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	<title>Paulo Rebêlo &#187; cabrobó</title>
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	<description>rebelox .:. jornalismo de precisão e crônicas imprecisas</description>
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		<title>Às margens da transposição</title>
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		<comments>http://www.rebelox.com/2009/11/margens-transposicao/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 15 Nov 2009 16:13:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Jornais]]></category>
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		<category><![CDATA[transposição]]></category>

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		<description><![CDATA[Paulo Rebêlo (email) Terra Magazine &#124; 14.novembro.2009 Ao estacionar o carro debaixo de uma árvore para se proteger do sempre escaldante sol sertanejo, conseguimos avistar Tonha de longe. Fui a seu encontro muito satisfeito, não apenas por ter conseguido visitar novamente aquela família a quem eu tanto devia. Mas, também, por enfim cumprir uma promessa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Paulo Rebêlo </strong>(<a href="mailto:imprensa@rebelo.org">email</a>)<br />
<a href="http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4100774-EI6578,00-As+margens+da+transposicao.html">Terra Magazine</a> | 14.novembro.2009</p>
<p><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto15.jpg"><img class="size-medium wp-image-1739  alignright" style="margin: 5px;" title="foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto15-300x199.jpg" alt="foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" width="300" height="199" /></a></p>
<p><span style="background-color: #ffffff;">Ao estacionar o carro debaixo de uma árvore para se proteger do sempre escaldante sol sertanejo, conseguimos avistar Tonha de longe.</span></p>
<p>Fui a seu encontro muito satisfeito, não apenas por ter conseguido visitar novamente aquela família a quem eu tanto devia. Mas, também, por enfim cumprir uma promessa feita um ano antes naquele mesmo local, sob aquele mesmo teto, às margens do rio São Francisco na Ilha de Assunção em Cabrobó, Sertão de Pernambuco.</p>
<p>Abri um sorriso para Tonha e apressei-me em dizer: não esqueci. Mostrei as fotografias da família dela e lembrei do desafio de seu pai quando disse que dificilmente voltaríamos para visitá-los.</p>
<p><span id="more-1731"></span></p>
<p>Minha pueril satisfação escorreu pelas margens do rio no exato momento em que percebi Tonha baixar a cabeça.</p>
<p>Chegamos tarde demais.</p>
<p>Ele se fora. Antes de ver o sonho se concretizar. Não o sonho da Transposição do Rio São Francisco, a qual a população ribeirinha, supostamente a maior beneficiada, ainda não consegue entender direito como vai funcionar. Apenas imaginam em uníssono que bastará abrir a torneira de casa para cair água &#8220;porreta&#8221;, segundo as palavras do presidente Lula em outubro deste ano durante a caravana em Cabrobó.</p>
<p>O sonho de Seu Valdemar era outro. Era o de ver Opará, como o rio São Francisco fora conhecido pelos indígenas antes da colonização, de volta a sua velha forma: pujante, abundante e vigoroso. Coisa que há muitos anos os ribeirinhos mais velhos guardam apenas na lembrança.</p>
<p>Tonha folheava as fotos do pai, Valdemar Bezerra Luna, agricultor que viveu os últimos 55 dos seus 85 anos de idade às margens do rio. Foi onde criou filhos e netos com invejável bravura, a exemplo de outras 13 milhões de pessoas que formam a população ribeirinha do Velho Chico.</p>
<p>Recordo da vívida imagem de Seu Valdemar segurando um pequeno frasco de hipoclorito de sódio enquanto nos explicava de uma época quando havia peixes para pescar e água potável para beber. Sem o uso de substâncias controladas e de difícil acesso como aquela.</p>
<p><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto04.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1748" style="margin: 5px;" title="Seu Valdemar mostrando o hipoclorito de sódio // Foto: João Carlos Mazella" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto04-300x199.jpg" alt="" width="300" height="199" /></a></p>
<p><span style="background-color: #ffffff;">Antes de Seu Valdemar, muitos se foram. Depois dele, muitos ainda se vão. Até que uma certa promessa seja cumprida. Não a de imprimir fotografias e dar de presente. Sim, a promessa secular de democratizar e universalizar a água numa região do Brasil historicamente castigada pelo descaso político, abandono social e amplo desconhecimento da sociedade nascida e criada em seios urbanos.</span></p>
<h2>Um rio de decretos</h2>
<p>A bacia hidrográfica do São Francisco, em seus 2.863 km de extensão, percorre 504 municípios divididos em sete unidades federativas.</p>
<p>Nosso contato com Seu Valdemar ocorrera meramente por acaso, em julho de 2007, a partir de uma série de pesquisas e reportagens durante o início formal das obras da transposição em Cabrobó, ponto de partida do Eixo Norte, por onde haverá a ligação entre Pernambuco e Ceará através de um canal com 416 quilômetros previstos.</p>
<p>Junto ao experiente fotógrafo João Carlos Mazella, cujas fotos ajudam a ilustrar este texto, nos instalamos de &#8220;mala e cuia&#8221; junto aos trukás, poucos dias depois da célebre expulsão do Exército pelos índios no canteiro de obras, localizado em terras reivindicadas pela tribo.</p>
<p>A família de Seu Valdemar, por intermédio da filha Tonha e do Cacique Neguinho, nos abrigaram e alimentaram durante aquele período de muitas descobertas interessantes. Descobertas para nós e para eles.</p>
<p>Foram inúmeras famílias com quem conversamos às margens do rio, em milhares de quilômetros rodados nos últimos anos pelo Nordeste. Todas elas nos mostrando como era a vida real e as condições de quem dependia do rio São Francisco para sobreviver. E como essa relação, outrora harmônica, tanto mudou.</p>
<p>Sobre a transposição em si, eles ouviram as mais diferentes histórias, argumentos e opiniões. Muita gente contra. Muita gente a favor. E mais gente ainda sem fazer a menor idéia do que se trata.</p>
<p>Ainda hoje, ao percorrer os grotões do Brasil, me perguntam do que se trata &#8220;de verdade&#8221; a Transposição do São Francisco. Mas como definir uma verdade cuja existência, desde a época do Império, nunca deixou de ser um sonho para alguns e um pesadelo para outros?</p>
<p>Depois de Dom Pedro II, a noção de transpor as águas do rio foi retomada por Getúlio Vargas em 1943, ganhou destaque durante o governo de Figueiredo após a grande estiagem de 1979 a 1983, chegou ao colo do presidente Itamar Franco em 1994 e ganhou decretos durante a era Fernando Henrique Cardoso no período de 1998 a 2002. Desde 2003 voltou à agenda nacional, agora com Lula.</p>
<p>Em outubro de 2007 (ou seja, após o início formal das obras do Eixo Norte) as atribuições passam para o Conselho Nacional de Recursos Hídricos, na época presidido por ninguém menos que a Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.</p>
<p>Por 42 votos contra 4, o Conselho posicionou-se contra a transposição como ela se apresentava na época e estabeleceu que as águas do São Francisco só poderiam ser utilizadas fora da bacia em casos de escassez comprovada e para consumo humano e dessedentação animal. Motivo? Acentuado grau de degradação do rio. Uma situação que os ribeirinhos tanto falam, há tantos anos, mas poucos parecem escutar.</p>
<p>Nos meses seguintes, novos decretos surgiram a partir de conflitos entre as devidas competências institucionais; as obras foram liberadas, não obstante os processos judiciais ainda hoje em curso e que ninguém em sã consciência pode prever o desfecho.</p>
<p>Outubro de 2009, a transposição é chancelada pelo governo federal como &#8220;fato concreto&#8221;.</p>
<p>Difícil explicar? Sequer me atrevo. Talvez pela falta de competência discursiva em repassar as letras oficiais que ouvimos tantas vezes em audiências públicas, plenárias e outros encontros, quando emissários do governo explicavam a transposição mais ou menos assim:</p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>&#8220;Transpor as águas para abastecer partes do semi-árido nordestino e beneficiar 13 milhões de pessoas, retirando apenas 2% do volume de água do São Francisco por meio de dois canais, gerando milhares de emprego e melhoras estruturais para todo o Nordeste, ao mesmo tempo em que ajuda a revitalizar a bacia hidrográfica do São Francisco.&#8221;<br />
</em></p>
<p>Parece um sonho. Seu Valdemar ficaria orgulhoso.</p>
<p>Também ouvimos a explicação acima de um sem número de prefeitos, deputados, vereadores, profissionais liberais, engenheiros e até de poetas. Também ouvimos o oposto de igual número de pessoas em todos os Estados do Nordeste.</p>
<p>E quando tentamos extrair o sumo de todo o maniqueísmo típico de comícios e caravanas pelas profundezas do Nordeste, na minha mente sempre veio apenas a voz de Seu Valdemar nos dizendo:
</p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>&#8220;Mas o rio é tão grande&#8230; acho que não vai faltar se tirarem um pouquinho da água aqui da gente para levar aos nossos irmãos lá de cima, não é?&#8221;</em></p>
<p>Se essa conclusão é fruto de uma imensa ingenuidade ou de uma imensa sabedoria, só o tempo irá dizer. Até lá, muitos continuarão sonhando. E nós continuaremos torcendo que sobrevivam para ver. E para cobrar.</p>
<h2>Meandros humanos</h2>
<p><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto13.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1740" title="Foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto13-300x199.jpg" alt="Foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" width="300" height="199" /></a>Em 2007, quando as obras começaram em Cabrobó, para boa parte do Brasil que desconhece o Brasil a insatisfação dos índios trukás naquela cidade parecia um fato novo.</p>
<p>Ledo engano.</p>
<p>A única novidade, de fato, fora o barulho agora gerado pela mídia nacional &#8211; em grande parte por conta da presença de um Exército acuado pela mobilização indígena e da greve de fome do bispo de Barra (BA), Dom Luiz Cappio. E, claro, com a sempre presente contribuição das hipérboles de Brasília sobre uma obra que se coloca como um aguardado messias para o Nordeste.</p>
<p>Por meio de seus líderes, em agosto de 2007 pelo menos três mil índios da etnia truká se rebelaram contra as obras da transposição. Oficialmente, colocaram-se contra o projeto por acreditar que a água do Velho Chico iria acabar e prejudicar a pesca e agricultura da região.</p>
<p>A tribo é uma das principais produtoras de arroz e cebola em Pernambuco, chegando a ser responsável por mais de 80% da produção deste primeiro item. Talvez nem os trukás tenham real noção do poder persuasivo que, teoricamente, possuem.</p>
<p>São dúbios os reais motivos, mas quando os primeiros sinais de uma nova transposição voltaram a surgir durante o início do governo Lula, em 2003, os trukás e boa parte da população ribeirinha já mostravam um amplo consenso negativo às obras.</p>
<p>Naquela época, contudo, o acesso às opiniões dos trukás envolvia uma complexa negociação e muito jogo de cintura. Porque até meados desta década, Cabrobó não era um dos ícones da transposição como o governo classifica hoje. Era um ícone de produção e do tráfico de drogas na região, conhecida nacionalmente pelas autoridades, pela força policial e até parte do folclore urbano em Pernambuco.</p>
<p>Os caciques trukás com quem conversamos e convivemos, durante a mobilização de 2007 contra o Exército, não sabiam ou não lembravam. O tempo havia passado, mas ali de frente a eles estava o mesmo jornalista que foi sutilmente convidado a sair da cidade por duas vezes, em anos anteriores, ao tentar entrar na Ilha de Assunção para conversar com os índios sobre o problema do tráfico que aterrorizava e dizimava famílias inteiras de índios, sobretudo os mais jovens.</p>
<p>Eram tempos difíceis. Mortes por encomenda, traficantes infiltrados, ameaças, queimas de arquivo. Capangas armados faziam a segurança da ilha e, como zelava a Constituição, ninguém podia entrar sem autorização expressa dos índios, geralmente por via da Funai.</p>
<p>O silêncio sempre reinou em Cabrobó. E neste ponto, pouca coisa mudou. A cidade melhorou bastante e continua a progredir visivelmente. O grosso do tráfico não age mais a céu aberto como antes. Contudo, ainda há certos assuntos que não podem ser discutidos. A transposição, neste caráter atual de messias do desenvolvimento nordestino, passa ao largo de tudo isso.</p>
<p>E durante a caravana de outubro de 2009, sequer uma palavra foi dita.</p>
<p><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/Image00003.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1742" title="Foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/Image00003-300x195.jpg" alt="Foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" width="300" height="195" /></a>Daquela época pouco amistosa no município, chegamos a 2005 quando a liderança dos trukás estava convicta do seu papel de se opor às obras da transposição. Obras tais que entrariam em seus territórios sem autorização, situação proibida expressamente pela Constitiução. Mas as escrituras das terras (onde reside o início do canal) nunca foram deles. Como de praxe, um conflito legal e histórico das tribos indígenas espalhadas em todo o Brasil: são donos de terra de fato, não de direito.</p>
<p>Por conta de um passado sombrio com o tráfico (porém um paraíso para os traficantes) ninguém nunca soube, factualmente, se os trukás se posicionavam desde muito cedo contra a transposição por livre e espontânea vontade ou por influência de terceiros.</p>
<p>Dois anos depois, em 2007, quando o assunto ganhou as manchetes nacionais já com o tom de guerra e de greve de fome, a mobilização dos trukás caiu como uma luva para Estados como Sergipe e Bahia, por exemplo, os quais sempre se colocaram publicamente contra a transposição, alegando que seriam prejudicados ambiental e economicamente.</p>
<p>As posições de Bahia e Sergipe, por exemplo, não estão apenas em reportagens da época. Estão em livros e documentos oficiais disponíveis para leitura de qualquer um.</p>
<p>Naquele ano de 2007, bem diferente da animosidade quando outrora fomos convidados a nos retirar da cidade, os trukás nos recebem e mostram boa parte de seus territórios &#8211; alguns trechos ainda estavam &#8220;fechados para visitação&#8221;, por assim dizer, assunto que incomodava as lideranças e causava desconforto generalizado. Ainda hoje.</p>
<p>Somos levados de &#8220;canoa motorizada&#8221; pelo Velho Chico, um caminho alternativo para conferir o início das obras e onde o Exército não poderia ver nossa chegada ao local com as primeiras escavações. Depois da mobilização indígena contra os militares, fechou-se uma porteira na área e civis não podiam entrar. Enquanto observavam qualquer movimento do Exército ao longe, os trukás reafirmavam para nós que ali naquela terra não deixariam o governo construir nada. Era deles.</p>
<p>Agora vamos dar outro pulo e chegamos a outubro de 2009. Quem viu a caravana do presidente Lula agregando tantas dissidências políticas e sem as reivindicações de outrora, fica sem entender nada. E duvida de como não há mais debate sobre problemas sérios como o tráfico de drogas, o alto índice de suicídio nas regiões de baixo IDH do Nordeste e uma máquina corruptora de instituições e autoridades na região. Mais ainda: qual foi a solução encontrada com os trukás?</p>
<p>Não se ouviu uma linha das autoridades. Não se leu uma linha na imprensa.</p>
<h2>Entre os perenes e os temporários</h2>
<p><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto05.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1741" title="Foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto05-300x176.jpg" alt="Foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" width="300" height="176" /></a>A falência das instituições também teve sua fatia de responsabilidade quando outro ícone daquela região se foi.</p>
<p>O discurso ambiental e de demarcação de terras tornara-se o lugar comum nos debates sobre a transposição entre 2005 e 2007, embora a questão seja discutida desde muito antes, independente da idéia de transpor as águas do Velho Chico. A exemplo dos tantos prefeitos naquela época, os quais igualmente patinavam nas informações mais precisas sobre as obras, os índios agricultores replicavam o massivo discurso negativo.</p>
<p><span style="background-color: #ffffff;">Em 2008, um ano depois da mobilização contra o Exército, retornamos novamente a Cabrobó. Entretanto, agora com outra tarefa: saber mais sobre o assassinato em praça pública do índio truká Mozeni Araújo, 37 anos, uma das principais vozes políticas da cidade e talvez a liderança truká mais articulada e com mais conhecimento de causa para explicar o problema do tráfico de drogas e negociar concessões com o governo sobre as terras indígenas.</span></p>
<p>Então candidato a vereador, Mozeni foi morto em agosto de 2008 com tiros à queima-roupa em frente a seu comitê de campanha, na ocasião lotado de amigos e correligionários. O crime calou a cidade de Cabrobó e levou embora uma das poucas pessoas que, quando bem questionado, falava abertamente sobre as intenções e a histórica dificuldade de negociações entre índios e governo.</p>
<p>Mozani fora uma das vozes ativas contra o uso de fazendas e terras indígenas para o tráfico de drogas na região, justamente ali onde nasce o Eixo Norte da transposição. Assunto que curiosamente não consta em nenhuma pauta das informações divulgadas sobre as obras.</p>
<p>Mozani foi um dos poucos a abrir o jogo honestamente. Não se tratava apenas de meio ambiente ou de sobrevivência do rio, mas também de negociação e benesses mútuas. Se o governo cedesse a alguns anseios, entre eles uma boa indenização pelo uso daquelas terras (apesar da falta de escrituras) os trukás poderiam sentar à mesa e discutir, quem sabe até mesmo apoiar à transposição se entendessem que ela iria realmente beneficiar a população ribeirinha.</p>
<p>Em termos de negociação com governos, os trukás e tantas outras tribos brasileiras estão calejados de ouvir inúmeras promessas, ceder e esperar por algo que nunca se concretiza. Por outro lado, os trukás também são criticados por tribos diversas (e por vários burocratas em Brasília) porque, num contexto nacional, estão entre os índios que mais tiveram terras reconhecidas como deles, mais ganharam benesses de infraestrutura, se situando num ponto relativamente confortável em termos de organização e reconhecimento.</p>
<p>Para os trukás, a transposição do jeito que os emissários federais apresentavam era como uma segunda enganação. Como bem frisou o Cacique Neguinho &#8211; agora já sabendo que o jornalista de frente a ele era o mesmo de anos atrás, quando teve armas apontadas em sua direção por outros trukás &#8211; não havia motivos para confiar no discurso de Brasília.</p>
<p style="padding-left: 30px;"><em>&#8220;Já nos enganaram uma vez quando construíram a Barragem de Sobradinho, não vão nos enganar de novo. Tínhamos peixe em abundância que a natureza nos deu. Hoje, quem consegue pescar alguma coisa volta para casa agradecendo a Deus, porque neste rio daqui não há mais nada&#8221;, disparou.</em></p>
<p>Ali revelava-se, de modo sublime, o emaranhado político quando as obras sequer davam os primeiros passos no Lote 1 do Eixo Norte. Hoje, é curioso perceber como qualquer assunto relacionado aos conflitos paralelos à transposição não consta na agenda de divulgação, seja do governo federal ou dos governos locais. Assim como sai de cena, também, o conflito intermitente de conveniência com o tráfico e a latente carência social e política na região.</p>
<p>Acima dos conflitos e opiniões diversas, ainda resta uma dúvida sempre levantada e sempre respondida com pouquíssimos detalhes: depois de tudo pronto e concluído, qual será o papel dos grandes latifundiários em cujas terras, coincidentemente, passam os dois canais da transposição do São Francisco?</p>
<h2>Enquanto a água não vem</h2>
<p><a href="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto02.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-1743" title="Foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2009/11/foto02-300x199.jpg" alt="Foto: João Carlos Mazella / Ag. JCMazella" width="300" height="199" /></a>É muito fácil conhecer como funciona a política nos grotões do Brasil. Tirante as poucas exceções de praxe, você só precisa de dez minutos de conversa, com qualquer prefeito, para ter uma noção semi-exata do nível de qualificação e de consciência política deles.</p>
<p>Para quem conhece os dois lados da moeda, não difere muito dos corredores do Congresso Nacional em Brasília.</p>
<p>Não à toa, são os prefeitos desses municípios os maiores beneficiados políticos por todas as obras da transposição. Com a conclusão prevista (até agora) para 2012, cairá sob as mãos do poder executivo local (e dos orçamentos municipais) a tarefa de conduzir a gestão local do caminho do desenvolvimento prometido pela transposição.</p>
<p>É uma responsabilidade enorme e uma tarefa hercúlea a ser enfrentada pelos mandantes destes municípios ribeirinhos. Sozinhos eles não poderão fazer muito. Sem uma mobilização apartidária entre municípios, Estados e União, o sonhado caminho do desenvolvimento nordestino poderá ter que esperar outras tantas décadas a perder de vista.</p>
<p>Se lhe parece uma utopia, bem-vindo ao clube.</p>
<p>Ainda é preciso atentar a detalhes que talvez nem todos os prefeitos conheçam. Entre eles, um relatório de 2008 elaborado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) pelo qual constavam 400 obras inacabadas no Brasil no valor de R$ 3,5 bilhões. Destas, 130 eram executadas pelo governo federal e 270 por Estados e municípios, sempre com transferências federais de recursos. Todo o projeto de transposição do São Francisco, incluindo as obras de revitalização, totalizam algo em torno de R$ 6 bilhões, vale lembrar.</p>
<p>Em outubro de 2009, mesma época do périplo presidencial pelas obras da transposição, sai de Brasília outro relatório. Agora de atualização do Programa de Aceleração do Desenvolvimento (PAC) sob a bandeira do Ministério da Casa Civil, de Dilma Rousseff. Papelada amplamente divulgada e por onde se lê que das 2.392 ações previstas para o período 2007-2010, 39% estão concluídas, 52% em andamento, 7% em situação de atenção e 2% com ritmo preocupante. Dos R$ 646 bilhões previstos até 2010, 53,6% já foram aplicados.</p>
<p>Desta salada de números, interessa o detalhe: das ações citadas pelo relatório do PAC, não estão inclusas as obras de saneamento e habitação, que são justamente duas das principais molas condutoras do prometido desenvolvimento estrutural a partir da transposição do São Francisco.</p>
<p>Se uma ampla mobilização entre prefeitos não ganhar corpo, se ou quando a transposição estiver pronta, voltaremos à estaca zero daquele período 2005-2007 quando Estados nordestinos se posicionaram em clima de discórdia entre irmãos.</p>
<p>Se lhe parece uma utopia&#8230;</p>
<h2>Vizinhos entre rios</h2>
<p>Em Monteiro, no cariri paraibano, encontramos pessoas como o casal de agricultores Ailton e Silvia Tavares. À primeira vista, os Tavares poderiam ser considerados privilegiados por morar a poucos metros de um açude. Mas a água sempre foi tão poluída e barrenta que até os animais rejeitam.</p>
<p>Para a transposição, Monteiro é a cidade-ícone do Eixo Leste, equivalente a Cabrobó no Eixo Norte. Desde 2005, a esperança de uma melhora nas condições de vida para a população rural em Monteiro tem apenas um nome: transposição.</p>
<p>Em 2007 conversamos com Vlamir Bezerra Japyassu, 40 anos vividos no cariri, enquanto ele nos mostrava, animado, o local por onde irá passar o Eixo Leste.</p>
<p>Foi também ali, em Monteiro, onde em outra oportunidade encontramos o folclórico padre Djacy Brasileiro e sua folclórica Cruz de Latas simbolizando a seca no Nordeste e a necessidade da transposição.</p>
<p>Em outra oportunidade, durante uma manhã de discursos, com dedo em riste, rosto vermelho, suando em bicas e aos berros, lá está o Ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, pedindo que a população &#8220;não o confundisse com algumas lideranças políticas&#8221; da Bahia, seu Estado de origem, que se colocavam contra a transposição &#8220;para barganhar com o governo federal&#8221;, segundo suas próprias palavras.</p>
<p>Geddel garantiu que, diferentemente do que dizem os oposicionistas ao projeto, o benefício primário da transposição será matar a sede dos nordestinos, não será apenas o agronegócio.</p>
<p>É o que 13 milhões de nordestinos esperam. Há pelo menos um século.</p>
<p>Juntou-se ao coro o governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima, e o &#8220;líder&#8221; religioso da região, Dom Aldo Pagotto, uma espécie de antípoda de Dom Luiz Cappio, falando das benesses da transposição para seu rebanho.</p>
<p>Outubro de 2009, caravana de Lula, Dom Cappio não estava presente. Exatamente ali no município de Barra, Lula discursou ao lado de Dilma Rousseff, Geddel e do governador da Bahia, Jaques Wagner. Novos tempos?</p>
<p>Faltou alguém para perguntar a Geddel se ele chamaria Dom Cappio de &#8220;inimigo número 1 da democracia&#8221;, conforme consta em artigo escrito por ele e publicado na Folha de S. Paulo no dia 12 de dezembro de 2007, em virtude da segunda greve de fome do bispo.</p>
<p>Ninguém perguntou.</p>
<p>Enquanto isso, a 50 km de Juazeiro (Bahia), na Barragem de Sobradinho, o mundo de água do São Francisco assusta a quem chega. O rio parece um mar, não tem fim. E a apenas um quilômetro da hidrelétrica, as terras são secas e rochosas, bem piores do que em Cabrobó.</p>
<p>De um lado da rodovia, pequenos agricultores suam para plantar qualquer coisa e ter o alimento diário. Do outro, grandes fazendas denotam o poderio financeiro para trabalhar com fruticultura irrigada e gerar milhões de reais na exportação de frutas.</p>
<p>Se a transposição do rio São Francisco irá contribuir para diminuir contrastes seculares como esse, resta-nos apenas refletir sobre a máxima de Seu Valdemar e a subsequente conclusão: um ato de grande ingenuidade ou de grande sabedoria.</p>
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		<title>Índio candidato a vereador foi morto por traficantes</title>
		<link>http://www.rebelox.com/2008/11/indio-candidato-a-vereador-foi-morto-por-traficantes/</link>
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		<pubDate>Thu, 27 Nov 2008 16:10:36 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[CABROBÓ // Mozeni Araújo era contra o uso de terras indígenas para plantio de maconha Paulo Rebêlo Diario de Pernambuco 27.novembro.2008 O crime que calou a cidade de Cabrobó, no Sertão do Estado, o assassinato à queima-roupa do índio truká Mozeni Araújo em agosto deste ano acaba de ter seu desfecho revelado pela Polícia Civil. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2008/11/flip101.jpg" align="right" title="" width="200" height="242" border="0" hspace="5" vspace="5"/><i>CABROBÓ // Mozeni Araújo era contra o uso de terras indígenas para plantio de maconha</i></p>
<p><b>Paulo Rebêlo<br />
Diario de Pernambuco</b><br />
27.novembro.2008</p>
<p>O crime que calou a cidade de Cabrobó, no Sertão do Estado, o assassinato à queima-roupa do índio truká Mozeni Araújo em agosto deste ano acaba de ter seu desfecho revelado pela Polícia Civil. De acordo com o relatório apresentado ontem, o tráfico de drogas foi a real motivação. Mozeni e outras lideranças dos trukás eram contra o uso de terras indígenas para o tráfico, mas ainda hoje a tribo enfrenta resistência interna sobre a questão.</p>
<p><span id="more-933"></span>O autor dos disparos, Maurício Ricardo Alexandre Silva, foi preso logo após o crime. Mas as contradições levaram a polícia a abrir uma nova investigação. A delegada Dilma Tenório apresentou quatro envolvidos na morte de Mozeni, então candidato a vereador pelo PT e uma das principais lideranças de Cabrobó, a 600 km do Recife. </p>
<p>Maurício Ricardo Alexandre da Silva (Amauri), Antonio Gonçalves da Silva (Tonho de Binega), João Paulo dos Santos (Joãozinho de Ana) Filho e Nelson Antônio de Souza (Nelson Preto) são os acusados de orquestrar o assassinato. Os quatro são envolvidos com outros crimes e procurados pela Justiça em Pernambuco e na Bahia. </p>
<p>De acordo com o relatório da Polícia Civil, um dos integrantes do grupo, Jociel Jacinto (Calango) possui um verdadeiro arsenal de guerra com metralhadoras e fuzis. Joãozinho de Ana também é índio truká e, segundo o relatório policial, cultiva plantação de maconha e faz parte do bando liderado por Tonho de Binega.</p>
<p>Ainda segundo a investigação policial, Tonho de Binega e Joãozinho de Ana perderam duas roças de maconha em janeiro de 2007 e acreditam que foram denunciados (&#8220;caboetados&#8221;) por Mozeni Araújo e Chico Truká. Em fevereiro, o próprio Mozeni havia sofrido um atentado, sem sucesso. A polícia diz que Joãozinho de Ana chegou a ser preso por outros delitos, mas foi solto 18 dias antes de articular com os comparsas o crime que culminou na morte de Mozeni Araújo.</p>
<p>A ascensão política de Mozeni era vista como uma perigosa ameaça aos interesses do tráfico. O medo impera na população em Cabrobó, considerada um dos principais pólos do tráfico em Pernambuco. Há anos que traficantes se aproveitam das terras demarcadas pelos trukás para o cultivo da erva. Investigações da Polícia Federal já chegaram a apontar a participação até mesmo do Comando Vermelho do Rio de Janeiro. </p>
<p>A Ilha de Assunção dos índios trukás é considerada valiosa por vários motivos. Entre os quais, a privilegiada posição geográfica (limítrofe com a Bahia), a dificuldade de acesso por via terrestre e o fato de a polícia não poder entrar em território indígena sem autorização expressa da Funai. Mozeni foi morto às 17h30 em frente ao seu comitê, no dia 23 de agosto, durante evento de uma festejada campanha na cidade.</p>
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		<title>São Francisco // Ribeirinhos alheios à transposição</title>
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		<pubDate>Mon, 28 Apr 2008 11:37:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[RECURSOS HÍDRICOS // População que vive às margens do São Francisco não aceita os argumentos sobre prejuízos e benefícios Paulo Rebêlo Diario de Pernambuco &#8211; 27.abr.2008 fotos: João Carlos Mazella Outrora conhecido como o maior centro de distribuição do chamado Polígono da Maconha, que produz e exporta a droga para vários pontos da região, hoje [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2008/04/flip11.jpg" title="" width="304" height="530" border="0" hspace="4" vspace="2"/><i>RECURSOS HÍDRICOS // População que vive às margens do São Francisco não aceita os argumentos sobre prejuízos e benefícios</i></p>
<p>Paulo Rebêlo<br />
Diario de Pernambuco &#8211; 27.abr.2008<br />
<em>fotos: João Carlos Mazella</em></p>
<p>Outrora conhecido como o maior centro de distribuição do chamado Polígono da Maconha, que produz e exporta a droga para vários pontos da região, hoje o município de Cabrobó, com apenas 28 mil habitantes, é um dos principais entraves para o governo federal no ambicioso projeto de transposição do Rio São Francisco. Inicialmente previsto para terminar em 2010, o empreendimento promete levar água para áreas menos favorecidas do Nordeste Setentrional e, segundo promessas oficiais, beneficiar 12 milhões de pessoas e gerar oportunidades para agricultura familiar e o agronegócio.</p>
<p>Não obstante a bandeira social de levar água a quem tem sede, passados três anos desde a licença prévia concedida pelo Ibama em abril de 2005, a transposição conseguiu um feito que dificilmente alguém imaginaria e, ainda hoje, é pouco explorado por estudiosos e governos: o conflito entre irmãos. Ponto nevrálgico entre os sertanejos, a esperança por água tornou-se alicerce de uma discórdia que não escolhe classe social, raça, profissão, ideologia e até religião.<br />
<span id="more-570"></span><br />
Se de um lado os pesquisadores, cientistas, técnicos e políticos trocam farpas e não se entendem sobre os prejuízos e benefícios da proposta, do outro são os próprios sertanejos que não aceitam os argumentos mútuos e a forma como o debate tem sido conduzido. Enquanto a maior parcela dos moradores nos 2.800 km de extensão do Velho Chico desconhece os meandros técnicos da transposição, outra parte não aceita que esses mesmos ribeirinhos, que moram e se beneficiam de &#8220;tanta água&#8221;, se posicionem contra a proposta de levar água às regiões onde há escassez aguda e, teoricamente, garantir uma maior segurança hídrica. Como é o caso de Monteiro, na Paraíba.</p>
<p>Cabrobó tornou-se uma das artérias da transposição, não apenas pela resistência dos índios trukás e dos movimentos sociais contra o projeto, mas por ser o ponto inicial do Eixo Norte, que irá fazer a conexão hídrica entre Pernambuco e Ceará. O segundo Eixo (Leste), cujo canal começa em Floresta (PE), deve retirar água da barragem de Itaparica na Bahia e levar até a cidade de Monteiro, no cariri paraibano. As seis horas de estrada do Recife até o início do eixo norte não significa quase nada, ao calcular os 2.800 km de extensão do rio, cuja nascente se encontra na Serra da Canastra, em Minas Gerais.</p>
<p>Em seu percurso completo, o São Francisco corta 504 municípios e a população ribeirinha ultrapassa a marca de 13 milhões de pessoas. Seja na Bahia, em Pernambuco, Paraíba ou Ceará, naquelas terras áridas onde os galhos se quebram sozinhos, o chão racha de tão seco e a palma de cacto continua a servir de refeição para muita gente nos piores momentos de seca, perguntar a qualquer pessoa se ela é contra ou a favor da transposição é quase igual a perguntar por qual time de futebol ela torce. As informações são desencontradas. A maioria desconhece o que se pretende fazer, ao mesmo tempo em que replicam e multiplicam os discursos orientados por lideranças políticas ou comunitárias, nem sempre comungando de interesses coletivos.</p>
<p><b>Sobrevivência -</b> De concreto, o que os ribeirinhos sabem e entendem melhor do que qualquer técnico de ministério ou liderança política é a difícil arte de sobreviver do rio, pelo rio e para o rio. Em algumas regiões, a água que se bebeu diretamente das margens do Velho Chico, durante décadas, hoje é tão poluída que até para cozinhar não serve mais. Em outras, a abundância de peixes que alimentou gerações inteiras também cessou, dando espaço a minguadas refeições de arroz, ovos e farinha. O rio está morrendo, dizem os índios. O rio vai morrer com a transposição, profetizam os ambientalistas. O rio representa a integração nacional, bradam os pesquisadores. O rio é a redenção do Nordeste, discursa o governo. O rio são eles, espalhados pelos 2.800 km entre a fome a fartura. </p>
<p><b><font color="#FF0000" size="3">Proposta concreta ou promessa?</font></b></p>
<p><img src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2008/04/dsc02497.jpg" title="" width="320" height="214" border="0" hspace="4" vspace="2"/>Tornou-se praxe afirmar que a transposição do rio São Francisco é um sonho que data do Império e, agora, pode se transformar na redenção do Nordeste. Pouco se discute, contudo, sobre a crueldade imposta pela seca desde tempos imemoriais, assim como as promessas eleitorais de pôr fim ao martírio. Seria a transposição o início de um desenvolvimento concreto ou mais uma das promessas? </p>
<p>Para as lideranças da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o custo da transposição (R$ 4,9 bilhões) é um despejo de dinheiro público desnecessário. Roberto Malvezzi mantém um discurso similar ao do bispo de Barra (BA), dom Luiz Cappio, o religioso que optou por duas greves de fome como forma de protesto contra a transposição. Para eles, os maiores beneficiados serão fazendeiros que lidam com fruticultura, carcinicultura e outras atividades que demandam muita água. </p>
<p>&#8220;O argumento de matar a sede é uma falácia, o governo conquista pelo tom emotivo. Não somos contra o desenvolvimento econômico, mas é preciso estabelecer prioridades parabenefício humano. Todo mundo sabe da existência da indústria da seca, é como se ganha voto no sertão, não vai mudar nada&#8221;, contesta Malvezzi, ao contabilizar quase 500 alternativas viáveis elaboradas pela ANA (Agência Nacional de Águas), com metade dos recursos.</p>
<p>Valdemar Bezerra Luna, agricultor que criou duas gerações da família às margens do São Francisco em Pernambuco, mostra o resultado de anos de sofrimento pelo qual o rio tem passado: o hipoclorito de sódio, utilizado pela indústria como desinfetante e alvejante, hoje é a única saída para quem usa a água do rio para beber, cozinhar e alimentar os animais. A solução é entregue pelo Ministério da Saúde, mas a demanda supera a oferta. Resultado: muitos com ameba e outros problemas de saúde.</p>
<p><b><font color="#FF0000" size="3">Paraibanos sonham com obra</font></b></p>
<p><img src="http://www.rebelox.com/wp-content/uploads/2008/04/dsc02615.jpg" title="" width="320" height="214" border="0" hspace="4" vspace="2"/>Em outra ponta da polêmica, no destino final do Eixo Leste, a esperança por uma vida melhor em Monteiro (PB) atende por um nome só: transposição. Os olhos dos agricultores parecem brilhar a cada nova notícia para que as obras sejam aceleradas. Vlamir Japyassu, Silvia Tavares e seu marido, Airton, dizem em coro: &#8220;a gente não quer dinheiro, só quer água para plantar, comer, produzir&#8221;. Se por convicções ideológicas ou por meio de lideranças políticas, quase todos em Monteiro não agüentam sequer ouvir sobre índios trukás, que prometem não deixar o governo completar o canal em Cabrobó. Alegam que as construções estão em terras indígenas e que não foram indenizados, nem consultados. As terras sequer foram demarcadas, mas o governo já indenizou os donos que possuíam as escrituras.</p>
<p>A exemplo dos trukás, a tribo dos tumbalalás, no lado baiano do São Francisco, também se movimenta contra as obras. Ambas as tribos admitem que podem repensar suas posições caso o governo resolva reestabelecer o diálogo sobre a demarcação.&#8221;As terras são nossas&#8221;, não cansa de repetir o cacique Neguinho, líder truká. De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a questão vem sendo postergada há vários governos.</p>
<p>A ausência de termos conclusivos sobre a posse das terras por onde passam os canais da transposição pode gerar um atrito ainda maior e violento. Em Pedra Branca (BA), os moradores denunciam que as tribos indígenas estão invadindo propriedades privadas sob o argumento de que as terras são deles. Muita gente desistiu de tentar reaver as propriedades após o bloqueio dos índios. Rosilda dos Santos é uma das que teme pela perda das propriedades herdadas dos familiares. &#8220;Somos os donos legais. Nossas escrituras não valem mais nada?&#8221;, questiona. </p>
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		<title>São Francisco se transforma no rio da discórdia</title>
		<link>http://www.rebelox.com/2007/12/sao-francisco-se-transforma-no-rio-da-discordia/</link>
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		<pubDate>Thu, 27 Dec 2007 13:32:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>rebêlo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Projeto de transpor as águas coloca em lados opostos ribeirinhos e sertanejos Paulo Rebêlo Folha de S. Paulo &#124; 26/dez/2007 link O chão é árido a ponto de rachar. Os galhos quebram com facilidade de tão secos. Açudes e palmas de cactos que servem como alimento de animais -e até de seres humanos- também secam. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Projeto de transpor as águas coloca em lados opostos ribeirinhos e sertanejos</em></p>
<p>Paulo Rebêlo<br />
Folha de S. Paulo | 26/dez/2007<br />
<a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2612200708.htm">link</a></p>
<p>O chão é árido a ponto de rachar. Os galhos quebram com facilidade de tão secos. Açudes e palmas de cactos que servem como alimento de animais -e até de seres humanos- também secam. Se vivo estivesse, Graciliano Ramos certamente diria que as vidas nunca deixaram de ser secas. Ele só não saberia explicar como pode haver tanta água a poucos quilômetros de um cenário tão ríspido.</p>
<p>Às margens do rio São Francisco, o agricultor Valdemar Bezerra Luna criou filhos e netos nessa região longe de grandes cidades e carente de infra-estrutura. Afinal, dos 84 anos 54 foram à beira do rio no sertão pernambucano. Depois de tanto tempo, ele garante que sua própria existência tornou-se uma extensão do rio, com benesses desde a água para consumo até a manutenção de uma pequena roça com a qual alimenta a família. A vida de seu Valdemar não é muito diferente da de milhares de famílias às margens do gigantesco rio com 2.863 km de extensão, cuja nascente fica na Serra da Canastra (MG). As turvas águas da bacia hidrográfica do São Francisco percorrem 504 municípios, com população ribeirinha que ultrapassa os 13 milhões.</p>
<p><span id="more-2220"></span></p>
<p>Seu Valdemar anda curioso com as conversas dos amigos sobre o tal projeto do governo de levar &#8220;um pouco d&#8217;água&#8221; para outros Estados do Nordeste. Alheio à polêmica, ele duvida de que o rio será prejudicado como tanto falam. &#8220;Estamos nos alimentando do rio e até hoje não nos faltou, acho que se tirar um pouquinho e levar para quem também precisa não vai fazer mal&#8221;, pondera. Nostálgico, lembra os bons tempos de um vigoroso Velho Chico, bem diferente da condição precária de hoje, sem peixes e com água impossível de beber sem o uso controlado de remédios, como o hipoclorito de sódio, por conta da poluição.</p>
<p>Pelas letras oficiais, o projeto de transpor as águas do rio São Francisco para abastecer partes do semi-árido nordestino coloca em lados opostos governo, comunidade científica, ambientalistas, movimentos sociais e religiosos. O ponto comum que une os sertanejos -a esperança da água- tornou-se alicerce de uma discórdia entre irmãos. Negros, índios, brancos, ricos, pobres, agricultores, famílias inteiras. Acostumados à crueldade imposta pelas secas desde tempos imemoriais, agora falam em crueldade nos Estados vizinhos e dos técnicos do governo que não querem explicar o que vai acontecer com o rio. Conhecido como rio da integração nacional, hoje o São Francisco torna-se o rio da discórdia ao colocar em pé de guerra paraibanos, pernambucanos, baianos, sergipanos, cearenses e mineiros.</p>
<p>Não obstante a poluição, a vida às margens do São Francisco não é tão ríspida quanto em outras locações sertanejas, como ocorre com o casal de agricultores Ailton e Silvia Tavares, em Monteiro (PB). No centro de uma região seca e rochosa, à primeira vista os Tavares são privilegiados, pois moram a poucos metros de um açude. Mas a água é tão poluída e barrenta que até os animais rejeitam. E na região do Cariri paraibano, a dificuldade de conseguir o hipoclorito de sódio é notória, já que o produto é distribuído pelo Ministério da Saúde -de acordo com a população local, está constantemente em falta. As pessoas estão sempre doentes com ameba, principalmente crianças.</p>
<p>A esperança da população rural de Monteiro atende por um nome: transposição. O agricultor Vlamir Bezerra Japyassu, 40, resume a espera ao repetir que &#8220;não quer dinheiro, quer apenas água&#8221;. Para plantar, produzir, comer e vender. Sem água, garante, tudo morre. Eles também. Silvia Tavares tem uma fé quase cega de que, com a transposição, os piores problemas acabam. &#8220;Quem tem em abundância não sabe o que é beber um copo de líquido barrento para sobreviver.&#8221;</p>
<p>Em matéria de sobrevivência pelo rio, poucos têm mais autoridade do que os índios trucás nos arredores de Cabrobó, de volta a Pernambuco, onde a primeira etapa da gigantesca obra da transposição tem início. Saindo do Recife, são seis horas de estrada até este pequeno município de 28 mil habitantes. Os trucás são os maiores produtores de arroz em Pernambuco e também abastecem várias cidades da região com feijão e cebola. A tarde já começa a cair e, para chegar ao início das obras da transposição, é preciso percorrer mais 40 minutos entre rodovia e estrada de terra. A porteira de acesso ao primeiro canal do eixo Norte, previsto para ligar Pernambuco ao Ceará, está fechada. A entrada é proibida. E, para desespero da população que espera receber água da transposição, as obras estão paradas novamente.</p>
<p>Com auxílio dos índios, é preciso ir de canoa a um caminho alternativo, por onde o Exército não irá ver nossa chegada ao local onde estão as primeiras escavações. Os trucás reafirmam que ali naquela terra não vão deixar o governo construir nada, pois a terra é deles. Não cansam de repetir que, pela Constituição, não é permitido construir nada em território indígena sem a permissão dos índios. Segundo o cacique Neguinho, líder do movimento trucá de oposição às obras, não houve nem sequer diálogo para atender às reivindicações da tribo. </p>
<p>Em conjunto com a tribo dos tumbalalás, do outro lado do rio, já na Bahia, as lideranças indígenas argumentam que o São Francisco está morrendo e o governo nunca se prontificou a revitalizar a bacia, prejudicando toda a população ribeirinha. E agora, com a transposição, ambas as tribos acreditam ser a oportunidade de ouro para levantar a bandeira histórica da demarcação de terras. &#8220;Já nos enganaram uma vez quando construíram a barragem de Sobradinho, todo mundo tinha peixe em abundância e, agora, quem consegue pescar é um sortudo. Não há mais nada. Não vão nos enganar novamente&#8221;, afirma Neguinho.</p>
<p>Enquanto isso, na região que espera a chegada das águas do São Francisco pela transposição, as obras são aguardadas como salvadoras de tempos secos e água escassa. No Cariri paraibano, a população não quer nem ouvir falar o nome dos trucás. Teoricamente, a área poderá ser uma das principais beneficiadas.</p>
<p><strong>Projeto de transposição das águas remonta ao Império</strong> </p>
<p>A transposição do São Francisco é um &#8220;sonho&#8221; que data do Império. Sob a gestão de Lula, novamente levantou-se a bandeira do desenvolvimento do Nordeste a partir das águas do rio para programas de irrigação e abastecimento humano. Comandada pelo Ministério da Integração Nacional, a previsão oficial é usar 2% do volume total de água, com vazão mínima de 26 m3/s e máxima de 127 m3/s. São dois gigantescos canais construídos no coração do sertão. O eixo Norte liga Pernambuco ao Ceará; e o eixo Leste, cujo canal tem início em Floresta (PE), deve retirar água da barragem de Itaparica na Bahia e levar até a Paraíba.</p>
<p>Em abril de 2005, o Ibama concedeu licença prévia para o início das obras. Hoje, quase três anos depois, o cenário pouco mudou. O coordenador da Transposição no Ministério da Integração Nacional, Rômulo Macedo, afirma que respeita a reivindicação dos índios trucás para que o governo demarque as terras, mas não entende a insatisfação da tribo. &#8220;Eles [os trucás] são os maiores beneficiados com a transposição. Na ilha de Assunção, onde moram, a pista era toda de barro e hoje está com estrada. Construímos casas que antes não existiam, há o projeto paralelo de revitalização da bacia hidrográfica pelo qual estão tendo saneamento básico, que sempre foi uma demanda antiga&#8221;, enumera. &#8220;Se todas as tribos disserem que a terra é deles sem comprovação, então não vai sobrar mais nada no Brasil&#8221;, ironiza.</p>
<p>O coordenador do escritório da Transposição em Monteiro (PB), Lusbene Cavalcanti Júnior, classifica como &#8220;impropérios&#8221; as argumentações contrárias à transposição. &#8220;Esse pessoal não sabe o que é beber água barrenta, amarela, não conhece a realidade do sertão.&#8221; Lusbene cita um dos pilares mais fortes de quem defende o projeto: a evaporação. &#8220;Sem a adução que a transposição irá trazer, o sol leva boa parte da água nos açudes, é uma maldade completa.&#8221; </p>
<p>Para as lideranças da CPT (Comissão Pastoral da Terra) no Nordeste, o custo da transposição é um despejo de dinheiro público perigoso e desnecessário. Roberto Malvezzi, da CPT em Juazeiro (BA), diz ser perigoso porque os maiores beneficiados serão fazendeiros que lidam com fruticultura irrigada, carcinicultura (criação de crustáceos) e outras atividades com demanda de alto volume de água. &#8220;O argumento de matar a sede é falacioso, mas conquista o público leigo pelo tom emotivo. Não somos contra o desenvolvimento econômico, como dizem os pró-transposição; mas é preciso estabelecer prioridades. Recursos públicos devem ser usados para benefício humano, não para um punhado de gente com grandes empreendimentos econômicos. Todo mundo sabe da existência da indústria da seca, é como se ganha voto no sertão, não vai mudar nada&#8221;, contesta Malvezzi, ao contabilizar quase 500 alternativas viáveis elaboradas pela ANA (Agência Nacional das Águas), órgão do próprio governo, custando metade do valor calculado pela transposição para resolver o problema.</p>
<p>O diretor de engenharia e construção da Chesf (Companhia Hidroelétrica do São Francisco), José Ailton de Lima, explica que inicialmente o órgão foi contra as obras porque poderia perder volume de água para geração de energia nas hidrelétricas, mas hoje os técnicos entendem que a relação custo-benefício vale a pena. &#8220;O melhor de todo o projeto é a geração de segurança hídrica para a região, pois antigamente acreditava-se que apenas açudes resolviam o problema, hoje o cenário é outro. Só o desperdício com a evaporação é maior do que todo o volume de água que a transposição pode tirar do rio. No Nordeste, essa perda (por evaporação) chega a 17% da água acumulada em açudes. Pior, hoje o governo não tem controle sobre as águas, tem açude público sendo controlado por aglomerados econômicos ou grupos de fazendeiros, sem fiscalização ou regularização alguma&#8221;, afirma.</p>
<p><strong>Moradores acusam índio de tomar terras</strong></p>
<p>Ao atravessar o São Francisco pelo lado pernambucano, na outra margem a população do povoado de Pedra Branca (BA), está com medo dos índios. Ao perceberem a movimentação da reportagem no caminho da tribo dos tumbalalás, o povoado pede que alguém dê ouvidos para os &#8220;brancos&#8221; que não têm representação nos corredores do poder. Os moradores acusam os índios de olhar apenas para o lado deles, aparecendo do nada com o debate da transposição para reivindicar terras que não são deles. Formada em geografia pela Cesvasf de Belém do São Francisco, Rosilda Orcelina dos Santos, 35, teme pela perda das terras deixadas por herança de familiares.</p>
<p>Posição idêntica tem o agricultor José Hipólito da Cruz, a técnica em contabilidade Poliana Alves Santos, a aposentada Maria Nicanor Sares de Araújo e tantos outros. &#8220;Para defender os índios sempre aparece um monte de gente, padre, autoridade&#8230; mas e nós?&#8221;, indaga Maria. Nos dias em que a reportagem esteve lá, os tumbalalás bloquearam. Eles explicam que não são numerosos como os trucás, mas vão aproveitar a transposição para exigir a delimitação das terras. Questionados sobre as críticas, ambas as tribos garantem que estão lutando pelo que é deles &#8220;de direito&#8221;.</p>
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