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Heaven turns in on itself - opinion

Friday, November 10th, 2006

The Budapest Sun - 09.nov.2006 ( link original )


I’ve already seen many dead bodies in my life. I’ve played pool with convicted murderers. I’ve seen a guy being stabbed in the chest right at my side. I’ve got drunk with pirated whisky and hot beer. The list of bad things I have seen is not short. But I have never before come so close to seeing heaven turn itself into hell as I did while covering the recent riots in downtown Budapest.

Even though I’ve been living in the city for fewer than four months, and still feel a little like a lost foreigner, I felt ashamed seeing the places I had learned to like so much being transformed into a raging arena.

I can’t stop wondering how the ordinary Hungarian felt after waking up the day after the Oct 23 riots and seeing his country so badly shaped on the front pages of newspapers and TV shows around the world. As for me, as weird and selfish as it might sound, I had to explain to my pals back in Brazil that the Budapest they were seeing on TV was the same “beautiful and peaceful Bp” I usually mention in my emails and stories.

All of a sudden, all those nice, metropolitan places I walk daily – Astoria, Deák tér, Andrássy, Blaha Lujza and so forth – were filled with an unprecedented set of insane extremists and police officers fighting each other. Back in Brazil, scenes like these are not unusual. Actually, in some of the really huge cities, like Rio de Janeiro or Sao Paulo, it’s quite common, to say the least.

But we are not in Brazil. We’re talking about a country which impressed the whole world 16 years ago with a peaceful transition to capitalism, and has managed to be a peaceful and cheerful place since them. What brings tourists from around the world to Budapest is not only its natural beauty and thermal baths. There is also this whole feeling of being in a receptive and pleasant place, with receptive and pleasant people. It is what I like to call the “yellow feeling.”

I had believed I was quite aware of what was happening in Hungary, at least in a political point of view, since it has kept me a bit busy working for the Brazilian media.

However, when I saw a couple of very old fellows who fainted in front of me running from the cops and their rubber bullets, an officer being beaten by a couple of extremists, one masked guy protecting himself from the tear gas and being beaten by five cops all together, I realized I didn’t have a clue about what those people were thinking of achieving with such unnecessary violence from both parts.

Trying to explain the politics behind the riots is okay, but finding the real reasons might well prove difficult to pin down. And, just like Brazil, I’m inclined to say that most of those raging youngsters have no idea what they were trying to do, why they were there and the meaning of those red-striped flags. From this foreigner’s point of view, I would describe the recent riots in Budapest as being like a very bad trip.

XENOPHOBIC - The riots are gone (hopefully), but the bad images they have left behind are, unfortunately, still present in many people’s minds. What scares me even further than the physical violence is the spoken violence present in many racists and xenophobic speeches I’ve heard against Romanians, gypsies and other eastern European nations.

Although Europe is known worldwide as a highly xenophobic continent, the last thing a foreigner would expect to see in Hungary and nearby countries is xenophobic aggression against each other. But when it comes to real life, the sort that is not included in tourist guides and books, foreigners are usually wrong with all their pre-conceived ideas.

What most Hungarians, Slovaks, Romanians, Ukrainians and, indeed, all eastern European residents perhaps don’t realize is that, for the most part of the so-called “rich Europe,” everyone living in these countries is taken together as an “easterner” – and not in a very good sense.

In the end, when it comes to xenophobic tensions and from what I’ve been seeing for the past decades, it doesn’t really matter. Because, whether you are right or wrong, the result will be always the same: xenophobia is a pre-historic behavior, and its roots, consequently, are very deep.

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Budapeste vira praça de guerra nos 50 anos da revolta

Tuesday, October 24th, 2006

Polícia reprime protesto com bala de borracha; manifestantes jogam explosivos. Oposição conservadora boicota atos oficiais e insiste na renúncia do premiê socialista, que mentiu sobre as contas públicas.

Paulo Rebêlo
Folha de S. Paulo
– 24.out.2006 [ link original ]

A Hungria parou. Deveria ter sido um dia de festa e reflexão nas comemorações da Revolução de 1956, a revolta democrática e anti-soviética que ontem completou 50 anos. Mas, em vez de festa, os húngaros viveram um cenário de violência sem precedentes desde o dia em que a rebelião foi reprimida pelos tanques russos, duas semanas depois de começar.

Jovens enfurecidos, policiais sem controle, bombas caseiras, gás lacrimogênio, balas de borracha atiradas a esmo, idosos desmaiados, crianças correndo desesperadas, adultos sangrando, dezenas de feridos. As ruas no centro de Budapeste viraram praça de guerra, sem distinção entre manifestantes pacíficos ou extremistas.

Logo cedo, um incidente na Praça do Parlamento envolvendo manifestantes que acampam no local desde meados de setembro, quando começaram os protestos contra o governo do primeiro-ministro Ferenc Gyurcsany, foi minimizado pela polícia. Durante o resto da manhã, famílias inteiras saíram de casa segurando a bandeira da Hungria, em protestos pacíficas contra o premiê do Partido Socialista (ex-comunista), que admitiu ter mentido para a população e para a União Européia sobre as contas públicas.

Reeleito em abril, Gyurcsany aumentou impostos e cortou gastos para adaptar o orçamento do país às exigências da UE.

No começo da tarde, grupos extremistas, ligados à oposição ultranacionalista, começaram a radicalizar em lugares-chave de Budapeste, atirando pedras e pedaços de metal contra policiais. Tanques que haviam sido postos nas ruas para lembrar a invasão da cidade pelos soviéticos foram tomados pelos manifestantes e lançados contra os policiais. Helicópteros e esquadrões de elite entraram em cena e a situação desandou.

Enquanto o governo iniciava uma série de eventos formais e fechados ao público em geral, o direitista Fidesz, principal partido da oposição, que boicotou as celebrações oficiais, fechou uma das principais avenidas de Budapeste. Líder do partido, o ex-premiê Viktor Órban discursava para dezenas de milhares de pessoas, em uma clara simulação dos eventos de 1956.

Órban afirmou à multidão que o governo era “ilegítimo” e pediu um referendo sobre o programa de reformas econômicas implementado por Gyurcsany e aprovado pela UE. “A confusão atual é causada por um homem, que levou o país a uma crise política e moral ao enganar o povo”, disse.

Ataque à polícia -

Ali perto, as agressões contra policiais aumentaram e a resposta veio com o batalhão de choque avançando para cima de todos sem distinção. Bombas caseiras e coquetéis molotov começaram a ser usados pelos manifestantes. De noite, muita gente ainda procurava abrigo para fugir do gás lacrimogênio e das balas de borracha da polícia. Grupos de cinco a seis policiais se formavam, fechavam o cerco a algum manifestante e o espancavam, diante de cinegrafistas e fotógrafos.

Algumas das principais estações de metrô foram fechadas; ônibus não podiam circular porque as avenidas estavam bloqueadas. Até a madrugada de hoje, manifestantes permaneciam em partes do centro.

Em discurso nas comemorações oficiais, o premiê Gyurcsany, que lidera uma coalizão dos socialistas com os Democratas Livres (liberais), respondeu à crítica de que não tem legitimidade para liderar os festejos citando um dos heróis da Revolução de 1956, o comunista reformista Imre Nagy, dizendo que ele “foi o modelo para todos que governaram” a Hungria após a queda do comunismo, em 1989.

Nagy, premiê na época da revolta, tentou declarar a neutralidade húngara frente a soviéticos e americanos, mas acabou deposto e foi executado em 1958 -ele foi um dos 341 húngaros condenados à morte na época, ao lado dos cerca de 2.700 mortos e 22 mil presos.

Em 1956 os húngaros não tinham opção a não ser se rebelarem, disse Gyurcsany, enquanto hoje a Hungria é um país democrático. “Apesar do descontentamento muitas vezes justificado, a maioria dos húngaros acredita que a democracia parlamentar é o modelo mais indicado para expressar a vontade popular”, afirmou.

Do outro lado, a oposição mostrava imagens de veteranos de 1956 que deram as costas e não cumprimentaram o premiê durante uma entrega de prêmios e medalhas, ocorrida domingo. Nem Gyurcsany, 45, nem o opositor Órban, 43, eram nascidos em 1956.

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Protestos húngaros trazem ecos da Revolução de 1956

Sunday, October 22nd, 2006

Desencanto de hoje contrasta com anseios libertários da revolta anti-soviética. Oposição ao governo do PC reformado evoca fantasma do comunismo; aniversário será comemorado com 50 delegações estrangeiras.

Paulo Rebêlo
Folha de S. Paulo - 22.out.2006 [ link original ]

BUDAPESTE - Nas últimas semanas, a Hungria saiu do anonimato recente para a primeira página de jornais mundo afora. Protestos, instabilidade econômica, críticas ferozes ao governo e a emergência de uma extrema-direita em um país que, ainda hoje, é considerado o mais socialmente estável do antigo bloco comunista europeu.

Diante da crise, não demorou para que grupos políticos desenterrassem o fantasma do comunismo (que caiu em 1989) por meio de memórias da Revolução Húngara de 1956, cujo aniversário de 50 anos é celebrado amanhã. Para uma série de historiadores, a revolução foi o gatilho para a derrocada do império soviético. Ou, nas palavras do montenegrino e comunista dissidente Milovan Djilas, morto em 1995, “o início do fim do comunismo”.

No final de outubro de 1956, milhares de estudantes e trabalhadores se rebelaram contra o domínio soviético e a falta de liberdades civis na Hungria. Os protestos duraram até o início de novembro, com a estátua de Josef Stálin derrubada em Budapeste. O movimento foi reprimido pelos russos com tanques e tiros de fuzis.

Cinco décadas depois, com o primeiro-ministro Ferenc Gyurcsany admitindo que mentiu para a população húngara e para a União Européia a fim de ganhar as eleições gerais de abril passado, a Hungria vive uma nova onda de manifestações, pela renúncia do premiê. Neonazistas e hooligans (torcedores violentos) depredaram praças e prédios públicos; lideranças políticas até então enfraquecidas clamaram por uma nova revolução.

Dois momentos
Até onde a revolta de 1956 e os protestos atuais estão relacionados? É o que se perguntam os húngaros, com a sociedade sem saber o que esperar desta semana de celebrações.
Mais de 50 delegações internacionais chegaram a Budapeste para os eventos, incluindo representantes da Otan (a aliança militar ocidental, à qual a Hungria aderiu após o fim do comunismo) e da ONU. Pessoas que participaram da revolução vão compartilhar experiências nos teatros e em palcos montados pelo governo. Haverá exibições de fotografias e documentários sobre a época.

A suposta relação entre os dois momentos tem levado acadêmicos e pesquisadores a repensar o papel do país na história e, sobretudo, a refletir sobre o significado da liberdade. São questionamentos que tiram o sono de István Rév, 54, diretor do Open Society Archive (arquivo sociedade aberta), financiado pelo magnata húngaro George Soros para recuperar e armazenar arquivos históricos.

“Com o fim do comunismo em 1989, ficamos tão empolgados com a idéia de finalmente termos liberdade de expressão e opinião que, talvez, a tenhamos levado ao extremo, a ponto de o país virar quase uma anarquia”, opina. “Antes tínhamos medo de nos expressar, hoje as pessoas têm medo de questionar as expressões.” Com a repressão aos protestos de 1956, pelo menos 200 mil húngaros fugiram. Boa parte só quis voltar, mesmo para uma visita, a partir de 1989.

Hoje com 66 anos, Gabor Boritt emigrou para os EUA e tornou-se um dos maiores especialistas na Guerra Civil Americana. Para ele, a comparação entre 1956 e o cenário atual “não existe e não tem o menor sentido, mas infelizmente os jovens sabem muito pouco da história do próprio país”. Boritt frisa que, na época do comunismo, o povo estava lutando por liberdade de expressão, pelo direito de ir e vir. “Hoje nós temos liberdade, mas sempre haverá grupos políticos e extremistas que tentam tirar proveito da falta de conhecimento.”
A arquivista-chefe do Open Society Archive, Gabriella Ivacs, lembra que nem todos os exilados tiveram a mesma sorte de Boritt. Para ela, nem os próprios húngaros assimilaram o que aconteceu de fato e a importância da revolução na história. “Ainda há cicatrizes abertas em várias pessoas envolvidas e é uma pena que grupos políticos estejam se aproveitando da situação para tentar ganhar votos.”

Instabilidade
Do “socialismo real” do passado para um futuro de extrema-direita. Eis aí o temor de boa parte da sociedade húngara, principalmente em Budapeste. Nas eleições municipais deste mês, o partido direitista Fidesz venceu em quase todo o país, com exceção da capital e de poucas cidades médias.

O receio é amenizado pelo escritor britânico Bob Dent, que há 20 anos mora na Hungria e é autor de “Budapest 1956: Locations of Drama” (Budapeste 1956: cenários do drama), lançado neste ano. “Na eleição de agora, apenas metade dos eleitores saiu de casa para votar, a maioria estava deprimida e descrente por causa da instabilidade política. Desta metade, apenas metade votou no Fidesz, o que significa algo em torno de 25% a 30% do público”, pondera Dent.

O governo atual, representado pelo premiê do Partido Socialista (MSZP), tenta tirar proveito da ocasião para melhorar sua imagem e a credibilidade diante da comunidade internacional. Mas o partido é a versão “reformada” do antigo Partido Socialista dos Trabalhadores Húngaros (o PC), o que faz com que tente manter uma distância segura da época.

A oposição é personificada principalmente por Viktor Órban, líder do Fidesz, partido dos Jovens Democratas que nasceu com em 1989. Anticomunista, defensor de “valores morais”, Órban, 43, foi premiê entre 1998 e 2002 e hoje é o opositor mais feroz do governo. Partiram dele as principais analogias entre os protestos recentes e 1956. Nem ele nem o premiê Gyurcsany, 45, eram nascidos na época da revolta.

Hoje professor de Sociologia na Middlesex County College, em Nova Jersey (EUA), o húngaro Karóly Nagy desempenhou um papel crucial na revolução, como presidente eleito do Conselho Nacional Revolucionário de Erdosmecske. “Os jovens de hoje precisam entender melhor a revolução e saber o que se pode aprender com aqueles doze dias, com o legado que deixamos. O que qualifica uma nação não é uma ideologia, mas a presença ou a ausência de liberdade. Não é um legado relevante apenas para o nosso país, mas para o mundo inteiro”, afirma Nagy, co-presidente da Associação Internacional de Língua e Cultura Húngaras.

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Crise faz voto em Budapeste ganhar dimensão européia

Sunday, October 1st, 2006

Paulo Rebêlo
Folha de S. Paulo
- 01.out.2006 [ link original ]

Deveria ser apenas mais uma eleição local, mas hoje todas as atenções da União Européia estão voltadas às urnas da Hungria, que vão mostrar quem será o prefeito de Budapeste durante os próximos quatro anos. Diante do atual momento de instabilidade política e econômica do país, o resultado do pleito significa muito mais para a UE do que a maioria dos húngaros imagina.

O atual prefeito de Budapeste, Gábor Demszky, ocupa o cargo há 16 anos e concorre a mais um mandato -a reeleição ilimitada é permitida no país. Seu principal opositor é o “independente” István Tárlos, que tem apoio do Fidesz, partido da extrema-direita e principal opositor do atual governo. Ex-prefeito de um dos distritos de Budapeste, Tárlos promete endurecer a oposição aos representantes do governo no Parlamento. O discurso da oposição preocupa a UE, atenta às prometidas reformas econômicas que tardam cada vez mais na Hungria, um dos países com o maior déficit público do bloco e sem expectativas de adotar o euro, a moeda comum européia, antes de 2012. A Hungria faz parte da UE desde 2004.

Nas duas últimas semanas, Budapeste tem enfrentado protestos e manifestações violentas contra o premiê Ferenc Gyurcsany, do Partido Socialista, que admitiu, em uma fita vazada à imprensa, ter maquiado números da economia para ganhar as eleições de abril. Gyurcsany tem dito que não deixa o cargo. No entanto, se a oposição representada por Tárlos vencer o pleito em Budapeste, a situação de Gyurcsany pode se tornar insustentável e colocar em xeque os compromissos políticos do país com a UE.

“A extrema-direita ganhou muito apoio por causa dos protestos, muita gente está decepcionada com o governo. Mas achamos difícil eles [a oposição] ganharem as eleições em Budapeste. Se isso acontecer, teremos problemas no Parlamento e em várias cidades, porque o governo perde sustentação e haverá novas crises internas de poder, sem contar com a provável perda de apoio da Comissão Européia”, explica à Folha o representante da Sociedade Húngara-Européia, Istvan Hegedus.

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Início da integração à UE fermenta tensão na Hungria

Sunday, September 24th, 2006

Aumento de preços e instabilidade irritam a população, mas ainda há expectativa de futuro melhor dentro do bloco. Com reformas empacadas e herança socialista, cobra-se por tudo -de sachê de catchup a fatia de pão- e ainda se espera ação estatal.

Paulo Rebêlo
Folha de S. Paulo
- 24.set.2006 ( link original )

BUDAPESTE - Domingo, 13h. Restaurantes de culinária internacional estão lotados de turistas em quase toda a extensão da Andrássy Ut, a avenida mais famosa, cara e cosmopolita da capital húngara. Não à toa, ela é apelidada pelos estrangeiros de “Champs-Élysées de Budapeste”.

Em pares ou pequenos grupos, indiferentes às violentas manifestações ocorridas em Budapeste na última semana, os turistas não vêem o tempo passar nesta parte da cidade de arquitetura neo-renascentista, que reúne numa única quadra restaurantes italiano e chinês, salão de beleza, banco, livraria, agência de viagens e museu.

Na metade dos 2,5 km da Andrássy, um observador desavisado pode se perguntar se continua no mesmo país. No cruzamento do Oktogon, entre a Andrássy Ut e a Teréz Korút, há um tumulto numa das várias filiais do Burger King na cidade.

O que de longe parecia mais um protesto não passava de um lugar lotado, com uma longa fila no caixa e várias pessoas comendo em pé. Uma mulher de meia idade reclama com o marido, em espanhol, que aquela comida não é saudável e que comer fast-food em Budapeste é um pecado. Resignado, ele diz que ali “é mais barato e rápido”. Na hora de pagar, os dois se surpreendem quando pedem catchup ao caixa: custa 60 florins. No concorrente McDonald’s, custa 100. Geralmente, 100 florins equivalem a R$ 1.

Do sachê de catchup ao potinho de manteiga no bufê, passando por uma fatia de pão extra no couvert, tudo é contado e cobrado nos menores detalhes. São algumas das heranças de um socialismo não muito distante no país (caiu em 1989), que, entre as nações do Leste Europeu, é um dos que mais sente o choque de capitalismo acelerado dos últimos anos. Isso se agravou a partir de 2004, quando a Hungria ingressou na União Européia sob a promessa de promover, com urgência, reformas socioeconômicas, contenção dos gastos públicos e equilíbrio orçamentário.

Aumento de impostos
Dentro do Burger King, do McDonald’s e da Pizza Hut, o casal de mexicanos citado acima é uma exceção. O comum é esses lugares estarem repletos de húngaros, para surpresa dos turistas que adoram a comida local. “De que adianta a nossa comida ser ótima se a gente não pode pagar?”, pergunta o estudante Oliver Jurszik. “Se quiser comer na rua, os únicos lugares que não aumentaram tanto os preços são essas lanchonetes e, claro, os restaurantes chineses, onde a gente nunca sabe o que está comendo.”

Ele não é voz isolada. Mas, ao mesmo tempo, não é consenso que a entrada para a União Européia é a única responsável pela subida de preços. Antes do aumento de 30% nos impostos, anunciado pelo governo neste mês, os dois últimos anos foram significativos em inflação, para húngaros e turistas, que achavam que ainda encontrariam em Budapeste o paraíso de preços baixos.

“Antes mesmo da UE, as pessoas já sabiam que isso ocorreria. O problema é que há uma distância grande entre as mentalidades. As mudanças para uma economia de mercado estão sendo mais rápidas do que boa parte da população consegue acompanhar”, avalia a professora de inglês Ildiko Csipo. “O dinheiro está circulando, é assim que funciona. Mais impostos, produtos mais caros, os jovens hoje têm mais oportunidades de crescer profissionalmente, mas as gerações anteriores ficaram para trás”, lamenta Ildiko, que não vê a hora de terminar a pós-graduação e sair do país. “As coisas mudam de uma hora para outra, impostos sobem e descem do nada, preços sobem sem critério. Ninguém consegue se planejar”, diz.

A herança do socialismo na Hungria não se limita às cobranças por catchup e potinhos de manteiga. “Há gerações inteiras que ainda esperam receber do Estado alimentação, sistema de saúde, educação e aposentadorias, tudo de graça”, relata o embaixador brasileiro, José Augusto Lindgren Alves. Para o futuro, porém, ele é otimista. “Com as reformas, a Hungria pode ser uma nação significativa mundialmente. Não será um poder, mas pode ficar em posição confortável na Europa”, estima.

De modo geral, as mudanças e a escalada de preços na Hungria são similares às de outros países que aderiram à UE. Contudo, com as declarações do primeiro-ministro Ferenc Gyurcsany de que o governo maquiou os números da economia para que ele fosse reeleito e de que nenhuma das reformas foi realmente feita, a situação política hoje é delicada.
“Apesar das boas expectativas, as principais reformas estruturais na Hungria vão levar talvez 15, 20 anos para produzir os frutos de estar na UE”, diz o engenheiro de tecnologia Krisztián Katona.

Direita radical ganha força em atos e eleições —

No próximo domingo, haverá eleições municipais na Hungria. O foco das atenções é a capital, Budapeste, cujo prefeito, Gábor Demszky, está há 16 anos no cargo (a reeleição ilimitada é permitida no país) e é aliado do primeiro-ministro Ferenc Gyurcsany. Com os protestos contra Gyurcsany, do Partido Socialista, na última semana, o partido de extrema-direita mais conhecido, o Fidesz, tem ganho apoio popular.

Em fita vazada para a imprensa, Gyurcsany foi flagrado admitindo que o governo maquiou números da economia e mentiu para ganhar as eleições de abril, o que detonou as manifestações. “E agora”, diz ele na gravação, “todos devem se empenhar para promover as reformas orçamentárias necessárias”. O Fidesz é acusado pelo governo de encorajar grupos radicais da extrema-direita, como os neonazistas, a promover atos violentos durante os protestos. O partido responde oficialmente que “a idéia é um absurdo, apenas mostra que o país está sem controle e governo”.

Mais protestos
Ontem, cerca de 20.000 manifestantes, alguns deles ligados a outro grupo de extrema direita, o Jobbik, se reuniram em frente ao Parlamento. Um dos oradores do ato foi um bispo protestante, Laszlo Toekes, conhecido pela militância ultranacionalista. “Quem é culpado?”, perguntou ele, “quem incendeia um carro ou quem destrói a nação inteira?”

“Somos um país pacífico, as pessoas não gostam de violência, muita gente que eu conheço nem sequer sabia que existiam neonazistas aqui”, lamenta o empresário Levente Nanasy. “Falam em fazer reformas duras, mas e o que estava ocorrendo antes, esses aumentos de impostos? Para onde foi o dinheiro?”, indaga.

Nesta semana, Gyurcsany e uma comitiva oficial devem levar a Bruxelas (sede da Comissão Européia) a versão final do plano de reformas que o governo deve implementar, a fim de que a Hungria cumpra as exigências da União Européia para reduzir seu déficit público, um dos maiores do bloco. Em entrevista à agência estatal, o premiê voltou a afirmar que não haverá novos aumentos de impostos. A população húngara, no entanto, já ouviu essa promessa outra vezes.

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