Archive for November, 2006

Hungria se despede do irmãozinho

Saturday, November 18th, 2006

Paulo Rebêlo
Folha de S. Paulo – 18.nov.2006 (link original)

BUDAPESTE – A morte de Ferenc Puskas, chamado de Öcsi (irmãozinho) pelos húngaros, causou grande mobilização ontem em Budapeste, com autoridades correndo para fazer anúncios públicos no rádio e na TV. O primeiro-ministro da Hungria, Ferenc Gyurcsány, classificou o ex-jogador como o húngaro mais conhecido do século 20. “Com ele dizemos adeus à era mais gloriosa do futebol húngaro. Sabíamos que Puskas Öcsi estava muito doente, mas não poderíamos nunca estar preparados para o seu falecimento”, disse o premiê.

O húngaro-brasileiro André Adler, que visitou Puskas pouco depois da internação na UTI, faz parte de uma geração que sentiu o orgulho pátrio no máximo com Puskas. “Cresci no Brasil, orgulhoso de tê-lo como a melhor explicação do meu país.”

Um dos companheiros de Puskas na seleção húngara, Jeno Buzanszky considera a morte uma tragédia. “O maior esportista deste país se foi.” Na semana retrasada, quando Puskas ainda mostrava sinais de que poderia ter seu quadro de saúde estabilizado, a revista “Matala” publicou uma lista dos 50 húngaros mais ilustres de todos os tempos. No topo do ranking, o astro foi definido assim: “Só os húngaros discutem se Puskas é o maior húngaro vivo, pois o resto do mundo sabe muito bem que ele é. Não podemos decidir se ele é o sexto ou sétimo melhor jogador de futebol. Mas, quando ele nos liderava, nós podíamos vencer o mundo”.

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Windows Vista: o que você precisa saber antes de atualizar

Wednesday, November 15th, 2006

Paulo Rebêlo
UOL Tecnologia – 11.nov.2006 (link original)

Cinco anos depois de lançar o Windows XP, o sucessor Windows Vista está pronto e a Microsoft garante que todo mundo vai querer usar. Será? Antes de procurar saber quais são as novidades e quão bonito é o visual, o usuário deve primeiro entender as mudanças conceituais oferecidas pelo Vista —fatores que realmente vão influenciar seu dia-a-dia na frente do computador, como ferramenta de trabalho ou diversão.

O Vista começa a ser vendido apenas no final de janeiro de 2007, porém, a partir deste mês muita gente já vai usar em máquinas corporativas. Em dezembro, algumas fabricantes poderão vender computadores novos com o Vista pré-instalado.

Para o usuário final, o Windows Vista é um paradoxo. Em termos de recursos e novidades, não chega a ser metade do que a Microsoft prometeu durante os cinco anos de desenvolvimento; e continua a falar hoje. Por outro lado, em termos de usabilidade e experiência de uso, o impacto que o Vista causa - naqueles usuários habituados a versões anteriores - pode assustar um pouco e, quem sabe, não agradar em nada.

O Windows Vista apresenta quatro pilares que fazem a diferença em relação às versões anteriores. Cada pilar tem dois extremos. Quando um pilar maximiza uma determinada experiência de usuário, ao mesmo tempo ele tende a minimizar outro tipo de experiência. É como um jogo de perdas e ganhos. Quando você estica de um lado, a outra ponta diminui. E foi exatamente o que a Microsoft fez. Os quatro pilares são:

Beleza <> Usabilidade
integração
<> Compatibilidade
Resultados
<> Personalização
Performance
<>
Hardware

beleza vs. usabilidade

O primeiro impacto do Vista é o visual, realmente atraente e com recursos nunca antes conhecidos na plataforma Windows. Além de poder trabalhar em um ambiente de trabalho tridimensional (3D), você tem janelas translúcidas de verdade, papéis de parede de tirar o fôlego e toda uma série de cores e animações que empolgam.

Essa maximização da experiência visual, contudo, trouxe uma minimização de usabilidade para usuários mais experientes ou todas aquelas pessoas que se acostumaram a trabalhar com a interface clássica do Windows, cujo alicerce é basicamente o mesmo desde o Windows 95. A transparência das janelas às vezes atrapalha sua produtividade, principalmente se você estiver usando várias delas abertas. Na hora de mudar de uma janela para outra, é comum você clicar no lugar errado e não chegar onde deseja —quando a janela está próxima da barra de tarefas, por exemplo.

Quem navega muito na Internet, já se habituou a usar o botão de “Voltar” do browser. No Vista, o botão de “Voltar” é constante em todas as janelas, ali em cima do lado esquerdo e, às vezes, substitui o clássico botão de “voltar” que ficava antes do “próximo” em janelas simples de instalação de softwares ou configurações do sistema. Vai levar um tempo até se acostumar. Fora isso, são vários pequenos detalhes que, apenas depois de um mês ou mais de uso diário, você começa a prestar atenção. Afinal, o Vista não é tão simples de usar quanto a Microsoft diz.

O usuário sempre tem a opção de esquecer o visual arrojado do Vista e configurar para a interface clássica. Nossa sugestão, para quem realmente passa horas na frente do PC, trocando de janelas várias vezes, é optar pelo tema “básico” do Aero, quando você ainda terá um ambiente mais bonito, mas sem transparências exageradas, sem ambiente tridimensional e sem janelas translúcidas. Mesmo assim, boa parte dos pequenos detalhes (negativos) de usabilidade continuarão.

integração vs. compatibilidade

É fato. A cada nova versão do Windows, a Microsoft integra ao sistema operacional várias soluções da empresa e entrega ao usuário logo na instalação. Apesar disso ter causado processos judiciais no mundo inteiro, a Microsoft parece não ter ligado muito.

Com o Vista, a integração do sistema operacional às ferramentas Microsoft foi maximizada ao extremo, de um jeito que pode assustar o usuário experiente, ao mesmo tempo que tende a agradar a maioria dos usuários novatos. Afinal, se você tem o Windows com quase todas as ferramentas que precisa no seu dia-a-dia, não há necessidade prática de procurar na Internet e fazer o download de ferramentas desenvolvidas por outras empresas. É assim que “pensa” o Windows Vista.

Além dos óbvios Internet Explorer 7 e Windows Media Player 11, quase todos os programinhas lançados pela Microsoft são instalados em versões melhoradas. O Windows Defender (antispyware) está lá, até pode ser desativado, depois de o Windows lhe perguntar duas vezes se você realmente quer “deixar seu computador desprotegido de ameaças e spywares”.

Para quem trabalha com grande volume de arquivos e habitou-se a usar programas de localização rápida, como o Google Desktop Search ou o Yahoo Desktop Search, o Vista traz embutido o Microsoft Desktop Search. É basicamente a mesma ferramenta disponível para download gratuito para o XP. Ou seja, em tese, você não vai precisar se “preocupar” com isso. Tem ainda o cliente de e-mail (Windows Mail) que substitui o Outlook Express, o DVD Maker (edição de vídeos), um software de conferência, um programa de calendário e agenda… a lista é longa.

A integração entre as ferramentas Microsoft e o Vista, obviamente, é perfeita do ponto de vista técnico. Graças à integração, esses programas (Defender, Media Player, IE, Messenger etc.) ficam mais rápidos e acessíveis. O mesmo vale para gravações de CDs e DVDs, agora perceptivelmente melhor do que no Windows XP. Para a imensa maioria dos usuários, não será nem preciso instalar um aplicativo de gravação, como o Nero ou Easy CD Creator.

Por outro lado, o quesito compatibilidade tende a ser minimizado para quem gosta de usar programas de outras empresas. O próprio vice-presidente da Microsoft, Jim Allchin, disse em entrevista recente que, hoje, o Vista “não precisa de antivírus” graças ao controle de contas de usuários melhorado.

Em resumo, o Vista é um prato cheio para quem gosta das ferramentas Microsoft e as usa hoje no Windows XP. Você terá uma experiência melhor e mais rápida. Para quem prefere optar por softwares diferentes, pode ser um problema. Os outros softwares podem ser instalados normalmente, a maioria funciona. No entanto algumas pessoas ficarão com aquela “leve” impressão de que eles estão mais “pesados” e sobrecarregando o sistema operacional.

resultado vs. personalização

Política de resultados. É um termo bem corporativo, mas é o que o Windows Vista lhe oferece, em troco de lhe tirar várias pequenas opções de modificar o sistema para seu gosto pessoal.

Ao instalar o Vista, supostamente o produto está pronto para uso. Não é preciso se preocupar com segurança (firewall e antipsyware estão ativados automaticamente), com performance (configurada na instalação de acordo com os requisitos do seu computador) e com visual, que é aquela belezura que falamos anteriormente.

Ocorre que a política de resultados da Microsoft vai tirar muita gente do sério. Quem gosta de personalizar o Windows e deixá-lo com a própria cara, vai ficar perdido no mar de opções disponíveis no Painel de Controle. Operações simples como, por exemplo, mudar o papel de parede, mudar o padrão de cores, configuração do teclado, opções de performance, entre outras, ficaram mais distantes do usuário.

O Painel de Controle é gigantesco, são dezenas de ícones novos e boa parte não tem utilidade para 90% das pessoas. Se antes você só precisava de dois cliques para chegar a um lugar, agora você pode precisar de quatro.

A Microsoft garante que o Vista é um sistema “extremamente mais fácil” de usar. Talvez. Para personalizar, porém, a história é outra. Usuários mais experientes vão levar, pelo menos, uma a duas horas para deixar o sistema do jeito que gostam —apenas alterando as configurações originais do produto, sem instalar nenhum software.

A imensa quantidade de utilitários e ferramentas integradas da Microsoft, em contrapartida, vão lhe tomar um precioso espaço em disco —quase 10 GB, o sistema operacional inteiro. E você não tem como se livrar deles.

A quantidade de opções de personalização são bem maiores do que no Windows XP, mas boa parte é inútil ou até difícil de encontrar. Pelo que acompanhamos no desenvolvimento do Vista, os programadores tentaram maximizar a experiência de uso para o usuário leigo, não é preciso mexer em configuração alguma. E, com isso, minimizaram a experiência de quem está habituado a usar um Windows personalizado. O novo sistema de controle de usuários (User Account Control) e a subdivisão de cada item na configuração do visual são simples exemplos desse contraste.

performance vs. hardware

Aqui chegamos ao nó-cego do Vista. Em termos concretos: sim, o Vista é mais rápido e tem uma performance-geral superior ao XP —desde que você tenha uma super máquina para tal. Parece uma afirmação óbvia, mas não é. O que acontece com o Windows Vista é que o código do sistema é otimizado para aumentar a performance do Windows de modo progressivo. No entanto, para tirar proveito das benesses, só quem possui uma máquina suficientemente boa é quem vai lucrar.

Entender a diferença é simples. Se você tem 1 GB de memória RAM, o Vista vai conseguir gerenciar esse espaço de um jeito melhor do que no XP. Se você tiver menos, é melhor esquecer o Vista por enquanto. É mais ou menos o que ocorreu entre Windows 98 —que tinha um péssimo geranciamento de memória— e o Windows 2000. Os requisitos mínimos que a Microsoft estipula são uma falácia, não leve em consideração. Instalar o Vista com menos de 1 GB de RAM só vale a pena se você realmente quer experimentar a novidade pela aventura. Para o uso diário, com produtividade similar ao XP, o mínimo é 1 GB de RAM.

Para jogar e ter boa performance, reflita sobre 2 GB de RAM —e lembre-se que a memória precisa ser rápida, no mínimo 400 MHz. Hoje, você encontra fácil no mercado pentes de memória de 533 Mhz e, se tiver sorte, de 667 Mhz. O problema é encontrar um vendedor que saiba a diferença.

O Vista consegue maximizar os novos recursos de multi-processamento (chips com mais de um núcleo), enquanto o XP ainda tenta aprender. Os discos rígidos mais recentes, também, são exigidos ao máximo pelo sistema operacional, oferecendo uma velocidade superior de operações simples como copiar e mover grandes volumes de documentos. Por outro lado, hardwares antigos (ou até recentes) serão minimizados em relação ao XP —apesar de a Microsoft jurar que o código do Vista atende às duas situações.

Sistema “aprende” hábitos
O recurso Superfetch do Vista é uma das grandes sacadas no quesito performance. Ele “aprende” os hábitos do usuário, os horários que você carrega seus softwares prediletos e que tipo de uso você faz do computador. Com isso, os arquivos são alocados na memória para um acesso mais rápido. Acontece que o Superfetch exige um bom disco rígido e memória RAM para se tornar imprescindível.

Outra novidade é o ReadyBoost. É um tipo de memória cache que você pode usar no seu pen drive, desde que o deixe ligado enquanto usa o Vista. De acordo com a base de dados da Microsoft, o Readyboost agiliza operações simples de disco, sendo uma espécie de suporte para a memória RAM e o para o arquivo de troca (swapfile). O problema? Primeiro, nem todos os pen drives suportam o recurso, apenas aqueles modelos mais rápidos/novos. Segundo, é que até agora ninguém conseguiu provar, de fato, o quanto o Readyboost ajuda em performance. A Microsoft garante que até 15% em alguns tipos de operações de disco. Para o usuário final, a diferença é simplesmente imperceptível em qualquer situação. Quem gostou da novidade foram as fabricantes de pen drives.

Na interface, o hardware novo também é essencial. Quem tiver placa de vídeo lenta, não vai poder experimentar o visual translúcido do Vista. Até pode, em algumas ocasiões, a troco de uma performance sofrível de tão lenta.

E por fim, os jogos. Quem adora um joguinho, mais cedo ou mais tarde precisará migrar para o Vista. O DirectX 10, biblioteca gráfica do Windows, não vai ter versão para o Windows XP. Novas placas de vídeo DX10 começam a ser lançadas no mercado e, com elas, virão os jogos. Os primeiros devem aparecer ainda em dezembro. Halo 2, por exemplo, será exclusivo do Vista. Outros também serão lançados na plataforma única do DirectX10, como a continuação do FarCry para PC.

Os jogos de hoje, quando rodados no Vista, também seguem a diretriz de perdas e ganhos. Com um bom hardware, a performance tende a melhorar. Com o seu hardware médio de hoje, esqueça. É melhor continuar jogando no XP.

Durante o ano de 2007, conforme o Vista se tornar o padrão de sistema operacional no lugar de XP, talvez não haja saída além de atualizar. A gama de hardwares novos já começa a chegar otimizada para o Vista, deixando o XP para trás. E o velho ciclo entre hardware e software recomeça.

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Friday, November 10th, 2006

The Budapest Sun - 09.nov.2006 ( link original )


I’ve already seen many dead bodies in my life. I’ve played pool with convicted murderers. I’ve seen a guy being stabbed in the chest right at my side. I’ve got drunk with pirated whisky and hot beer. The list of bad things I have seen is not short. But I have never before come so close to seeing heaven turn itself into hell as I did while covering the recent riots in downtown Budapest.

Even though I’ve been living in the city for fewer than four months, and still feel a little like a lost foreigner, I felt ashamed seeing the places I had learned to like so much being transformed into a raging arena.

I can’t stop wondering how the ordinary Hungarian felt after waking up the day after the Oct 23 riots and seeing his country so badly shaped on the front pages of newspapers and TV shows around the world. As for me, as weird and selfish as it might sound, I had to explain to my pals back in Brazil that the Budapest they were seeing on TV was the same “beautiful and peaceful Bp” I usually mention in my emails and stories.

All of a sudden, all those nice, metropolitan places I walk daily – Astoria, Deák tér, Andrássy, Blaha Lujza and so forth – were filled with an unprecedented set of insane extremists and police officers fighting each other. Back in Brazil, scenes like these are not unusual. Actually, in some of the really huge cities, like Rio de Janeiro or Sao Paulo, it’s quite common, to say the least.

But we are not in Brazil. We’re talking about a country which impressed the whole world 16 years ago with a peaceful transition to capitalism, and has managed to be a peaceful and cheerful place since them. What brings tourists from around the world to Budapest is not only its natural beauty and thermal baths. There is also this whole feeling of being in a receptive and pleasant place, with receptive and pleasant people. It is what I like to call the “yellow feeling.”

I had believed I was quite aware of what was happening in Hungary, at least in a political point of view, since it has kept me a bit busy working for the Brazilian media.

However, when I saw a couple of very old fellows who fainted in front of me running from the cops and their rubber bullets, an officer being beaten by a couple of extremists, one masked guy protecting himself from the tear gas and being beaten by five cops all together, I realized I didn’t have a clue about what those people were thinking of achieving with such unnecessary violence from both parts.

Trying to explain the politics behind the riots is okay, but finding the real reasons might well prove difficult to pin down. And, just like Brazil, I’m inclined to say that most of those raging youngsters have no idea what they were trying to do, why they were there and the meaning of those red-striped flags. From this foreigner’s point of view, I would describe the recent riots in Budapest as being like a very bad trip.

XENOPHOBIC - The riots are gone (hopefully), but the bad images they have left behind are, unfortunately, still present in many people’s minds. What scares me even further than the physical violence is the spoken violence present in many racists and xenophobic speeches I’ve heard against Romanians, gypsies and other eastern European nations.

Although Europe is known worldwide as a highly xenophobic continent, the last thing a foreigner would expect to see in Hungary and nearby countries is xenophobic aggression against each other. But when it comes to real life, the sort that is not included in tourist guides and books, foreigners are usually wrong with all their pre-conceived ideas.

What most Hungarians, Slovaks, Romanians, Ukrainians and, indeed, all eastern European residents perhaps don’t realize is that, for the most part of the so-called “rich Europe,” everyone living in these countries is taken together as an “easterner” – and not in a very good sense.

In the end, when it comes to xenophobic tensions and from what I’ve been seeing for the past decades, it doesn’t really matter. Because, whether you are right or wrong, the result will be always the same: xenophobia is a pre-historic behavior, and its roots, consequently, are very deep.

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Monday, November 6th, 2006

Programadores sentem falta da tela preta e lamentam que a Computer Associates tenha vacilado.

Paulo Rebêlo – Webinsider, 06.nov.2006 [ link origiinal ]

Durante os últimos anos, sempre bate uma ponta de nostalgia quando o noticiário de informática publica algo sobre a Computer Associates, hoje formalmente chamada de CA, Inc. É sempre notícia ruim, por conta de um escândalo financeiro que data desde o ano 2000 e se arrasta até os dias de hoje.

Envolve uma fraude de milhões de dólares e, recentemente, li em algum lugar que o ex-CEO Sanjay Kumar teve a prisão anunciada. Talvez não seja nada diferente de tantas outras fraudes americanas de Bolsa de Valores que a gente lê no jornal e nem sempre entende direito. A diferença, para mim e para uma legião de programadores de duas décadas atrás, é que apenas ler o nome Computer Associates faz a gente se remexer na cadeira com um brilho nos olhos.

O Clipper não apenas fez história no Brasil, mas também foi responsável por decisões de carreiras de inúmeros programadores que davam seus primeiros passos no mundo da informática-bruta (de código) com linguagens de programação. Em uma época onde a informática ainda era um leviatã abominável no Brasil e ninguém tinha computador, as empresas brasileiras de vanguarda sabiam que o futuro estava entre linhas de código. Linhas que desenvolviam um sistema de almoxarifado, de contas a pagar e receber, de arquivos, de recibos e nota fiscal, de controle de custos e, claro, aqueles intermináveis sistemas de catálogos para locadoras e afins.

Durante mais de uma década, aquela linguagem movida a banco de dados foi esposa e amante de centenas de programadores brasileiros. Simplesmente, eles não conseguiam dar conta da crescente demanda por sistemas. Farmácias, armazéns, lojas, locadoras, shoppings, livrarias… de repente, todos os potenciais clientes adquiriam seus primeiros PCs e logo entendiam como a produtividade (e facilidade) aumentava com um simples sisteminha em banco de dados.

Foi uma época de ouro para os programadores em tela preta (DOS), com o auge até a metade dos anos 90. Foi quando o Windows 3.1 tornou-se a plataforma de escolha universal, roubando nossa esposa e amante, nos traindo com linguagens coloridas (Visual Basic, Visual C++) e uma interface cheia de janelas simultâneas que me deixava perdidão. E o Windows 95 apenas confirmou todos os nossos medos.

Nada de novo

Meu primeiro contato com Clipper foi na versão Summer ‘87, mas na época não cheguei a fazer nada – a idéia de “computador” ainda era indescritível para muita gente, a começar por mim. A Summer ‘87 foi a última versão ainda mantida pela Nantucket, criadora original da linguagem que, basicamente, servia como um compilador para o dBase, que vinha desde o início dos anos 80. Só com o lançamento do Clipper 5, em 1990, agora pela Computer Associates, é que uma legião de novos e velhos programadores entendeu que a informatização de tudo (sistemas) era um caminho sem volta.

O cenário a seguir não foi tão diferente do que ocorre hoje. Havia programadores e programadores. Os ruins sempre prejudicavam o coletivo, a carência de bons profissionais gerava uma super-demanda improdutiva, grupos de programadores viravam noites seguidas compilando códigos ou, simplesmente, noites seguidas tentando descobrir onde estava o erro apontado pelo compilador… eram amantes. Às vezes, ficar tantas horas naqueles cubículos parecia cena da manicômio. Carregávamos o disquete com as milhares de linhas de código (esposa) para casa, onde a gente não tinha sequer computador, mas virávamos a noite com ela mesmo assim, olhando cada detalhe no papel.

E depois brigávamos com a esposa e com a amante, porque o compilador dizia que o erro era na linha 67, mas acontece que não tinha erro na linha 67; o erro só era encontrado mesmo lá pela linha 352, que o compilador não sabia dizer que ali se chamava uma função errada relacionada à linha 67, mas o erro mesmo era na linha 352 e não na linha 67, assim a discussão era interminável. Tinha gente que pedia o divórcio, ia para o bar beber até de manhã, mas no outro dia se arrependia e fazia as pazes, agora tratando com mais carinho a bagunça das linhas de código e adicionando comentários explicativos de quando em quando.

A diferença de ontem para hoje, talvez, seja apenas uma aura de (pseudo)-romantismo que aqueles monitores monocromáticos causavam. Não havia internet, aliás, não havia ainda nem BBS no sentido popular que depois se tornaram. Não tinha MSN ou ICQ para passar o tempo ou desopilar, nem e-mail para responder. A concentração era total, alienação total, ao menos até a campainha tocar com o cara da pizza que, de tanto fazer entregas, já entrava e ficava conversando por uma meia hora e depois até o dono da pizzaria vinha tomar uma cerveja e reclamar que o sistema que a gente desenvolveu para ele era “feio”.

As traições

Muitos programadores que fizeram carreira com o Clipper entre o final dos anos 80 e metade dos anos 90, culpam a Computer Associates pela derrocada final da linguagem. Quem trabalhava no ramo encontrava pouquíssimo tempo para aprender uma nova linguagem gráfica. E as opções, sobretudo Visual Basic e Visual C++, cresciam e apareciam. Da mesma forma que antes a gente viu que aquilo seria o futuro da informática, pelos idos de 1995 também vimos que ficávamos para trás. A Computer Associates prometia, prometia, mas nunca entregava a versão gráfica do Clipper, o CA Visual Objects.

Em grande parte por conta dos avanços da versão 5.3, programadores destemidos e competentes conseguiam reproduzir na tela preta um ambiente similar ao Windows. Lembro que pirei quando um amigo começou a me ensinar como trabalhar com orientação a objetos no Clipper, de como tudo poderia ficar tão mais fácil e produtivo. Mas, era algo forçado, não-natural. De verdade, o que todos iriam exigir em pouco tempo – já exigiam – era um sistema que rodasse nativamente em Windows, coisa que o Clipper não poderia oferecer nunca. Quem era muito bom naquela linguagem se viu órfão e traído. Quando o CA-Visual Objects foi lançado e apelidado de Clipper for Windows, vimos que a traição era muito maior do que imaginávamos. O software era ruim, lento e com intermináveis bugs.

Houve um interlúdio no qual alguns tentaram migrar para o dBFast, uma espécie de dBase forçado para Windows, que nunca deu certo. Fui um deles, investi meses inteiros migrando sistemas de Clipper para dBFast, que exigia ainda mais linhas de código do que antes, para só depois ver que estava jogando dinheiro e tempo no lixo. Foi quando a Borland lançou o dBAse for Windows e nada de chegar o CA-Visual Objects. Quando chegou, foi em desastre. O dBase não teve muito tempo de vida, chegou o Delphi e o resto é história recente.

Legiões inteiras de programadores ficaram órfãs. Parte migrou para linguagens gráficas, sobretudo Delphi e Visual Basic. Parte se manteve grudada ao Clipper, desenvolvendo para DOS mesmo com o lançamento do Windows 95 que aniquilou de vez a plataforma-texto. Um grupo menor de pessoas, o qual fiz parte, simplesmente jogou a toalha branca e mudou de carreira.

Meia dúzia de linhas

Em vez de começar do zero em uma linguagem nova bonitinha e colorida, fui teimoso durante um bom tempo, fazia questão de aprender ainda mais o Clipper, que eu já dominava. E quando a última versão realmente nos permitiu trabalhar com orientação a objetos, além de adicionar funções da linguagem C e Pascal ao código, eu realmente achei que havia futuro ali. Errei, evidentemente, em grande parte por esperar que a portabilidade entre Clipper e Windows seria suave e descomplicada. Teria sido um paraíso, levar todo aquele conhecimento em DOS para desenvolver sistemas funcionais em Windows – sem precisar aprender Basic para dominar o Visual Basic, linguagem que eu detestava porque considerava uma linguagem burra.

Acho que só abri os olhos à realidade, ali pela metade dos anos 90, quando conheci uma guria que programava muito bem em Visual Basic. Além de linda e inteligente (e provavelmente míope), a criatura tinha uma familiaridade com as linhas de código que impressionava qualquer um.

Certo dia, apresentei minha amante para ela: um disquete com páginas e páginas de linhas de código, para um sistema que eu estava tentando resolver. Pedi para ela me falar um pouco do Visual Basic que ela usava na época. Não levou dez minutos para a namorada colocar a amante para correr, do jeito mais cruel e maquiavélico possível.

Em uma fração de minutos, ela escreveu umas seis linhas de código, compilou e mostrou o resultado simples: umas janelas pulando, chamando funções externas e aceitando comandos de mouse e teclado no Windows 3.1. Eu olhei aquela meia dúzia de linhas, parei, pensei no meu código e conclui que, para fazer algo sequer parecido – gráfica e funcionalmente – me custaria pelo menos umas duas páginas inteiras de código. Foi naquele momento em que vi não ter nascido para aquilo. Ainda tentei aprender a noção de “linguagem orientada a eventos” (Visual Basic) em vez de “linguagem orientada a objetos”, boa parte por causa das coisas que aquela criatura fazia no VB, mas desisti.

Depois daquele dia, passei a olhar para todos aqueles meus livros de Clipper escritos pelo brilhante José Antônio Ramalho de outra maneira. Os livros de Clipper não eram livros, eram bíblias sagradas. E os livros do Ramalho foram meus travesseiros sagrados durante anos a fio. Eu sempre me perguntava como aquele cara podia entender tanto do riscado. A namoradinha do Visual Basic tornou-se uma especialista muito bem conceituada, uma assumidade no assunto. E eu passei para o lado negro da força, me distanciando e virando jornalista.

Uns quatro anos atrás, ou seja, quase dez anos depois daquela terrível meia dúzia de linhas de código, encontrei o José Ramalho pessoalmente pela primeira vez, em um evento onde vários jornalistas de tecnologia estavam reunidos. Só então acreditei que ele existia de verdade, pois às vezes eu pensava que o cara era um máquina – lembro que, na época, eu dizia que ele era um 486 quando todos os outros programadores brasileiros seriam um 286.

Quando vi o cara ao vivo, de carne e osso, tive que me conter para não ir lá pedir um autográfo e dizer que devia tanto a ele. Há anos eu não lia nenhum livro de informática e, depois, vi que o Ramalho lançou um livro sobre Banco de Dados Oracle, uma coisa que eu nunca entendi na vida, e ele continuava escrevendo livros sobre os mais variados assuntos de informática. E voltei a pensar que o cara, talvez, fosse mesmo uma máquina e aquela figura ali no evento fosse uma holografia.

Quase dez anos depois daquela meia dúzia de linhas de código, também reencontrei rapidamente a criatura que as escreveu. E achei engraçado que, além dos pensamentos óbvios masculinos e impublicáveis, eu olhava para ela e só conseguia lembrar daquelas linhas de código, do Visual Basic e aquelas janelas pulando no Windows 3.1 que eu nunca aprendi a fazer. Bom, eu espero que os companheiros de cela do Sanjay Kumar o tratem bem… mas, ok, não muito bem. [Webinsider]

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Sunday, November 5th, 2006

Paulo Rebêlo
Revista Backstage - novembro/2006

Na coluna anterior, analisamos um pouco as iniciativas das gravadoras em vender música digital na internet a preços considerados razoáveis. Por enquanto, são apenas promessas, longe de uma concretitude a curto prazo, mas podemos esperar boas novidades a partir do início de 2007. Isto é, se não acontecer o que tem ocorrido com frequência nos últimos anos, de a própria indústria boicotar iniciativas promissoras de mercado. Não seria exatamente uma surpresa. Uma reportagem recente do New York Times revelou, e agora para surpresa de todos, que a RIAA (Recording Industry Association of America) pode se voltar exatamente contra as gravadoras que tentarem vender músicas na internet a um preço considerado abaixo do mercado. Ou seja, é a própria associação se colocando contra os grandes “players” que tanto foram defendidos por ela desde o surgimento do MP3. É quase uma piada, de péssimo gosto, por sinal.

É difícil, para qualquer um, analisar friamente as estratégias de mercado da indústria fonográfica sem cair no campo ideológico. Quando você coloca o lucro rápido, fácil e exorbitante como prioridade máxima – em qualquer setor da economia, formal ou informal – é óbvio que vários degraus precisarão ser pulados e muita gente vai ficar para trás. Impetrando a metáfora no nosso campo de análise, a música digital, é fácil entender a relação: milhares de pessoas não podem comprar CDs; outras milhares até podem, mas não aceitam o preço cobrado; outras milhares podem e aceitam, mas preferem baixar de graça na internet. Esses três grupos distintos representam um prejuízo (abstrato) e um não-lucro (concreto) para as gravadoras. Faz diferença? Nenhuma. Não no mundo ocidental.

Não faz diferença porque, enquanto se tem milhões de pessoas que não podem comprar música, você terá um punhado delas que vai gerar receita suficiente para cobrir todas as outras. Ou seja, com o perdão da palavra cada vez mais demagógica, teremos uma pequena “elite” que comprará CDs suficientes para cobrir todos os custos da indústria e ainda gerar lucro. Do lado de lá, a indústria garante que a internet e o MP3 fazem que as compras sejam reduzidas e, por tabela, elas fiquem no prejuízo. No entanto, não é preciso ser PhD em Economia para analisar as tabelas de lucros e dados públicos sobre vendagem de CDs e DVDs musicais para perceber que, na última ponta, não tem ninguém (indústria/gravadora) tendo lucro reduzido na ponta do lápis.

E aqui é onde entra o papel da China, agora o país-vedete de qualquer tese econômica e análise de mercado. Quando você tem um país que não possui essa elite que responde por todo o resto da população, ou você entra no jogo ou pede para sair. No caso da China, como em vários outros países asiáticos e do Leste Europeu que passam por um choque de capitalismo, o cenário não é exatamente de falta de uma elite, mas cultural. Você até tem a elite, mas diante da gigantesca população periférica ou da cultura de pirataria encruada na mente das pessoas, você pode simplesmente reduzir sua margem de receita, vender seu produto a preços competitivos e, de quebra, ainda vai lucrar o mesmo – ou mais – do que em outras praças, por conta do fator quantidade. É exatamente o que ocorre na China de hoje e, com algumas diferenças, em vários países do Leste Europeu que aos poucos aprendem como o capitalismo de herenças socialistas funciona.

Todo mundo já ouviu falar, ou pelo menos leu em algum lugar, que o “mercado” de filmes piratas na China é simplesmente abissal. Não somente filmes, mas entretenimento, em geral. Os mais puritanos até dizem que, na verdade, o abismo da pirataria toma conta de todas as frentes de produção na China, mas isso vamos deixar para os especialistas de outras colunas e revistas. O que queremos mostrar é que, num passe de mágica, as gravadoras e estúdios estão entrando no jogo da China, reduzindo preços em escalas de 400%, 500% e estão rindo à toa com os lucros mesmo assim.

Para termos um exemplo concreto, a Warner começou a vernder DVDs de filmes (na China) por preços a partir de US$ 1,70. E não são filmes clássicos ou antigos, o primeiro do pacote é nada menos que “Superman – O Retorno”. A ação começou apenas dois meses depois da estréia no cinema. Em entrevista ao jornal estatal China Daily, o diretor-geral da filial chinesa, Tony Vaughn, simplesmente disse que “esta é uma das novas iniciativas contra a pirataria da China Audio Video Warner em colaboração com o governo”. São quase 10 mil lojas pelo país vendendo o DVD original a preços módicos e, pasmem-se, começou muito antes da venda oficial nos Estados Unidos. É meio inacreditável, mas foi uma resposta à altura contra o mercado pirata. E funcionou. O próprio diretor-geral da Warner chinesa explicou, ainda em entrevista ao jornal estatal, que as principais razões para a pirataria na China é o alto preço das cópias legais.

Pelo menos em Xangai, os primeiros discos originais do filme podiam ser comprados há alguns dias em algumas lojas, ao preço de US$ 2,70. Também foram lançados o pacote com um documentário sobre a produção do filme por US$ 3,50 e uma versão com acabamento mais simples US$ 1,70. A companhia também ampliou sua rede de distribuição, dos 5 mil pontos de venda iniciais para 8 mil. Assim, antigos vendedores da versão pirata se transformaram em vendedores oficiais.

O Brasil está longe de ser uma China, em todos os fatores possíveis e imagináveis. No entanto, 180 milhões de habitantes você não encontra fácil ali na esquina. O problema é que talvez nossos 180 mil elitizados também não.

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