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Kung Fusão é o escracho chinês

Friday, December 23rd, 2005

Paulo Rebêlo
Revista Pipoca Moderna / dezembro.2005

Stephen Chow é um cara de sorte. Em Kung Fusão (Kung Fu Hustle, 2004, China/HK), ele repete o estilo de comédia escrachada que o consagrou na China mas, estranhamente, consegue replicar o sucesso no Ocidente com uma bilheteria monstruosa. Para se ter idéia, o filme dirigido, produzido, escrito e atuado por Chow teve a maior quantidade de salas durante a estréia nos cinemas americanos para uma produção estrangeiro, ficando à frente de obras primas como Herói e Clã das Adagas Voadoras. No Brasil, a recepção também foi calorosa, até mesmo para os críticos tradicionais de cinema – o que é, de fato, surpreendente.

Estamos falando de uma comédia politicamente incorreta, com piadas sobre defeitos físicos, feiúra e trejeitos. No entanto, o carro-chefe é mesmo o estilo peculiar e nonsense de Chow, sua marca registrada, e também o que lhe diferencia das comédias politicamente incorretas de Hollywood. No script, temos um vilarejo na China rural sob ameaça de ser invadido por uma gangue urbana. Com a iminente invasão, os moradores trapalhados acabam se mostrando mestres de kung fu e cheios de segredos do passado. A exemplo de outros filmes de Chow durante a década de 90, Kung Fusão mistura uma ternura simples para todo mundo entender, com pitadas de filosofia marcial nas entrelinhas, a qual só os iniciados talvez consigam pegar.

Boa parte das piadas se perdem na tradução das legendas e na cultura chinesa, principalmente durante algumas paródias de filmes asiáticos. Mas, também há zombaria com Hollywood. Impagável é a cena que simula Matrix e a luta contra milhares de Mr. Smith. O estilo de Chow é considerado deveras nonsense até na China, onde chamam de “Mo Lei Tau”. Quem quiser conferir algumas das obras clássicas de Chow, vale a pena procurar Shaolin Soccer (China/HK, 2001) que ganhou distribuição pela Miramax em 2003. Em 2006, chega a seqüência de Kung Fusão.

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Herói e Clã das Adagas Voadoras chegam juntos em DVD

Friday, September 23rd, 2005

Paulo Rebêlo
Revista Pipoca Moderna // setembro 2005

Nos cinemas brasileiros, o diretor chinês Zhang Yimou teve seus dois últimos filmes exibidos ao mesmo tempo. Herói (Ying xiong, 2002) e Clã das Adagas Voadoras (Shi mian mai fu, 2004) já estão disponíveis em DVD e trouxeram ao Brasil o que há de mais avançado e bonito no cinema chinês. Os efeitos de câmera e o ritmo das histórias deixam qualquer mago de Hollywood com os cabelos em pé e, claro, atraíram as atenções dos brasileiros cansados da fórmula maniqueísta típica – de heróis e vilões estereotipados.

Com o lançamento quase simultâneo no Brasil, torna-se difícil não comparar os dois. O diretor é o mesmo e uma das atrizes, a ninfeta Zhang Ziyi, também está presente em ambas as produções. Apesar de temáticas aparentemente distintas, Herói e Adagas Voadoras compartilham um alicerce similar: o abrir mão de uma causa pessoal por uma causa maior. O “greater good” é retratado com maestria na história de Herói, cujo protaganista, Jet Li, é mais conhecido pelos filmes de artes marciais campeões de bilheteria na China.

O mesmo tema é tratado em Adagas Voadoras, porém, de uma forma bem mais palpável ao gosto ocidental – o amor e suas desilusões – enquanto que, em Herói, há um contexto histórico e político bem mais presente. Motivo pelo qual, no Brasil, o gosto médio do público tende a preferir (e a entender melhor) a história contada pelo Clã das Adagas Voadoras a qual, querendo ou não, cedeu um pouco ao melodramático padrão no final do filme. Embora não enfraqueça seus méritos, há de se frisar.

Os dois filmes são frutos de uma nova geração do cinema chinês, ressuscitando um estilo tão popular nas décadas de 60 e 70 na China: os filmes de Wu Xia. A palavra, cuja pronúncia mais correta seria algo como “oo-shyah”, significa “arte marcial medieval” ou “arte marcial montada” que, em bom português, é muita luta com espadas, lanças e cavalos. O retorno desse estilo teve início ainda em 2000, com “O Tigre e o Dragão” (Wo hu cang long) de Ang Lee.

Logo, não espere a habitual pancadaria de socos e pontapés, pois a história é outra, bem mais literata e visual. E é justamente o visual que consegue encantar tanto, como nenhum filme do Ocidente parece conseguir. Em Herói, mesmo que o filme termine e você não entenda exatamente onde está a “causa maior” (por causa do contexto histórico da China), você certamente irá querer assistir de novo só para ver as paisagens e as cenas coreografadas, acredite.

O diretor Zhang Yimou é bem conhecido dos brasileiros, apesar de nem todos terem ligado o nome à pessoa. Foi ele que dirigiu, em 1991, o clássico “Lanternas Vermelhas” (Da hong deng long gao gao gua) e, no ano seguinte, “A História de Qiu Ju” (Qiu Ju da guan si), ambos estrelados por Gong Li, a atriz chinesa mais requisitada naquela época. Não à toa, Zhang Ziyi está sendo considerada, hoje, a Gong Li contemporânea de Yimou.

Um detalhe: esqueça o nome de Quentin Tarantino na capa do DVD de Herói e no crédito inicial que surge antes do filme. A participação dele é nula. Tarantino assistiu ao filme quando esteve no Oriente, gostou e resolveu ajudar a convencer a Miramax a bancar a distribuição nos Estados Unidos. Por isso aparece apenas “Quentin Tarantino apresenta”. Como no cinema também não existe almoço grátis, a Miramax cortou quase 20 minutos da versão original e essa foi a cópia que passou nos cinemas americanos e chegou por aqui.

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Polícia ou Bandido?

Tuesday, July 19th, 2005

Cinema: Conflitos Internos, filme de Hong Kong, mistura identidades em um jogo mortal.

Paulo Rebêlo
Revista Pipoca Moderna, nº 10 (julho)

O diretor Wai Keung Lau conseguiu reunir a nata do cinema de Hong Kong em “Conflitos Internos” (Infernal Affairs / Wu Jian Dao, HK, 2002), possivelmente um dos filmes policiais mais instigantes já produzidos. Não é à toa que, ainda agora em 2005, continue colecionando prêmios e indicações em várias categorias, incluindo a de melhor filme estrangeiro, melhor ator e melhor ator coadjuvante nos festivais internacionais de cinema.

A essência de Infernal Affairs é relativamente simples: um policial que trabalha disfarçado nas tríades (máfia) chinesas e um integrante das tríades que conseguiu se infiltrar na polícia de Hong Kong e até mesmo se destacar no quadro policial. Desta aparente simplicidade, o espectador se depara com situações bem inusitadas e criativas, com questionamentos sobre a personalidade de cada um. É quando começamos a nos perguntar: até onde o policial continua a trabalhar pela lei e até quando o criminoso é, realmente, movido pelo crime?

O maior trunfo de Infernal Affairs é ter reinventado a forma de se encarar um filme policial de tema batido (máfia) e de abordagem lógica (mocinhos e bandidos). Consegue emocionar sem ser dramático, mexer com sua adrenalina sem desnecessárias cenas de violência e fazê-lo questionar até onde o ser humano consegue manter um ideal frente a uma realidade tão diferente na qual foi ensinado a viver. No caso, o ideal da justiça e do crime.

Não obstante a qualidade da produção, Infernal Affairs não é um filme de fácil compreensão, sobretudo para os cinéfilos menos atentos e o público mais interessado em tiros e explosões. Em algumas cenas, é preciso atenção redobrada nos detalhes das locações para entender os diálogos – uma tarefa particularmente difícil por causa das legendas. Há passagens as quais, enquanto você presta atenção nas legendas para entender os diálogos, pode perder detalhes visuais que vão fazer diferença mais adiante.

As principais perguntas não-respondidas, contudo, são propositais. Infernal Affairs é apenas o primeiro de uma trilogia, cujos dois filmes seguintes foram filmados um ano depois (2003) e rapidamente tornaram-se uma franquia em Hong Kong, com direito a camisas, canecas, canetas e outras bugigangas.

A atuação dos dois atores principais – Andy Lau e Tony Leung Chiu Wai – é responsável por metade dos méritos do filme, mas não chega a ser surpresa para quem acompanha as produções chinesas. Andy Lau participou, entre seus filmes mais recentes e conhecidos no Brasil, de “O Clã das Adagas Voadoras” (Shi mian mai fu, 2004) e é premiado não apenas como ator, mas também como cantor e, em Hong Kong, atua ainda como empresário e produtor de filmes menores.

Tony Leung, o indicado para melhor ator em festivais pela atuação em Infernal Affairs, atuou recentemente em “2046″ (2046, 2004) do venerado Wong Kar Wai, e também pode ser visto atualmente nos cinemas brasileiros em “Herói” (Ying Xiong, 2002) que chegou com três anos de atraso por aqui.

REMAKE - Basta um filme estrangeiro fazer sucesso de bilheteria para Hollywood produzir um remake ocidentalizado. Não foi diferente com Infernal Affairs. A produção americana está em vias de finalização e será lançada em 2006, sob o título de “The Departed” e com direção de Martin Scorcese. Nos papéis principais estão Leonardo diCaprio e Matt Damon, com participação de Jack Nicholson, Alec Baldwin e Martin Sheen.

Verdade seja dita: os remakes americanos têm melhorado bastante. Até meados dos anos 90, os americanos simplesmente ocidentalizavam os filmes em demasia e perdiam muito do original. Atualmente, Hollywood costuma convocar os diretores originais para ajudar na produção/assessoria ou até mesmo dirigir o filme americano, como foi o caso de “O Chamado” (The Ring, 2002) e “O Grito” (The Grudge, 2004).

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