Perdido na noite

Paulo Rebêlo // maio.2004

É incrível como todo mundo quer se dar bem no sábado à noite. Coisa meio sobrenatural. Não importa o lugar ou a pessoa. Tem gente que passa horas dançando na boate e não admite voltar para casa sem conseguir ao menos uma beiçada. Quando não consegue, é quase como ter perdido o final de semana inteiro. Um dia eu hei de abrir um motel. Só vai funcionar entre 21h do sábado e 10h do domingo. O nome do distinto estabelecimento será: ‘Chalés Furunfais do Super Ranzinza’ - abrimos somente aos sábados, não insista. Todo o dinheiro arrecadado será investido na aquisição de micro-câmeras disfarçadas de luz negra.


:: NEUROSE COLETIVA ::

É difícil superar a neurose do sábado à noite. Você precisa de muita rabugice, aliada a anos e anos de mentalização (e alcoolização) para aprender a ignorar a histeria das pessoas de que ficar em casa sábado à noite é doença.

Deveria dar palestras: ‘como superar a noite do sábado’. Não é difícil. É só começar a beber antes do almoço e, de noite, você já cai na cama feito cimento e acorda no outro dia numa boa. Não precisam agradecer, a fórmula é grátis.

O problema é que às vezes a porca torce o rabo, a cobra fuma charuto e tudo dá zebra. Tem sábado que nem o excesso de rabugice com as sobras da cerveja do dia anterior surtem resultados. Quem surta é a gente.

O entrave do sábado à noite é perceber a falta de companheiros papudinhos disponíveis para tomar uma mísera grade de cerveja, sem a neura reincidente de estar ao lado de alguém do sexo oposto.

Os enamorados vão namorar; os esquematizados vão furunfar; os casados não podem sair; e 99% dos solteiros vão à caça. Boates, pubs, bares da moda… qualquer lugar de azaração. Não precisa ir longe para observar. Nunca se vê um lugar de azaração sem estar lotado. É um verdadeiro açougue.

Outra alternativa é sair para beber sozinho, de praxe. No entanto, levando em consideração que o sábado em questão é o sábado em que você surtou e precisa de qualquer espantalho para azucrinar a paciência, beber sozinho deixa de ser uma opção.

Difícil escolher o pior: chegar no bar e se deparar com um bando de casais; ou perceber que os não-casais estão ali pelo mesmo motivo - que não é tomar um simples caju-amigo, mas sim brincar de esconde-esconde.

DA RÚSSIA, SÓ VODKA -

Você lembra que esta semana conseguiu pagar a conta do telefone e, antes que cortem novamente, é melhor colocar o aparelho em uso para algo mais útil do que enviar crônica por e-mail pela internet.

Após algumas tentativas de convocar os papudinhos, todas recusadas evidentemente, você apela para a velha agenda vermelha - a cor do sinal fechado - contendo os poucos telefones de ex-namoradas, ex-casos, ex-amizades coloridas e outras dores de cabeça.

Quem sabe alguma delas não tenha levado um choque de 10 mil volts nos últimos anos e resolva acreditar que você quer apenas tomar uma mísera grade de cerveja e falar sobre amenidades inteligíveis.

Com a agenda em mãos, é hora de riscar aquelas as quais você sabe que irão gentilmente bater o telefone na sua cara. Como não sobrou nenhuma, o jeito é fazer roleta russa.

Tentativa 1:
– Alô, Fulana. Aqui é o Super!
– Quem ???
– Super! O Super Ranzinza!
– Ah… Diz, Super. Fala logo que estou apressada, minha amiga tá passando aqui para a gente ir procurar namorado. Namorado sério, sabe? N-A-M-O-R-A-D-O, coisa que você não sabe o que é.
– Não precisa procurar tanto, ele está de paletó e gravata te esperando na padaria.
– Tchau, Super! Ah, e não esquece de fazer aquele favor que pedi a você faz é tempo!
– Qual?
– VAI TE CATAR !!!

Tentativa 2
– Oi, Filó. Aqui é o Super. Cervejinha hoje?
– Claro! Estou indo com a Sicrana, a Beltrana, duas irmãs e três primas para a boate, estão todas solteiras e eu falei super bem de você, vem com a gente!
– Odeio boate.
– Então vamos para aquele bar novo que abriu na frente da praia!
– Odeio bar novo.
– Pô, deixa de ser chato, quer ir para onde?
– Não sou chato, sou seletivo. Vamos para aquele boteco que…
– Não! Esses botecos que você leva a gente só tem papudinhos, velhos, barrigudos e homens feios!
– Não fale assim de meus camaradas.
– Hoje é sábado, a gente quer se dar bem!
– Tem todos os dias para se dar bem, por que essa neura do sábado?
– Porque é quando todo mundo quer o mesmo!
– Vocês parecem adolescentes…
– E você parece um velho rabugento, sempre me irrita!
– Você que começou.
– !)$%!&&! @#!&$@!$& !!!!
– Vou nessa, antes que você morda o telefone.

Tentativa 3:
– Diz, Ambrósia, vais fazer o quê hoje…
– Superrrrr, que saudadessssss! Vamos para a boate com a gente, eu arrumo um monte de gatinhas para você agarrar!
– Desculpe, número errado.

Tentativa 4:
– Oi, Jurubeba. Daqui a pouco seu marido vai sair com a outra e você vai ficar mofando em casa. Vamos tomar uma cerveja?
– Sim, sim. Chego na sua casa de que horas, Super?
– Tá surda? Eu disse ‘tomar uma cerveja’. Em algum boteco. A gente afoga as mágoas, xinga a sociedade e abre uma seita, para no outro dia não lembrar mais de nada. Bora?
– Qual é, Super… não podemos afogar outras coisas também?
– A gente nunca pode sair para tomar uma cerveja, criatura?
– Pode, mas hoje é sábado!
– Acabaram de cortar a linha do telefone, tchau.

Tentativa 5:
– Oi, Cremilda. Vamos tomar um caju-amigo?
– Posso não, estou de namorado agora.
– Estou chamando para beber, não para *****. Leva teu macho também.
– Claro que não!
– Não temos mais nada há muito tempo e hoje meu fígado quer exclusividade. É só uma cerveja, para o sábado não passar em branco.
– Eu não consigo tomar apenas uma cerveja com você.
– Deixa de tua frescura.
– Vou dizer a ele que estou com dor de cabeça e…
– Olha, para agüentar teus piripaques esse cara deve ser muito gente boa. Leve ele e conversamos os três, prometo não cadastrar o cidadão na lista de crônicas.
– Depois vou querer que ele me deixe em casa e correr para a sua.
– tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu

E nesse momento, você desiste da roleta russa. Percebe que não falta muito para o sábado acabar. Basta um pouco de paciência. Melhor ainda, sábado é o dia em que os nerds do prédio da frente costumam jogar xadrez na rua. Eles adoram quando você vai. Afinal, ninguém do bairro consegue perder tanto.

– Chegou o Tio Super!
– Quem é o pato que eu vou ensinar a jogar hoje?
– Tio, joga aqui com o Sicraninho, meu irmão caçula de 13 anos. Horas depois, lá pela quinta partida (cinco derrotas), o celular toca:
– Diz, Super. Vamos tomar um caju-amigo agora?
– Ué, cadê sua namorada?
– Acho que está na TPM, quis voltar para casa sem mais nem menos.
– Voltava com ela, oras.
– Ela queria ficar sozinha com a irmã assistindo O Diário de Bridget Jones. Em pleno sábado à noite, pode?
– E claro que você acreditou…
– E a gente tem opção, ó sábio guru?
– Tem não, realmente. Mas cadê teu esquema de furunfada?
– Tá com o namorado dela. Hoje é sábado, esqueceu?
– Quase esquecia… mas eu me referia ao outro esquema, aquela que parece uma Scania.
– Pombas, diz logo se vai beber ou não, ora bolas!
– Tô chegando lá no boteco em 15 minutos, não demore !!!!!!

Xeque-mate.

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