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Uma noite no supermercado
Jun 13th, 2009 by Paulo Rebêlo

A primeira vez que entrei em um supermercado, sem precisar dar satisfação a ninguém, foi quase como ver aberta as portas do paraíso. Naquele instante, nem o céu islâmico com 76 virgens me pareceu tão interessante quanto aquele carrinho de compras e meu talão de cheques novinho, zero bala.

Se naquela época achar uma virgem já era impossível, imagine 76 delas de uma vez só. Alá seja louvado, mas ficou para próxima.

Quando criança, supermercado costumava ser um dos meus passeios preferidos. Eu via aquela enorme variedade de guloseimas e tinha vontade de colocar tudo para dentro do carrinho —  em casa poderia experimentar novidade por novidade e depois fazer anotações.

Como criança não manda(va) em nada, a única coisa que eu podia fazer era pedir vários iogurtes Chambourcy e doces diferentes, torcendo para que me comprassem ao menos um Chokito – o qual geralmente eu comia ali mesmo na fila do caixa. Nunca entendia como o paraíso acabava tão rápido.

A cada visita ao supermercado, impressionava o número de novidades não vistas na visita anterior. Mas a maior parte do passeio, e eu nunca entendia a razão, era naqueles corredores onde tudo é sempre igual. As frutas são as mesmas, as verduras também. A carne tinha umas diferenças, mas não adiantava porque a gente terminava levando só aquelas de promoção.

Eu perdia o sono sem entender porque a gente sempre tinha de comprar arroz, feijão e coxa de galinha se o supermercado oferecia milhares de outras coisas tão melhores, principalmente quando lançaram o tal do Lollo e meu reinado do Chokito ficou para trás. Meu sonho era ter uma caixa de Lollo só para mim. Vinha com cinco chocolates. E ainda dava para guardar aquela caixa azul com a vaquinha, servia para guardar bagulhos ou até mesmo chocolates de outras marcas.

Maravilhas assim eu não encontrava em nenhum outro lugar. Era exclusividade dali, quase como uma oferenda dos deuses da alta gastronomia naquele templo sagrado chamado supermercado.

Certo dia, fiz a proposta. Ao menos uma única vez a gente não compraria feijão. Trocaríamos por biscoitos e Chandelle. Fui voto vencido, mesmo calculando os preços para que a alternativa não saísse mais cara do que o habitual feijão com arroz. Foi quando comecei a desistir da matemática na minha vida. Na minha cabeça, se você vai fazer compras no supermercado que oferece 500 produtos diferentes, é matematicamente desumano você comprar apenas os mesmos cinco produtos toda vez.

O ASSALTO –

© rebelo.orgJá adolescente e de posse da lista de compras de casa, meu problema foi ver todas aquelas garrafas de vodca, de uísque e todas as diferentes marcas de cerveja sem poder colocar no carrinho. Qual seria a desculpa minimamente plausível para “esquecer” de comprar o bife cheio de nervo e a penca de banana, substituíndo-os por uma linda e lustrosa garrafa de rum?

Foi quando comecei a ver que nunca seria um cara inteligente, porque mesmo depois de visitar o supermercado tantas vezes, pensar em centenas de alternativas, vi que nunca conseguiria convencer ninguém em casa de que cerveja alimenta, tem nutrientes, é praticamente um pão de centeio em forma líquida. Poderia nos alimentar decentemente durante uma semana inteira e a gente ainda iria dormir muito mais feliz.

Passou pela minha cabeça inventar um assalto, o meliante teria tomado da minha mão a sacola com o feijão e o bife nervento, mas sem querer ele deixara cair outra sacola (que teria roubado de outra pessoa) e dentro dela estaria uma garrafa de Montilla.

Então, para não voltar de mãos abanando, eu teria pego ao menos esta sacola com as duas garrafas, afinal, melhor do que nada. Esse plano nunca deu certo, é verdade. Quer dizer, nunca teria dado certo porque ao chegar em casa certamente me obrigariam a devolver às garrafas ao verdadeiro dono e iriam descobrir minha trama etílico-maquiavélica.

Hoje eu entro no supermercado e vejo as crianças fazendo compras praticamente sozinhas, as mães só empurram o carrinho. Mãe, quero isso, quero aquilo, compra este aqui. As mães fazem sinal com a cabeça. Colocam refrigerantes, chocolates, pizza, iogurte de chocolate, sorvete.

Não existe mais cigarros de chocolate ao leite que eu adorava, eu me sentia homem de verdade fingindo que tava fumando perto do caixa do supermercado, deixava para mastigar o chocolate apenas quando a gente saía dali.  Mas há centenas de novidades que antes não existiam, talvez até melhores. E a gurizada come tudo loucamente.

Quando os vejo empurrando tudo para dentro do carrinho, cada vez mais obesos, doentes e principalmente barulhentos, fico sem saber se devo agradecer à senhora minha mãe por nunca ter deixado isso acontecer ou se devo mandar a fatura antecipada de uns dez anos de terapia.

Na minha primeira noite no supermercado, sem dever nada a ninguém e sem precisar prestar contas da quantidade de bebida e da ausência de comida, devo ter comprado tudo que me chamou a atenção e que eu nunca havia experimentado antes.

Vinte caixas de pizza, dez litros de sorvete, inúmeros chocolates, pão doce (daqueles cheios de guloseimas por cima), croquetes, kibes, leite de chocolate e tudo mais que coube no carrinho. Tinha coisa que eu não fazia idéia que existia ou como iria preparar, mas se na embalagem havia as instruções, eu poderia aprender depois.

Comprei tudo, menos feijão, arroz e coxa de galinha.

Quando passei pelo caixa, fiquei com vergonha da atendente bonitinha que olhava para as compras achando tudo meio anormal, um espanto o qual respondi ser para a festa de natal dos meus dezoito primos e treze sobrinhos que estavam vindo do Sertão. E as garrafas eram para os pais das crianças, porque você sabe, sertanejo gosta de um aperitivo antes das refeições…

Ao menos ganhei um sorriso com aquela pequena mentira e, mais aliviado, continuei a esvaziar o carrinho.

Três horas depois de entrar no paraíso, minha primeira noite naquele templo da alta gastronomia tinha tudo para ser melhor do que 76 virgens lindas e loiras no céu estrelado, ao menos se eu não tivesse esquecido o talão de cheques antes de comprar o supermercado inteiro.

Voltei para casa com um Chandelle e uma latinha de Antarctica. Feliz da vida.

O homem do telhado
May 30th, 2009 by Paulo Rebêlo

Mal havia saído da adolescência quando conheci um cara chamado Cegonha. Esportista, ele treinava bem próximo de onde eu morava na época.

Às vezes, eu passava naquela casa velha caindo aos pedaços a qual chamavam de academia. Quase sempre, ao entrar, me deparava com um homem sozinho no telhado. Ele mirava o horizonte e por horas a fio fazia exercícios de respiração como se estivesse num universo paralelo, alheio a tudo que acontecia lá embaixo.

Uma visão curiosa, quase psicodélica. Todas as pessoas “normais” embaixo e um único ser humano no telhado. Eu chegava, ia embora, ele continuava no telhado. Talvez uma espécie de templo, não sei ao certo. Nunca tive coragem de subir, apesar da recorrente curiosidade em saber como era a vista ali de cima.

Certo dia, chega-me Cegonha com a cabeça completamente raspada, rosto enfezado, roupas rasgadas e sujas, barba cheia de buracos, chinelos velhos. Um desastre. Mais feio do que o cão chupando manga. Pisco os olhos e lá está ele novamente no telhado.

Aos curiosos, respondeu simplesmente de que dali por diante não queria mais se distrair com mulheres. Queria ficar o mais feio possível, pois assim elas deixariam de procurá-lo. Ou correriam de medo quando ele mostrasse interesse.

Talvez porque as mulheres tomem muito nosso tempo. Oxalá fosse um tempo a ser dedicado integralmente ao trabalho, ao bem da humanidade ou qualquer outra virtude de folhetim. Teoricamente, a gente vive querendo agradá-las, conquistá-las, perdemos a cabeça quando nos apaixonamos e não raro perdemos um pouco de sanidade mental quando elas vão embora.

Eventuais necessidades físicas, o Cegonha ou qualquer outro maluco pode resolver de outras maneiras. Pode ir a um cabaré, alugar um filme pornô ou ter amizades coloridas sem exigir contrapartidas afetivas – embora eu desconfie que ele estava tão concentrado que nem isso lhe interessava naquela época.

Cegonha não queria participar de olimpíada. Não queria entrar em campeonatos, ganhar medalhas, reconhecimento, reportagem em jornal. Ele não gostava nem que as pessoas soubessem seu nome.

Quando tudo dá errado, é curioso como os homens têm a mania aparentemente estranha de se dedicar ao trabalho como se nada mais existisse. Como se fizesse sequer a mínima diferença para a humanidade. Talvez porque o trabalho seja o único refúgio seguro, um telhado onde somos mestres do nós mesmos.

Eu ainda levaria um bom número de anos até entender a aflição daquele homem.

Telhados de vidro –

© rebelo.org / paulo rebêlo

Às vezes, as pessoas pegam uma escada e abrem mão de tudo. De diversões, dos amigos, da família. E principalmente das mulheres que supostamente nos amam e das mulheres que pretendem nos amar. Além das centenas de mulheres solteiras, afoitas e perdidas em cada rua e escritório.

À primeira vista parece difícil, mas depois de subir o primeiro telhado a gente vê como é fácil.

Lá de cima o mundo não gira, apenas passa. E passa a partir de uma perspectiva diferente, nos tornando malditos e ao mesmo tempo felizardos por conseguir enxergar tudo melhor, em ângulos nos quais as pessoas lá embaixo nem sonham existir.

Com o passar do tempo, você começa a se acostumar demais com o conforto e o silêncio do seu telhado. Outras pessoas vão tentar subir e não vão conseguir.

Umas vão querer subir para lhe puxar, trazê-lo à vida real aqui debaixo. Outras, contudo, podem simplesmente querer entender como é a vida em cima do telhado. Porque, oras, para você se apegar tanto deve haver algo diferente, reacionário, libertador.

Só que às vezes não há nada, é apenas um telhado cujas telhas você perdeu ao longo do caminho.

Quando cedemos a escada para uma pessoa subir, comumente elas enxergam apenas um grande vazio. O mesmo vazio pelo qual, depois de tanto tempo, já não conseguimos mais descrever em palavras ou contabilizar as telhas perdidas.

O homem sozinho no telhado geralmente não faz a menor questão em se proteger do mundo que gira, mas zela pela certeza de não ter chances de machucar ninguém. Se porventura uma pessoa tenta e não consegue subir, a naturalidade irá fazê-la ir embora e procurar telhados mais acessíveis, quiçá telhados vazios para derrubar.

Do telhado você vai enxergar várias mãos para o alto, sem saber exatamente se elas desejam puxá-lo para a calçada, subir no telhado com você, tomar seu lugar ou se simplesmente levantam os braços porque todas as demais pessoas estão fazendo a mesma coisa.

As mãos sempre estarão lá, assim como deve ter aparecido várias mulheres interessadas em Cegonha naquelas condições de anhangá-tinhoso.

Sempre haverá alguém estendendo a mão quando todas as outras se forem. Cansadas pelo tempo ou pisadas pelo seu hábito de não olhar para baixo. Até você conseguir  enxergar aquela mão toda machucada, muitas telhas terão caído pela chuva e pelas pedras jogadas, mas às vezes é tarde demais. Às vezes resta apenas uma mão sem força, sem ninguém ali embaixo para lhe ajudar a descer do telhado. E você volta a procurar suas telhas perdidas pelo mundo, em meio a multidão de gente na calçada gritando, brigando e caindo no chão.

O mundo está cheio de pessoas assim. E no fundo nunca sabemos se estamos no telhado ou se é a mão da gente ali sendo pisada.

Envelhecendo na cidade
May 21st, 2009 by Paulo Rebêlo

Despedir-se de pessoas é fácil. Elas sempre podem ir até você ou você voltar a elas, por mais difícil que seja e por mais distante em que estejam. Pode não querer, mas a opção existe. Complicado é se despedir de cidades e lugares pelos quais você criou raízes. Tanto faz se passou uma vida inteira ou se criou vínculo a partir de poucas visitas.

Daqui a três anos, podemos pegar um avião e ir até São Paulo ou ao Sri Lanka. Mas daqui a três anos, talvez eu queira visitar o bar onde tinha conta e meu fiado não exista. O garçom pode ter arrumado outro emprego. A prefeitura pode ter fechado o boteco para expandir a rua. A construtora pode ter erguido um edifício. E todo mundo vai embora com a memória enterrada.

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A lágrima masculina
Apr 20th, 2009 by Paulo Rebêlo

Paulo Rebêlo |   abril 2009

Homens também choram. Nem sempre pelos motivos mais nobres, é verdade. Mas nem por isso podemos desvalorizar cada gota de lágrima a escorrer pela barba.

Há nove anos, quando o Sport Recife perdeu de virada para o Palmeiras o inédito título da Copa dos Campeões, faltou saliva para engolir. Era o ano 2000 no estádio Rei Pelé em Maceió. Sentado no alambrado, de olhos marejados, subi as mãos à cabeça diante de tamanha desgraça de uma vida inteira. E por um minuto hesitei. Vi um marmanjo de 1,95m a chorar. Minutos atrás, imaginei que aquele cidadão fosse invadir o campo, puxar uma pistola da cintura e atirar a esmo, tamanha a brutalidade durante os 90 minutos anteriores.

Deitado sob o colo de uma senhora, provavelmente a senhora sua mãe, o brutamontes chorava. Copiosamente.

 

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As mulheres que nós (ainda) amamos
Mar 8th, 2009 by Paulo Rebêlo

Paulo Rebêlo // março 2009 *

De todas as peculiaridades femininas, há três quase sobrenaturais que nem a ciência ou a psicologia haverão de explicar aos homens.

Seis meses é todo o tempo necessário para uma maravilhosa mulher se transformar em outra nem tão maravilhosa assim. Em seis meses elas ganham doze quilos, cortam os lindos cabelos longos, se transformam em estufa de espinhas ou viram lésbicas. E por mais tempo gasto pensando como alguém consegue mudar tanto em tão pouco tempo, mais convencido você fica que a culpa só pode ser de alienígenas que invadiram a Terra e tomaram o corpo e a mente daquela mulher para experiências. E nem avisaram antes.

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Manifesto ninfetas assassinas
Feb 2nd, 2009 by Paulo Rebêlo

Paulo Rebêlo | fevereiro.2009

As mulheres não entendem a mania de homem largar tudo por uma ninfeta. Que fique registrado: a gente também não.

Nem sempre largamos uma pela outra e quase sempre voltamos. Dois peitinhos apontados para o céu até chamam a atenção, mas futilidades o vento leva rápido. Ninguém deixa ninguém por causa de duas arrobas a mais na balança ou dois arrotos a menos na hora do almoço.

Pensam que é por causa dos efeitos da lei da gravidade nas mulheres. Ou para reafirmar nossa masculinidade. Não necessariamente. Neste prisma, aliás, é conveniente dizer que as ninfetas costumam falar demais e fazer de menos. Uma coisa meio ‘beleza americana’.

Há ninfetas burrinhas, ninfetas canhotas, ninfetas gatorade e as temidas ninfetas assassinas.

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