante, educador, poeta, contador de histórias. Às vezes, até mediador político. Antes de mais nada, mestres griôs são artistas populares. Carregam na memória as artes seculares, ensinadas por antepassados africanos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>CULTURA POPULAR // Grupos Caçuá e Bongar se unem para manter vivas tradições dos griôs</em></p>
<p></em><a href="mailto:imprensa@rebelo.org">Paulo Rebêlo</a> (texto/fotos)<br />
Diario de Pernambuco<br />
05.abril.2009</p>
<p>Griô é um caminhante, educador, poeta, contador de histórias. Às vezes, até mediador político. Antes de mais nada, mestres griôs são artistas populares. Carregam na memória as artes seculares, ensinadas por antepassados africanos, cada vez mais esquecidas pelos jovens. Do rio São Francisco, desde a foz no estado de Alagoas, eles cantam, dançam, produzem, contam histórias e querem mostrar um pouco do que sabem aqui no Recife.</p>
<p>Hoje, o auditório da Livraria Cultura recebe às 17h a fusão de duas sonoridades distintas, a partir de um curioso projeto do Grupo Bongar, de Olinda, aliado ao Grupo Caçuá, da cidade alagoana de Piaçabuçu, a 140 km de Maceió.</p>
<p><em><img class="size-full wp-image-1459 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 5px; margin-bottom: 5px;" title="flip150" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/04/flip150.jpg" alt="flip150" width="319" height="167" /></p>
<p>O Bongar nasceu de um trabalho musical realizado desde 2001 pelo vocalista Guitinho da Xambá, nascido e criado na comunidade Quilombola Xambá &#8211; considerado o único povoado desta linhagem africana no Brasil. O Caçuá, por sua vez, surgiu da necessidade de manter vivas as tradições esquecidas, seja por meioda música, do teatro ou artesanato alagoano.</p>
<p>Juntos, os dois grupos resolveram investir na convivência com os mestres griôs. Ouvir as histórias, aprender suas músicas, trocar experiências. O coco, a ciranda, o maracatu, o caboclinho, o frevo e o candomblé integram essa troca, e o resultado é uma fusão de universos culturais, entre Pernambuco e Alagoas, com batidas características do São Francisco.</p>
<p>Estudante de Ciências Sociais na UFPE, Guitinho do Xambá admite que nunca imaginou a riqueza de conhecimento que teria pela frente e em tão pouco tempo. Foram dois encontros em 2009, em que cada integrante contou um pouco de sua história e mostrou sua musicalidade. Foram ensaiando, treinando, o espetáculo começou a tomar forma e a apresentação conjunta ocorreu inicialmente em Piaçabuçu e em Penedo, no fim de semana passado.</p>
<p>E atinge o auge agora, no Recife, quando Linete Matias, Jasiel Martins, Jéssica dos Santos, Mira Dantas e Jailton Cazuza, todos de Piaçabuçu, chegam ao Recife para tocar junto com o Bongar e ajudar nas oficinas e divulgação das atividades no terreiro da Xambá. &#8220;É engraçado, os acadêmicos se apressam em taxar as pessoas quando elas são analfabetas, simples, como é o caso de muitos dos mestres griôs que a gente conheceu pelo caminho. Mas basta você conviver um pouco com eles, e aos poucos a gente conclui que os analfabetos somos nós&#8221;, desabafa Guituinho, entre um ensaio e outro.</p>
<p>Para acompanhar o Caçuá, eles estão trazendo Mestre Pagode, famoso por fazer círculos e passar horas contando histórias da vida na roça e das trapalhadas em que se meteu durante a vida. Depois da apresentação na Livraria Cultura, a aposta dos grupos é investir ainda mais na convivência e no intercâmbio cultural, em shows ou oficinas, com apoio de ONGs e editais.</p>
<p>Em março, o grupo conseguiu aprovar o Tem preto na tela pela Fundarpe, um projeto que prevê oficinas de formação profissional em vídeo, nas áreas de roteiro, edição e finalização para os jovens da comunidade Xambá. Saiba mais sobre as atividades dos grupos em www.myspace.com/grupobongar</p>
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		<title>Sonoridades do São Francisco</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Mar 2009 17:00:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Grupo Caçuá, do ponto de cultura Olha o Chico, de Piaçabuçu, em Alagoas, e o Bongar, de Pernambuco, juntaram forças para resgatar arte de mestres griôs. Paulo Rebêlo (texto/fotos) Diario de Pernambuco 28.março.2009 Analfabeto, iletrado e sem conhecimento suficiente para ensinar nada. Quem não conhece Cícero Lino, pode até acreditar. Porque assim ele se apresenta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Grupo Caçuá, do ponto de cultura Olha o Chico, de Piaçabuçu, em Alagoas, e o Bongar, de Pernambuco, juntaram forças para resgatar arte de mestres griôs.</p>
<p>Paulo Rebêlo (texto/fotos)<br />
<strong> Diario de Pernambuco</strong><br />
28.março.2009</p>
<p>Analfabeto, iletrado e sem conhecimento suficiente para ensinar nada. Quem não conhece Cícero Lino, pode até acreditar. Porque assim ele se apresenta aos desavisados que se aproximam dos muros verdes de sua casa.</p>
<p>Estamos no centro de Piaçabuçu, um pequeno município na foz do rio São Francisco em Alagoas, a 140 km de Maceió e 400 km do Recife, pelo litoral. A exemplo de outras cidades abraçadas pelo rio, não é apenas o cotidiano das pessoas que depende das águas. Aqui, os sons, a poesia e as histórias estão diretamente ligadas à onipresença do Velho Chico.</p>
<p>O jeito de se apresentar não é falsa modéstia de Cícero Lino. Apenas fruto da curiosa trajetória deste simpático mestre pifeiro, natural de um sítio na fazenda Gameleira, distrito de Penedo.</p>
<p><img class="alignright size-full wp-image-1424" style="border: 0pt none; margin: 5px;" title="flip146" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/03/flip146.jpg" alt="flip146" width="292" height="365" /></p>
<p>Aos 65 anos de idade, dos quais os últimos 19 em Piaçabuçu, Cícero Lino consegue &#8220;tirar&#8221; som de qualquer pífano que chegue às mãos. Certa vez, a pedidos, ele mesmo fez dois instrumentos usando apenas cano PVC. E os guarda com carinho até hoje, junto aos cadernos onde escreve as letras de suas próprias canções, apenas com o português &#8220;ouvido&#8221;.</p>
<p>Poesia certa por linhas tortas. De quem estudou por apenas quatro meses alternados. &#8220;Para cada dia que conseguia ir à aula depois do trabalho na roça, eu fazia uma marca na parede de casa. Quando a professora foi embora e não mais voltou, contei e havia 120 tracinhos na parede&#8221;, conta.</p>
<p>São os mesmos ouvidos pelos quais Cícero encantou-se com o pife, ainda garoto, no sítio. De tanto ouvir os tocadores da região, ele aproveitou um descuido deles e pegou escondido um dos pífanos deixados sob a mesa.</p>
<p>Em poucos minutos, escondido debaixo da mesa, mediu com as próprias mãos tamanho, diâmetro, comprimento e distância entre cada sopro. Correu para casa com tudo na memória e fez seu primeiro pífano. &#8220;O resultado foi um desastre. Fiquei horas soprando e não saiu nada&#8230;&#8221;, recorda, aos risos. Foram dois longos dias, tentativas e erros, até conseguir o primeiro som. E depois não sabia mais o que fazer, sem um mestre para ensiná-lo, sem professor, sem um guia.</p>
<p>A descoberta do talento foi por acaso. Por conta do trabalho na roça, Cícero passou anos sem tocar. Às vezes, treinava sozinho em casa por diversão. Certo dia, já morando em Piaçabuçu, um desesperado produtor de Maceió procurava alguém que tocasse pífano na região, pois o famoso pifeiro da banda caiu doente e faltavam poucas horas para o show. Ninguém conhecia. Até que o produtor viu uma criança sentada na calçada, dizendo baixinho &#8220;o pai sabe&#8230; o pai sabe&#8230;&#8221;</p>
<p>A criança em questão era ninguém menos que Cecília Lino, hoje formada e casada em Maceió, filha de Cícero. Com aquele &#8220;o pai sabe&#8221;, a vida de Cícero mudou. &#8220;Eu nunca havia tocado em público, suei frio. Claro, foi um desastre. Mas os tocadores da época gostaram do sopro, eu acho&#8230; depois convidaram para praticar com eles. E o resto é história&#8221;, relembra.</p>
<p>Cícero Lino, um mestre do pife sem mestre, não é exatamente um desconhecido. Ao menos, não hoje e não depois de 2003, quando ganhou o mundo por conta de sua pequena participação no filme Deus é Brasileiro, de Cacá Diegues, com filmagens na região de Piaçabuçu.</p>
<p>A arte de Cícero, contudo, é uma das inúmeras expressões culturais carregadas por gerações pelos mestres griôs de Alagoas e, cada vez mais, esquecidas pelos mais jovens. Aparentemente desconhecidos para as massas, vez por outra ganham destaque graças a projetos de divulgação e, sobretudo, do empenho pessoal de pequenos grupos preocupados em manter as tradições vivas.</p>
<p>Grupos como o Caçuá, atualmente gerenciando o ponto de cultura Olha o Chico, em Piaçabuçu; e o Bongar, de Pernambuco, vindo do quilombola Xambá, em Olinda. Cientes de que a sonoridade do São Francisco, embora tão próxima de nós aqui em Pernambuco, ainda seja uma incógnita para tanta gente, esses dois grupos resolveram juntar forças. E tentam resgatar tradições esquecidas, recuperar sons e artes de mestres griôs como Pagode, Manoel Correia, Dona Lurdes, Ferrete, entre tantos outros, entre quase 30 mestres griôs somente no entorno de Piaçabuçu.</p>
<p>Desde 2001, o Bongar desenvolve um trabalho musical e artístico com jovens da comunidade. Jasiel Martins e Guitinho da Xambá, representantes do Caçuá e do Bongar, respectivamente, se conheceram em São Cristóvão (Sergipe) durante um festival de música.</p>
<p>A experiência mútua entre os dois grupos &#8211; e os dois estados &#8211; ocorre com a vivência de experiências de seus habitantes, desde o ritual da pesca, da colheita, do amassar o barro para construção de casas por meio de coco de roda, do plantio das raízes, e evidentemente as histórias de vida e as canções.</p>
<p>Hoje, eles se apresentam em Piaçabuçu e, domingo, no teatro Sete de Setembro, em Penedo. No dia 5 de abril, uma pequena parte deste som do São Francisco, integrado à batida olindense, poderá ser conferido no auditório da Livraria Cultura, às 17h, no Recife. Quando finalmente Bongar e Caçuá vão colocar em prática os ensaios, pesquisas e convivências dos últimos meses com os mestres griôs de Alagoas.</p>
<p>Uma oportunidade para conhecer novos ritmos e novas prosas destes mestres griôs que, debaixo de um sol escaldante em Piaçabuçu, parecem incansáveis em cantar suas histórias e trajetórias. Saiba mais em <a href="http://www.myspace.com/grupobongar">www.myspace.com/grupobongar</a></p>
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		<title>São Francisco // Ribeirinhos alheios à transposição</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Apr 2008 11:37:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[RECURSOS HÍDRICOS // População que vive às margens do São Francisco não aceita os argumentos sobre prejuízos e benefícios Paulo Rebêlo Diario de Pernambuco &#8211; 27.abr.2008 fotos: João Carlos Mazella Outrora conhecido como o maior centro de distribuição do chamado Polígono da Maconha, que produz e exporta a droga para vários pontos da região, hoje [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2008/04/flip11.jpg" title="" width="304" height="530" border="0" hspace="4" vspace="2"/><i>RECURSOS HÍDRICOS // População que vive às margens do São Francisco não aceita os argumentos sobre prejuízos e benefícios</i></p>
<p>Paulo Rebêlo<br />
Diario de Pernambuco &#8211; 27.abr.2008<br />
<em>fotos: João Carlos Mazella</em></p>
<p>Outrora conhecido como o maior centro de distribuição do chamado Polígono da Maconha, que produz e exporta a droga para vários pontos da região, hoje o município de Cabrobó, com apenas 28 mil habitantes, é um dos principais entraves para o governo federal no ambicioso projeto de transposição do Rio São Francisco. Inicialmente previsto para terminar em 2010, o empreendimento promete levar água para áreas menos favorecidas do Nordeste Setentrional e, segundo promessas oficiais, beneficiar 12 milhões de pessoas e gerar oportunidades para agricultura familiar e o agronegócio.</p>
<p>Não obstante a bandeira social de levar água a quem tem sede, passados três anos desde a licença prévia concedida pelo Ibama em abril de 2005, a transposição conseguiu um feito que dificilmente alguém imaginaria e, ainda hoje, é pouco explorado por estudiosos e governos: o conflito entre irmãos. Ponto nevrálgico entre os sertanejos, a esperança por água tornou-se alicerce de uma discórdia que não escolhe classe social, raça, profissão, ideologia e até religião.<br />
<span id="more-570"></span><br />
Se de um lado os pesquisadores, cientistas, técnicos e políticos trocam farpas e não se entendem sobre os prejuízos e benefícios da proposta, do outro são os próprios sertanejos que não aceitam os argumentos mútuos e a forma como o debate tem sido conduzido. Enquanto a maior parcela dos moradores nos 2.800 km de extensão do Velho Chico desconhece os meandros técnicos da transposição, outra parte não aceita que esses mesmos ribeirinhos, que moram e se beneficiam de &#8220;tanta água&#8221;, se posicionem contra a proposta de levar água às regiões onde há escassez aguda e, teoricamente, garantir uma maior segurança hídrica. Como é o caso de Monteiro, na Paraíba.</p>
<p>Cabrobó tornou-se uma das artérias da transposição, não apenas pela resistência dos índios trukás e dos movimentos sociais contra o projeto, mas por ser o ponto inicial do Eixo Norte, que irá fazer a conexão hídrica entre Pernambuco e Ceará. O segundo Eixo (Leste), cujo canal começa em Floresta (PE), deve retirar água da barragem de Itaparica na Bahia e levar até a cidade de Monteiro, no cariri paraibano. As seis horas de estrada do Recife até o início do eixo norte não significa quase nada, ao calcular os 2.800 km de extensão do rio, cuja nascente se encontra na Serra da Canastra, em Minas Gerais.</p>
<p>Em seu percurso completo, o São Francisco corta 504 municípios e a população ribeirinha ultrapassa a marca de 13 milhões de pessoas. Seja na Bahia, em Pernambuco, Paraíba ou Ceará, naquelas terras áridas onde os galhos se quebram sozinhos, o chão racha de tão seco e a palma de cacto continua a servir de refeição para muita gente nos piores momentos de seca, perguntar a qualquer pessoa se ela é contra ou a favor da transposição é quase igual a perguntar por qual time de futebol ela torce. As informações são desencontradas. A maioria desconhece o que se pretende fazer, ao mesmo tempo em que replicam e multiplicam os discursos orientados por lideranças políticas ou comunitárias, nem sempre comungando de interesses coletivos.</p>
<p><b>Sobrevivência -</b> De concreto, o que os ribeirinhos sabem e entendem melhor do que qualquer técnico de ministério ou liderança política é a difícil arte de sobreviver do rio, pelo rio e para o rio. Em algumas regiões, a água que se bebeu diretamente das margens do Velho Chico, durante décadas, hoje é tão poluída que até para cozinhar não serve mais. Em outras, a abundância de peixes que alimentou gerações inteiras também cessou, dando espaço a minguadas refeições de arroz, ovos e farinha. O rio está morrendo, dizem os índios. O rio vai morrer com a transposição, profetizam os ambientalistas. O rio representa a integração nacional, bradam os pesquisadores. O rio é a redenção do Nordeste, discursa o governo. O rio são eles, espalhados pelos 2.800 km entre a fome a fartura. </p>
<p><b><font color="#FF0000" size="3">Proposta concreta ou promessa?</font></b></p>
<p><img src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2008/04/dsc02497.jpg" title="" width="320" height="214" border="0" hspace="4" vspace="2"/>Tornou-se praxe afirmar que a transposição do rio São Francisco é um sonho que data do Império e, agora, pode se transformar na redenção do Nordeste. Pouco se discute, contudo, sobre a crueldade imposta pela seca desde tempos imemoriais, assim como as promessas eleitorais de pôr fim ao martírio. Seria a transposição o início de um desenvolvimento concreto ou mais uma das promessas? </p>
<p>Para as lideranças da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o custo da transposição (R$ 4,9 bilhões) é um despejo de dinheiro público desnecessário. Roberto Malvezzi mantém um discurso similar ao do bispo de Barra (BA), dom Luiz Cappio, o religioso que optou por duas greves de fome como forma de protesto contra a transposição. Para eles, os maiores beneficiados serão fazendeiros que lidam com fruticultura, carcinicultura e outras atividades que demandam muita água. </p>
<p>&#8220;O argumento de matar a sede é uma falácia, o governo conquista pelo tom emotivo. Não somos contra o desenvolvimento econômico, mas é preciso estabelecer prioridades parabenefício humano. Todo mundo sabe da existência da indústria da seca, é como se ganha voto no sertão, não vai mudar nada&#8221;, contesta Malvezzi, ao contabilizar quase 500 alternativas viáveis elaboradas pela ANA (Agência Nacional de Águas), com metade dos recursos.</p>
<p>Valdemar Bezerra Luna, agricultor que criou duas gerações da família às margens do São Francisco em Pernambuco, mostra o resultado de anos de sofrimento pelo qual o rio tem passado: o hipoclorito de sódio, utilizado pela indústria como desinfetante e alvejante, hoje é a única saída para quem usa a água do rio para beber, cozinhar e alimentar os animais. A solução é entregue pelo Ministério da Saúde, mas a demanda supera a oferta. Resultado: muitos com ameba e outros problemas de saúde.</p>
<p><b><font color="#FF0000" size="3">Paraibanos sonham com obra</font></b></p>
<p><img src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2008/04/dsc02615.jpg" title="" width="320" height="214" border="0" hspace="4" vspace="2"/>Em outra ponta da polêmica, no destino final do Eixo Leste, a esperança por uma vida melhor em Monteiro (PB) atende por um nome só: transposição. Os olhos dos agricultores parecem brilhar a cada nova notícia para que as obras sejam aceleradas. Vlamir Japyassu, Silvia Tavares e seu marido, Airton, dizem em coro: &#8220;a gente não quer dinheiro, só quer água para plantar, comer, produzir&#8221;. Se por convicções ideológicas ou por meio de lideranças políticas, quase todos em Monteiro não agüentam sequer ouvir sobre índios trukás, que prometem não deixar o governo completar o canal em Cabrobó. Alegam que as construções estão em terras indígenas e que não foram indenizados, nem consultados. As terras sequer foram demarcadas, mas o governo já indenizou os donos que possuíam as escrituras.</p>
<p>A exemplo dos trukás, a tribo dos tumbalalás, no lado baiano do São Francisco, também se movimenta contra as obras. Ambas as tribos admitem que podem repensar suas posições caso o governo resolva reestabelecer o diálogo sobre a demarcação.&#8221;As terras são nossas&#8221;, não cansa de repetir o cacique Neguinho, líder truká. De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a questão vem sendo postergada há vários governos.</p>
<p>A ausência de termos conclusivos sobre a posse das terras por onde passam os canais da transposição pode gerar um atrito ainda maior e violento. Em Pedra Branca (BA), os moradores denunciam que as tribos indígenas estão invadindo propriedades privadas sob o argumento de que as terras são deles. Muita gente desistiu de tentar reaver as propriedades após o bloqueio dos índios. Rosilda dos Santos é uma das que teme pela perda das propriedades herdadas dos familiares. &#8220;Somos os donos legais. Nossas escrituras não valem mais nada?&#8221;, questiona. </p>
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		<title>Cinema acalenta população ribeirinha do rio São Francisco</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Mar 2008 23:28:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quarta edição do projeto que leva filmes às cidades banhadas pelo Rio São Francisco percorre comunidades do sertão nordestino, emocionando platéias. Programa leva o cinema a lugares remotos e desprovidos de salas de exibição e interfere no imaginário das comunidades. Paulo Rebêlo Diario de Pernambuco &#8211; 23.mar.2008 Pernambuco, Bahia e Alagoas &#8211; Difícil saber de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><i>Quarta edição do projeto que leva filmes às cidades banhadas pelo Rio São Francisco percorre comunidades do sertão nordestino, emocionando platéias. Programa leva o cinema a lugares remotos e desprovidos de salas de exibição e interfere no imaginário das comunidades.</i></p>
<p>Paulo Rebêlo<br />
Diario de Pernambuco &#8211; 23.mar.2008</p>
<p><img src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2008/03/cinerio03.jpg" title="" width="280" height="188" border="0" hspace="4" vspace="2"/><b>Pernambuco, Bahia e Alagoas &#8211; </b>Difícil saber de onde vem o brilho mais forte. Da tela de cinema ou daqueles olhos brilhantes e estáticos, congelados frente aos diálogos e imagens em movimento. Quem ainda acha que &#8220;a magia do cinema&#8221; é um termo inventado para denominar a potência do som Dolby Surround ou a nitidez de uma imagem em alta definição, certamente não faz idéia do significado de mesclar espanto, alegria e saudade ao assistir, pela primeira vez, um filme de cinema. Ou de chegar aos 80 anos tendo visto apenas novela em uma televisão de 14 polegadas &#8211; que funciona apenas quando quer, diga-se de passagem.</p>
<p><span id="more-441"></span></p>
<p>E de passagem é que se vê aqueles olhos assustados de um lado da rua, enquanto do outro predomina a euforia de crianças e adolescentes aos pinotes, esperando o início das exibições. À beira de casa, os idosos aguardam na cadeira de balanço e olham para a lona inflável com o semblante cético de quem muita coisa já viu na vida, mas não o suficiente para conter a curiosidade. Erguida, a lonase transforma em tela gigante que começa a falar e mostrar imagens. Motoqueiros formam filas e emprestam parte do assento para quem ainda está de pé, pois, afinal, as 200 cadeiras de plástico não dão conta de sequer metade da demanda.</p>
<p>O estalo do milho teria passado em branco, se a ventania forte não trouxesse o inconfundível cheiro de pipoca novinha. Em poucos segundos, a fila na pipoqueira dá voltas e chega até o fim da praça, ao mesmo tempo em que as crianças percebem, mais adiante, uma outra fila: a do algodão doce. Eles se dividem e, ao conseguir um pacote de pipoca, correm para tentar um palito de algodão doce. E voltam, voltam, até cansar. Depois voltam de novo. As crianças são incansáveis, como também o são os pipoqueiros, por horas a fio. A fio de algodão doce, aliás.</p>
<p><b>Narrativas do rio -</b> Durante três dias, o Diario acompanhou a equipe do Cinema no Rio São Francisco, um projeto itinerante que leva filmes nacionais, escolhidos a dedo, às cidades localizadas às margens dos quase 2.800 km do rio. Desde anascente, na Serra da Canastra em Minas Gerais, até a região do chamado Alto São Francisco. Atualmente na quarta edição, é a primeira vez que o grupo se aventura por tão longe, chegando ao Sertão nordestino. A quarta edição termina no dia 26 de março, na cidade de Neópolis, em Sergipe, após ter passado por dez municípios desde o dia 15.</p>
<p>A primeira etapa desta edição ocorreu no segundo semestre do ano passado. Durante as primeiras incursões do Cinema no Rio, apenas o estado de Minas Gerais era contemplado. Com um pouco mais de verba e novas cotas de patrocínio (a Petrobras, a Oi e a Lei Federal de Incentivo à Cultura são as principais) a equipe resolveu subir e chegar ao Alto São Francisco.</p>
<p>Se os mais velhos abrem a guarda do ceticismo e agora se identificam nitidamente com o filme Narradores de Javé (Brasil, 2003) que conta a história de uma cidade prestes a desaparecer, inundada por causa da construção de uma barragem, agora são as crianças que não acreditam como a pipoca e o algodão doce são de graça. Difícil competir com as guloseimas, mas a estratégia para os adultos deu certo: quem estava em pé, sentou. E quem estava mais distante da tela, se aproximou.</p>
<p>Estamos em Jatobá, pequeno município às margens do rio São Francisco no Sertão de Pernambuco, já próximo às divisas com Alagoas e com a Bahia. As cenas descritas aqui ainda iriam se repetir por tantas outras cidades e para tantas outras comunidades ribeirinhas, como também ocorreram em outros municípios encobertos pelos meandros do Velho Chico, como Belém de São Francisco (PE), Abaré (BA), Piranhas (AL), Curralinho (SE), Ilha do Ferro (AL), Pão de Açúcar (AL), Neópolis (SE), entre outras. </p>
<p><font color="#FF0000" size="3"><b>Sétima arte muda face das cidades</b></font> </p>
<p><img src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2008/03/cinerio02.jpg" title="" width="300" height="201" border="0" hspace="4" vspace="2"/>Casado e pai de dois filhos em Belo Horizonte, o curador Inácio Neves trabalha com cinema itinerante há mais de 15 anos. Contudo, foi apenas com a invenção da tela inflável, poucos anos atrás, que ele conseguiu realizar um antigo sonho: levar cinema a lugares remotos e desprovidos de salas de exibição. Além do Rio São Francisco, lugar onde passou pela primeira vez no final da década de 70 em barco a vapor, Neves também organiza outros projetos similares, como o Cinema nos Trilhos. &#8220;Exibimos filmes diversos, neste caso desenhos americanos também, às margens das ferrovias brasileiras, que são rincões esquecidos do Brasil&#8221;, conta.</p>
<p>O principal técnico da equipe, Wagner Roberto de Souza, o &#8220;Vaguinho&#8221;, trabalha nos bastidores de cinema há 30 anos. &#8220;Em salas fechadas você nunca vai ter a experiência que tem aqui, ver tão de perto a alegria das pessoas, isso muda a estrutura da cidade&#8221;, conta. E muda mesmo. Inicialmente exibindo apenas os curtas e longas nacionais, hoje o projeto possui um viés educacional que ultrapassa as desigualdades sertanejas.</p>
<p>Durante a tarde, enquanto a equipe técnica realiza os ajustes de áudio e monta as caixas acústicas, duas monitoras preparam uma oficina temática para crianças de 6 a 12 anos. &#8220;Mostramos o princípio da construção de cinema, de um filme, de uma animação&#8221;, explica Joanna Rodrigues, uma das monitoras. Com desenhos e lápis coloridos, as crianças desenham, pintam e entendem como funciona o processo de cinema, o rolo de filme e a película logo ali ao lado, no trailer da sala de projeção.</p>
<p>A presença das crianças nas oficinas, porém, é sempre uma incógnita. Na etapa de pré-produção, os professores locais são convocados pela equipe para incentivar a participação e até levar os estudantes, mas nem sempre há interesse. &#8220;Há casos de conseguirmos atrair a atenção de até 200 crianças ao mesmo tempo nas oficinas, quando as escolas se engajam. Em outros casos, às vezes menos de 30 aparecem para aprender e brincar&#8221;.</p>
<p>Em Piranhas (AL), São Pedro não deu a mesma trégua dada a Jatobá (PE). A chuva começou a cair logo cedo e apenas dez crianças participaram da oficina. Na hora da exibição, pouca gente participou. &#8220;É triste para a gente, mas alegre para eles, porque pelo menos está chovendo e todo mundo sabe quão importante é essa água toda&#8221;, tenta se confortar Inácio Neves. Não é uma tentativa em vão. No dia seguinte, o Cinema no Rio estará em Curralinho, em Sergipe, uma cidade tão pequena e sem a menor infra-estrutura, cujo acesso se dá por meio de uma estrada com 30 km de barro. &#8220;Dá para imaginar o impacto que vamos causar levando cinema para esse lugar?&#8221;, provoca Neves, prometendo cobrir ainda mais cidades no segundo semestre deste ano, quando pretende iniciar a quinta edição do Cinema no Rio.</p>
<p>Ele não está errado. Porque em uma caravana deste porte, quando as pessoas conseguem se identificar tanto com os filmes exibidos naquela tela inflável de oito metros de comprimento por quatro de altura, as histórias do Rio São Francisco se confundem com as histórias de cinema enovas histórias se formam. O cinema itinerante pode até ir embora, mas essas histórias ficam.</p>
<p><font color="#FF0000" size="3"><b>História de gente comum na telona</b></font></p>
<p><img src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2008/03/cinerio04.jpg" title="" width="300" height="201" border="0" hspace="4" vspace="2"/>Um ou dois curtas, uma animação e um longa metragem. Tudo nacional. Antes da exibição, contudo, a regra é exibir um pequeno vídeo sobre personagens ou histórias curiosas da cidade. O doceiro José Pereira de Lima foi o agraciado em Jatobá, mostrando como faz aqueles doces tão bons que agradam até quem não gosta de doces. A vizinhança se aproxima e, de repente, muita gente começa a identificar os vizinhos. Poucos minutos, poucas pessoas, muito orgulho.</p>
<p>Em cada cidade, a estrutura móvel é a mesma. E o trabalho, idem. Para funcionar sem erros, contudo, parte da equipe visita cada município até 15 ou 20 dias antes, para fazer os contatos com as prefeituras, escolher a melhor localização e divulgar o projeto nas escolas públicas. Um caminhão, um ônibus e dois veículos menores levam todo a infra-estrutura móvel necessária para a exibição que não deixa nada a dever a muitas salas comerciais.</p>
<p>Faça chuva ou faça sol, a curiosa tela de 200 kg (sem ar) é inflada em poucos minutos com um motor a diesel. E a magia do cinema começa ali, a partir de um projetor instalado no discreto trailer. Os filmes são exibidos em película 35mm e, por conta da flexibilidade da tela, vento e chuva não atrapalham tanto. Para comparar, basta imaginar um pula-pula gigante, daqueles de parque de diversões. </p>
<p>Na quarta e atual edição do Cinema no Rio, são pouco mais de 20 pessoas na equipe, entre motoristas, técnicos, professoras, pesquisadores e até mesmo a antropóloga Fernanda Oliveira, que ajuda nas abordagens para coletar histórias dos moradores e das cidades. Às 22h, com o fim da maratona cinematográfica, cujo início ocorre por volta das 19h, parte dos moradores começa a voltar para suas casas, enquanto outros procuram a equipe para saber mais. Quando voltam? Tem mais filme? </p>
<p>É tarde da noite, mas o pipoqueiro não respira um minuto. O estômago das crianças também parece inflável, pois continuam comendo pipoca e algodão doce até o silêncio tomar conta da cidade, enquanto os técnicos desarmam a estrutura e entram no ônibus para ir dormir. Amanhã, é outro dia, outra cidade, outros filmes.</p>
<p><font color="#FF0000" size="3"><b>Enquanto a chuva não cai</b></font></p>
<p><img src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2008/03/cinerio01.jpg" title="" width="270" height="181" border="0" hspace="4" vspace="2"/>Jatobá (PE) &#8211; Céu nublado desde o meio da tarde e relâmpagos em várias direções. As horas passam, a noite cai e os raios ficam mais intensos. Ainda não cai uma gota d&#8217;água. A equipe de montagem da tela e do áudio trabalha a todo vapor no meio da praça em Jatobá (PE), enquanto o idealizador do projeto Cinema no Rio, Inácio Neves, olha para o céu, pensativo. Não entende aquele clima justo agora, no mês de março. Ele não é o único.</p>
<p>A população de Jatobá pensa duas, três vezes, antes de sair de casa para ir até a pracinha. Não obstante a falta de infra-estrutura típica do Sertão, as histórias correm rápido. Dois dias antes, as chuvas torrenciais assustaram os moradores de Belém de São Francisco. Os relâmpagos foram tão intensos que acertaram a antena da igreja matriz. Houve um princípio de incêndio, as pessoas correram e a cidade inteira ficou sem internet. A descarga elétrica queimou todos os aparelhos que interligavam o município à rede mundial de computadores. Ninguém nunca havia visto algo igual, garantiram.</p>
<p>No dia seguinte, a tela inflável de Inácio Neves atravessou o Rio São Francisco de balsa, chegando a Abaré, na Bahia. A sessão lotou, mas os raios não cederam. Um dia depois, de volta a Pernambuco, é hora de ir até Jatobá e pedir uma trégua, não a São Francisco, mas a São Pedro. A poucos quilômetros de Jatobá, tudo era água. Viajantes e motoqueiros chegaram à praça e, assustados, perguntavam se a chuva já havia ido embora. Ela sequer havia chegado. São Pedro, talvez, estivesse tão ou mais curioso do que as mais de 400 pessoas espalhadas pelo chão e pelas cadeiras de plástico. </p>
<p>Às 19h, o primeiro curta-metragem começa. A euforia tem início e segue com uma animação, antes da exibição do longa-metragem Narradores de Javé. Um viajante desavisado se aproxima e diz: &#8220;Não estou entendendo, em Petrolândia é só água e aqui é só relâmpago, cadê a chuva?&#8221;. Ele esquece o que falou, aponta para a tela e, espantado, garante que conhece &#8220;aquele ali que está falando&#8221;. É José Pereira de Lima, doceiro bastante conhecido em Jatobá, temporariamente transformado em ator do curta-metragem sobre a cidade, feito pela equipe do Cinema no Rio dias antes. </p>
<p><font color="#FF0000" size="3"><b>Cinema nacional espelha realidade</b></font>    </p>
<p>Abaré (BA) &#8211; O filme é brasileiro, a produção é nacional, a temática é a cara do sertanejo, o roteiro tem tudo a ver com o cotidiano nordestino. Mesmo assim, se não fosse pelo Cinema no Rio, dificilmente as cidades ribeirinhas teriam oportunidade de assistir a longas como Abril despedaçado, Narradores de Javé, Auto da Compadecida, Baile perfumado e até mesmo o novíssimo Mutum.</p>
<p>Antes do filme, a expectativa é grande. Os longas são escolhidos a dedo por Inácio Neves e Helvécio Martins Jr., curadores e realizadores do projeto itinerante. O primeiro, ainda hoje, se espanta com o impacto que as exibições causam. &#8220;Eles se identificam de um jeito impressionante, muita gente viveu exatamente aquilo na vida real&#8221;, conta Neves, que tem um leque quase infinito de histórias vividas e contadas durante a passagem do Cinema no Rio.</p>
<p>Óbvio, há sempre a pergunta reincidente sobre filmes estrangeiros. &#8220;Não é nosso propósito. No começo, às vezes pedem para passar filmes de ação, de luta, mas depois eles vêm nos perguntar se temcomo encontrar o filme (nacional) na locadora&#8221;, lembra Neves. E o mais triste, nesse caso, é que quase nunca os nacionais estão nas prateleiras das pequenas locadores do interior. Isto é, quando há locadoras.</p>
<p>Em Abaré (BA), o longa exibido foi Abril Despedaçado. Ao final, um agente da polícia militar aproximou-se de Inácio Neves e confessou: &#8220;Foi muito bom vocês terem mostrado esse filme. Aqui tem uma família que vive se matando com outra família de Belém de São Francisco, espero que eles tenham assistido também&#8221;, confessou.</p>
<p>É justamente isso que move uma das diretrizes de Neves ao escolher os filmes nacionais. São roteiros que tenham diálogo com o universo sertanejo e ribeirinho, algo a ver com o lugar no qual vivem aquelas pessoas. O mais comum é a presenciar a alegria de quem nunca foi ao cinema ou, se foi, nem lembra mais. É o caso do repentista e açougueiro Rosemiro Jordão de Farias, prestes a completar 80 anos em maio. &#8220;Lembro de ter ido ao cinema uma vez, mas faz tanto tempo&#8230; não lembro quando, era em preto e branco e acho que era bang-bang&#8221;, recorda, enquanto toca sua viola em Jatobá (PE).<br />
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<i>*o jornalista viajou a convite da produção do Cinema no Rio</i></p>
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		<title>Paraíba // Caravana de apoio à transposição do São Francisco</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Mar 2008 02:40:24 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Paulo Rebêlo<br />
Diario de Pernambuco &#8211; 14.mar.2008</p>
<p><b>Monteiro (PB) -</b> Carros de som e fogos de artifício logo cedo, às 6h da manhã. Foi o jeito pontual e nada sutil de convocar as pessoas à praça pública para o ato em defesa da transposição do Rio São Francisco, realizado nesta cidade do Cariri paraibano, a 350 km do Recife. Os fogos eram o início da grande acolhida popular que estava por vir, à tarde, com a chegada do ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima. </p>
<p><span id="more-438"></span><br />
Apesar de a presença do governador de Pernambuco ter sido dada como certa pelas rádios locais ainda ontem, Eduardo Campos (PSB) não compareceu conforme comunicado desde quarta-feira. Outros governadores, como Wilma de Faria (RN) e Cid Gomes (CE) também não conseguiram chegar a tempo, mas por falta de políticos regionais presentes no evento a cidade de Monteiro não pode reclamar. Geddel chegou acompanhado do governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima, e vários outros políticos locais e regionais &#8211; que evidentemente não podiam perder a oportunidade de espalhar cartazes pela cidade com frases de apoio à transposição e de agradecimentos ao presidente Lula.</p>
<p>Praticamente uma unanimidade na Paraíba e no Rio Grande do Norte, sobretudo na Região do Cariri (Sertão), a transposição do São Francisco é vista pela população local quase como o messias salvador do sofrimento nordestino. Na Paraíba, é muito forte o clima de conflito entre irmãos, por conta de lideranças sociais e políticas na Bahia e Sergipe, que são contra o projeto de transpor as águas do rio. Não à toa, o inflamado discurso do ministro Geddel Vieira Lima pesou ao falar sobre solidariedade entre os estados nordestinos. O Ministério da Integração Nacional é quem comanda as obras e, de acordo com o ministro, agora não há mais impedimentos legais e os estados do Nordeste Setentrional (norte) vão poder, finalmente, usufruir das águas após o término das obras. Orçada em R$ 6 bilhões, a previsão é construir até 2010 os dois canais (eixo norte e eixo leste), cujo segundo termina aqui em Monteiro.</p>
<p>Com dedo em riste, rosto vermelho e aos berros, Geddel chegou a pedir para que a população &#8220;não o confundisse com algumas lideranças políticas&#8221; da Bahia, seu estado de origem, que se colocam contra a transposição &#8220;para barganhar com o governo federal&#8221;. Garantiu que, diferentemente do que dizem os oposicionistas ao projeto, o benefício primário será matar a sede dos nordestinos, não apenas o agronegócio. Ao ter suas trajetórias política e pessoal elogiadas durante quase todo o discurso do governador Cássio Cunha Lima, e também da prefeita de Monteiro, Lourdinha Aragão (PMDB), o ministro chegou a dizer que &#8220;se continuassem, minhas lágrimas iam servir de água para a transposição&#8221;. </p>
<p>Números &#8211; Durante a manhã, técnicos do ministério e da Agência Estadual de Águas (AESA) tentaram, sem muito sucesso, conquistar a atenção de um auditório lotado com as palestras técnicas previstas na programação, pelas quais os números da transposição &#8211; vazão e volume de água, carência hídrica, benefícios diretos, distribuição &#8211; foram mostrados. Pelo menos trêsmil pessoas lotaram o espaço e boa parte manteve-se do lado de fora, de onde era possível escutar parte dos discursos. </p>
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		<title>Estados cobram agilidade nas obras da transposição</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Mar 2008 04:34:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[SÃO FRANCISCO // Governadores e prefeitos promovem ato para exigir ação do governo Paulo Rebêlo Diario de Pernambuco &#8211; 13.mar.2008 Monteiro (PB) &#8211; Quem tem sede, apóia. Eis o lema que move governadores e quase 100 prefeitos da região Nordeste reunidos hoje, desde cedo, nesta cidade do cariri paraibano para um ato a favor da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><i>SÃO FRANCISCO // Governadores e prefeitos promovem ato para exigir ação do governo</i></p>
<p>Paulo Rebêlo<br />
Diario de Pernambuco &#8211; 13.mar.2008</p>
<p><strong>Monteiro (PB) &#8211; </strong>Quem tem sede, apóia. Eis o lema que move governadores e quase 100 prefeitos da região Nordeste reunidos hoje, desde cedo, nesta cidade do cariri paraibano para um ato a favor da transposição do rio São Francisco. Até o final do dia, são esperadas 10 mil pessoas em praça pública para cobrar do governo federal, representado pelo ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, uma solução aos impasses que continuam travando o avanço das obras. Ele se junta aos governadores, o tucano Cássio Cunha Lima (PB) e os socialistas Cid Gomes (CE) e Wilma de Faria (RN). O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), não vem para o ato. Segundo sua assessoria, hoje à tarde ele tem uma reunião e irá receber uma medalha em Teresina, no Piauí.</p>
<p><span id="more-2232"></span><br />
Uma da principais bandeiras do governo Lula para o desenvolvimento nordestino, o projeto de transpor e revitalizar a bacia hidrográfica do São Francisco promete abastecer partes do semi-árido nordestino e fomentar várias formas deagriculturas irrigadas. Pesquisadores, religiosos e partes da sociedade civil, contudo, são contra o projeto da União e argumentam que o governo não debateu a questão suficientemente, além de alegarem impactos ambientais irreversíveis. </p>
<p>E por falar em religiosos, é justamente o arcebispo da Paraíba, Dom Aldo Pagotto, uma das vozes mais presentes a favor da empreitada. Presidente do comitê de defesa da transposição neste estado, ele abre o ato hoje às 8h da manhã em Monteiro, seguido pelo Padre Djacy Brasileiro e sua famosa cruz de latas, a qual simboliza a seca no Nordeste e está exposta no centro da cidade como referência para o sofrimento do sertanejo. </p>
<p><b>Integração -</b> Técnicos do Ministério da Integração Nacional e da Agência Estadual de Águas (AESA) irão apresentar novamente a proposta de integração das bacias e revitalização, além de um esboço sobre como ficaria a distribuição de água na Paraíba e em outros locais do Nordeste. Geddel Vieira chega após o almoço, vindo de Souza (PB), para uma rápida coletivaem que deve revelar a atual situação das obras. De acordo com a prefeita de Monteiro, Lourdinha Aragão (PMDB), a principal cobrança é saber quando as obras irão de fato deslanchar. Monteiro é o ponto final do segundo eixo (leste) da transposição, cujo canal tem início em Floresta (PE) e deve retirar água da Barragem de Itaparica (BA). O primeiro eixo (norte) tem início em Cabrobó (PE) e, após vários protestos e liminares que suspenderam o início das obras da primeira etapa, o exército continua no local para as primeiras escavações e trabalhos de topografia. </p>
<p>Há mais de um ano, porém, os paraibanos do cariri aguardam o início das obras na região, paradas por sucessivas liminares na Justiça e falta de licenças ambientais. Segundo a prefeita Lourdinha, &#8220;todas as licenças ambientais já foram feitas e os impedimentos judiciais acabaram, agora não há mais motivo para espera. O povo tem sede, mas as obras sequer foram licitadas ainda. Esperamos que o ministro traga novidades&#8221;, confia. </p>
<p>Monteiro é o maior município em extensão da Paraíba, com uma imensa zona rural com graves problemas de abastecimento, dependendo quase que exclusivamente de carros-pipa. &#8220;Quem é o contra o projeto, fala em soluções que não funcionam, como cisternas, poços e até mesmo mais carros-pipa, é um absurdo. Todos os prefeitos da Paraíba e do Nordeste apóiam, apenas uma minoria é contra&#8221;, garante. </p>
<p>Na Paraíba, são 121 municípios que dependem de carro-pipa. Representantes de movimentos sociais e da indústria também estão presentes na cidade, que promete muito barulho até o final do dia. Desde ontem, cartazes e painéis podem ser vistos espalhados pela cidade, além de carros de som anunciando o ato e convocando a população a participar.</p>
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		<title>São Francisco se transforma no rio da discórdia</title>
		<link>http://www.rebelox.com/2007/12/sao-francisco-se-transforma-no-rio-da-discordia/</link>
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		<pubDate>Thu, 27 Dec 2007 13:32:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Projeto de transpor as águas coloca em lados opostos ribeirinhos e sertanejos Paulo Rebêlo Folha de S. Paulo &#124; 26/dez/2007 link O chão é árido a ponto de rachar. Os galhos quebram com facilidade de tão secos. Açudes e palmas de cactos que servem como alimento de animais -e até de seres humanos- também secam. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Projeto de transpor as águas coloca em lados opostos ribeirinhos e sertanejos</em></p>
<p>Paulo Rebêlo<br />
Folha de S. Paulo | 26/dez/2007<br />
<a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2612200708.htm">link</a></p>
<p>O chão é árido a ponto de rachar. Os galhos quebram com facilidade de tão secos. Açudes e palmas de cactos que servem como alimento de animais -e até de seres humanos- também secam. Se vivo estivesse, Graciliano Ramos certamente diria que as vidas nunca deixaram de ser secas. Ele só não saberia explicar como pode haver tanta água a poucos quilômetros de um cenário tão ríspido.</p>
<p>Às margens do rio São Francisco, o agricultor Valdemar Bezerra Luna criou filhos e netos nessa região longe de grandes cidades e carente de infra-estrutura. Afinal, dos 84 anos 54 foram à beira do rio no sertão pernambucano. Depois de tanto tempo, ele garante que sua própria existência tornou-se uma extensão do rio, com benesses desde a água para consumo até a manutenção de uma pequena roça com a qual alimenta a família. A vida de seu Valdemar não é muito diferente da de milhares de famílias às margens do gigantesco rio com 2.863 km de extensão, cuja nascente fica na Serra da Canastra (MG). As turvas águas da bacia hidrográfica do São Francisco percorrem 504 municípios, com população ribeirinha que ultrapassa os 13 milhões.</p>
<p><span id="more-2220"></span></p>
<p>Seu Valdemar anda curioso com as conversas dos amigos sobre o tal projeto do governo de levar &#8220;um pouco d&#8217;água&#8221; para outros Estados do Nordeste. Alheio à polêmica, ele duvida de que o rio será prejudicado como tanto falam. &#8220;Estamos nos alimentando do rio e até hoje não nos faltou, acho que se tirar um pouquinho e levar para quem também precisa não vai fazer mal&#8221;, pondera. Nostálgico, lembra os bons tempos de um vigoroso Velho Chico, bem diferente da condição precária de hoje, sem peixes e com água impossível de beber sem o uso controlado de remédios, como o hipoclorito de sódio, por conta da poluição.</p>
<p>Pelas letras oficiais, o projeto de transpor as águas do rio São Francisco para abastecer partes do semi-árido nordestino coloca em lados opostos governo, comunidade científica, ambientalistas, movimentos sociais e religiosos. O ponto comum que une os sertanejos -a esperança da água- tornou-se alicerce de uma discórdia entre irmãos. Negros, índios, brancos, ricos, pobres, agricultores, famílias inteiras. Acostumados à crueldade imposta pelas secas desde tempos imemoriais, agora falam em crueldade nos Estados vizinhos e dos técnicos do governo que não querem explicar o que vai acontecer com o rio. Conhecido como rio da integração nacional, hoje o São Francisco torna-se o rio da discórdia ao colocar em pé de guerra paraibanos, pernambucanos, baianos, sergipanos, cearenses e mineiros.</p>
<p>Não obstante a poluição, a vida às margens do São Francisco não é tão ríspida quanto em outras locações sertanejas, como ocorre com o casal de agricultores Ailton e Silvia Tavares, em Monteiro (PB). No centro de uma região seca e rochosa, à primeira vista os Tavares são privilegiados, pois moram a poucos metros de um açude. Mas a água é tão poluída e barrenta que até os animais rejeitam. E na região do Cariri paraibano, a dificuldade de conseguir o hipoclorito de sódio é notória, já que o produto é distribuído pelo Ministério da Saúde -de acordo com a população local, está constantemente em falta. As pessoas estão sempre doentes com ameba, principalmente crianças.</p>
<p>A esperança da população rural de Monteiro atende por um nome: transposição. O agricultor Vlamir Bezerra Japyassu, 40, resume a espera ao repetir que &#8220;não quer dinheiro, quer apenas água&#8221;. Para plantar, produzir, comer e vender. Sem água, garante, tudo morre. Eles também. Silvia Tavares tem uma fé quase cega de que, com a transposição, os piores problemas acabam. &#8220;Quem tem em abundância não sabe o que é beber um copo de líquido barrento para sobreviver.&#8221;</p>
<p>Em matéria de sobrevivência pelo rio, poucos têm mais autoridade do que os índios trucás nos arredores de Cabrobó, de volta a Pernambuco, onde a primeira etapa da gigantesca obra da transposição tem início. Saindo do Recife, são seis horas de estrada até este pequeno município de 28 mil habitantes. Os trucás são os maiores produtores de arroz em Pernambuco e também abastecem várias cidades da região com feijão e cebola. A tarde já começa a cair e, para chegar ao início das obras da transposição, é preciso percorrer mais 40 minutos entre rodovia e estrada de terra. A porteira de acesso ao primeiro canal do eixo Norte, previsto para ligar Pernambuco ao Ceará, está fechada. A entrada é proibida. E, para desespero da população que espera receber água da transposição, as obras estão paradas novamente.</p>
<p>Com auxílio dos índios, é preciso ir de canoa a um caminho alternativo, por onde o Exército não irá ver nossa chegada ao local onde estão as primeiras escavações. Os trucás reafirmam que ali naquela terra não vão deixar o governo construir nada, pois a terra é deles. Não cansam de repetir que, pela Constituição, não é permitido construir nada em território indígena sem a permissão dos índios. Segundo o cacique Neguinho, líder do movimento trucá de oposição às obras, não houve nem sequer diálogo para atender às reivindicações da tribo. </p>
<p>Em conjunto com a tribo dos tumbalalás, do outro lado do rio, já na Bahia, as lideranças indígenas argumentam que o São Francisco está morrendo e o governo nunca se prontificou a revitalizar a bacia, prejudicando toda a população ribeirinha. E agora, com a transposição, ambas as tribos acreditam ser a oportunidade de ouro para levantar a bandeira histórica da demarcação de terras. &#8220;Já nos enganaram uma vez quando construíram a barragem de Sobradinho, todo mundo tinha peixe em abundância e, agora, quem consegue pescar é um sortudo. Não há mais nada. Não vão nos enganar novamente&#8221;, afirma Neguinho.</p>
<p>Enquanto isso, na região que espera a chegada das águas do São Francisco pela transposição, as obras são aguardadas como salvadoras de tempos secos e água escassa. No Cariri paraibano, a população não quer nem ouvir falar o nome dos trucás. Teoricamente, a área poderá ser uma das principais beneficiadas.</p>
<p><strong>Projeto de transposição das águas remonta ao Império</strong> </p>
<p>A transposição do São Francisco é um &#8220;sonho&#8221; que data do Império. Sob a gestão de Lula, novamente levantou-se a bandeira do desenvolvimento do Nordeste a partir das águas do rio para programas de irrigação e abastecimento humano. Comandada pelo Ministério da Integração Nacional, a previsão oficial é usar 2% do volume total de água, com vazão mínima de 26 m3/s e máxima de 127 m3/s. São dois gigantescos canais construídos no coração do sertão. O eixo Norte liga Pernambuco ao Ceará; e o eixo Leste, cujo canal tem início em Floresta (PE), deve retirar água da barragem de Itaparica na Bahia e levar até a Paraíba.</p>
<p>Em abril de 2005, o Ibama concedeu licença prévia para o início das obras. Hoje, quase três anos depois, o cenário pouco mudou. O coordenador da Transposição no Ministério da Integração Nacional, Rômulo Macedo, afirma que respeita a reivindicação dos índios trucás para que o governo demarque as terras, mas não entende a insatisfação da tribo. &#8220;Eles [os trucás] são os maiores beneficiados com a transposição. Na ilha de Assunção, onde moram, a pista era toda de barro e hoje está com estrada. Construímos casas que antes não existiam, há o projeto paralelo de revitalização da bacia hidrográfica pelo qual estão tendo saneamento básico, que sempre foi uma demanda antiga&#8221;, enumera. &#8220;Se todas as tribos disserem que a terra é deles sem comprovação, então não vai sobrar mais nada no Brasil&#8221;, ironiza.</p>
<p>O coordenador do escritório da Transposição em Monteiro (PB), Lusbene Cavalcanti Júnior, classifica como &#8220;impropérios&#8221; as argumentações contrárias à transposição. &#8220;Esse pessoal não sabe o que é beber água barrenta, amarela, não conhece a realidade do sertão.&#8221; Lusbene cita um dos pilares mais fortes de quem defende o projeto: a evaporação. &#8220;Sem a adução que a transposição irá trazer, o sol leva boa parte da água nos açudes, é uma maldade completa.&#8221; </p>
<p>Para as lideranças da CPT (Comissão Pastoral da Terra) no Nordeste, o custo da transposição é um despejo de dinheiro público perigoso e desnecessário. Roberto Malvezzi, da CPT em Juazeiro (BA), diz ser perigoso porque os maiores beneficiados serão fazendeiros que lidam com fruticultura irrigada, carcinicultura (criação de crustáceos) e outras atividades com demanda de alto volume de água. &#8220;O argumento de matar a sede é falacioso, mas conquista o público leigo pelo tom emotivo. Não somos contra o desenvolvimento econômico, como dizem os pró-transposição; mas é preciso estabelecer prioridades. Recursos públicos devem ser usados para benefício humano, não para um punhado de gente com grandes empreendimentos econômicos. Todo mundo sabe da existência da indústria da seca, é como se ganha voto no sertão, não vai mudar nada&#8221;, contesta Malvezzi, ao contabilizar quase 500 alternativas viáveis elaboradas pela ANA (Agência Nacional das Águas), órgão do próprio governo, custando metade do valor calculado pela transposição para resolver o problema.</p>
<p>O diretor de engenharia e construção da Chesf (Companhia Hidroelétrica do São Francisco), José Ailton de Lima, explica que inicialmente o órgão foi contra as obras porque poderia perder volume de água para geração de energia nas hidrelétricas, mas hoje os técnicos entendem que a relação custo-benefício vale a pena. &#8220;O melhor de todo o projeto é a geração de segurança hídrica para a região, pois antigamente acreditava-se que apenas açudes resolviam o problema, hoje o cenário é outro. Só o desperdício com a evaporação é maior do que todo o volume de água que a transposição pode tirar do rio. No Nordeste, essa perda (por evaporação) chega a 17% da água acumulada em açudes. Pior, hoje o governo não tem controle sobre as águas, tem açude público sendo controlado por aglomerados econômicos ou grupos de fazendeiros, sem fiscalização ou regularização alguma&#8221;, afirma.</p>
<p><strong>Moradores acusam índio de tomar terras</strong></p>
<p>Ao atravessar o São Francisco pelo lado pernambucano, na outra margem a população do povoado de Pedra Branca (BA), está com medo dos índios. Ao perceberem a movimentação da reportagem no caminho da tribo dos tumbalalás, o povoado pede que alguém dê ouvidos para os &#8220;brancos&#8221; que não têm representação nos corredores do poder. Os moradores acusam os índios de olhar apenas para o lado deles, aparecendo do nada com o debate da transposição para reivindicar terras que não são deles. Formada em geografia pela Cesvasf de Belém do São Francisco, Rosilda Orcelina dos Santos, 35, teme pela perda das terras deixadas por herança de familiares.</p>
<p>Posição idêntica tem o agricultor José Hipólito da Cruz, a técnica em contabilidade Poliana Alves Santos, a aposentada Maria Nicanor Sares de Araújo e tantos outros. &#8220;Para defender os índios sempre aparece um monte de gente, padre, autoridade&#8230; mas e nós?&#8221;, indaga Maria. Nos dias em que a reportagem esteve lá, os tumbalalás bloquearam. Eles explicam que não são numerosos como os trucás, mas vão aproveitar a transposição para exigir a delimitação das terras. Questionados sobre as críticas, ambas as tribos garantem que estão lutando pelo que é deles &#8220;de direito&#8221;.</p>
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