Posts Tagged ‘água’

São Francisco // Ribeirinhos alheios à transposição

Monday, April 28th, 2008

RECURSOS HÍDRICOS // População que vive às margens do São Francisco não aceita os argumentos sobre prejuízos e benefícios

Paulo Rebêlo
Diario de Pernambuco - 27.abr.2008
fotos: João Carlos Mazella

Outrora conhecido como o maior centro de distribuição do chamado Polígono da Maconha, que produz e exporta a droga para vários pontos da região, hoje o município de Cabrobó, com apenas 28 mil habitantes, é um dos principais entraves para o governo federal no ambicioso projeto de transposição do Rio São Francisco. Inicialmente previsto para terminar em 2010, o empreendimento promete levar água para áreas menos favorecidas do Nordeste Setentrional e, segundo promessas oficiais, beneficiar 12 milhões de pessoas e gerar oportunidades para agricultura familiar e o agronegócio.

Não obstante a bandeira social de levar água a quem tem sede, passados três anos desde a licença prévia concedida pelo Ibama em abril de 2005, a transposição conseguiu um feito que dificilmente alguém imaginaria e, ainda hoje, é pouco explorado por estudiosos e governos: o conflito entre irmãos. Ponto nevrálgico entre os sertanejos, a esperança por água tornou-se alicerce de uma discórdia que não escolhe classe social, raça, profissão, ideologia e até religião.
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Arte, água e cólera

Wednesday, January 9th, 2008

Hoje é um daqueles dias que o público compra jornal na rua. Fazer uma boa primeira página é sempre um trabalho estressante para quem gosta da instituição chamada jornal e dias como hoje conseguem convencer até os incrédulos que vale a pena comprar, nem que seja umzinho para ler no banheiro.

A Folha de S. Paulo abre com a notícia mais apurada (já estava na internet ontem) sobre a “devolução” dos quadros roubados no Masp. Pouca gente acreditava que esses quadros roubados iam reaparecer, mas a polícia os encontrou intactos em uma casa na periferia de São Paulo. A capa é boa, mas a notícia em si deixa a desejar nos detalhes da investigação. Talvez divulguem mais adiante, para não atrapalhar a busca pelo mentor do crime. A Folha também destaque a importante vitória de McCain, para quem acompanha as eleições americanas. Esse McCain é incansável, está em todas as campanhas para presidente. O Estadão abriu com menos destaque a questão do Masp, O Globo com menos destaque ainda (uma nota na capa). Detalhe do jornal carioca é que a foto é classuda demais, deixaram a explosão de lado.

Como bem frisou um colega de redação, a primeira página do Diário parece mais o Diário Oficial do Estado, tamanho é o ufanismo. Verbos, sempre eles. E quando são incisivos, a carga é ainda maior. Mas a chamada atrai e as outras manchetes, menores, recompensam o ufanismo da principal: a denúncia contra um major da PM, o assaltante baleado, o empréstimo a aposentados e a permanência de Carlinhos Bala no Sport, para os fanáticos por futebol.

Se tivesse de escolher entre os três de Pernambuco hoje, ficaria com a cólera do JC, sem trocadilhos. Mas depois compraria outro, decepcionado com a falta de maiores detalhes na matéria em questão, principalmente um resgate histórico sobre quanto o cólera já assustou os pernambucanos em tempos nem tão remotos assim. A foto de agência, em destaque, da explosão em favela do Rio de Janeiro também terminou sendo outra escolha bem acertada. O Diário preferiu usar a imagem menor, quase passa em branco.

A Folha de Pernambuco também investiu na água, seguindo a mesma linha sugestiva-popular e sem ufanismo. O mais engraçado é que o jornal parece adorar dar destaque à careca do governador Eduardo Campos, pois é líder nesses enquadramentos clássicos de assinatura de convênios. Sempre nos ferramos, os quase-carecas.

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São Francisco se transforma no rio da discórdia

Thursday, December 27th, 2007

Projeto de transpor as águas coloca em lados opostos ribeirinhos e sertanejos

Paulo Rebêlo
Folha de S. Paulo | 26/dez/2007
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O chão é árido a ponto de rachar. Os galhos quebram com facilidade de tão secos. Açudes e palmas de cactos que servem como alimento de animais -e até de seres humanos- também secam. Se vivo estivesse, Graciliano Ramos certamente diria que as vidas nunca deixaram de ser secas. Ele só não saberia explicar como pode haver tanta água a poucos quilômetros de um cenário tão ríspido.

Às margens do rio São Francisco, o agricultor Valdemar Bezerra Luna criou filhos e netos nessa região longe de grandes cidades e carente de infra-estrutura. Afinal, dos 84 anos 54 foram à beira do rio no sertão pernambucano. Depois de tanto tempo, ele garante que sua própria existência tornou-se uma extensão do rio, com benesses desde a água para consumo até a manutenção de uma pequena roça com a qual alimenta a família. A vida de seu Valdemar não é muito diferente da de milhares de famílias às margens do gigantesco rio com 2.863 km de extensão, cuja nascente fica na Serra da Canastra (MG). As turvas águas da bacia hidrográfica do São Francisco percorrem 504 municípios, com população ribeirinha que ultrapassa os 13 milhões.

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